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O Oscar sempre buscou os filmes mais populares; a qualidade é que caiu

Criado para promover linha de montagem dos estúdios, evento paga a conta do sistema de produção com nova categoria

Cinema: os atores Clark Gable (Rhett Butler) e Vivien Leigh (Scarlett O'Hara) em cena do filme "E o Vento Levou..." (1939), dirigido por Victor Fleming.
Cinema: os atores Clark Gable (Rhett Butler) e Vivien Leigh (Scarlett O'Hara) em cena do filme "E o Vento Levou..." (1939), dirigido por Victor Fleming. - Divulgação
Sandro Macedo
São Paulo

O Oscar é o prêmio da indústria. Não foi criado por críticos ou estudiosos do cinema. Existe desde 1927 para promover a linha de montagem dos estúdios, que visa o lucro.

E ninguém faturou tanto quanto “...E o Vento Levou” (1939), maior bilheteria americana em valores corrigidos pela inflação, com incríveis US$ 1,87 bilhão (R$ 7,2 bi). No Oscar, o filme levou oito estatuetas, incluindo a de melhor filme. Era pop.

Aliás, entre as dez maiores bilheterias com valores atualizados, nove foram indicadas ao Oscar de melhor filme. Nem todos ganharam, como “Guerra nas Estrelas” (1977) ou “Tubarão” (1975), mas estavam na lista final.

A exceção é “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937), décimo nesse ranking, com US$ 1,01 bilhão (R$ 3,89 bi). Sem indicar o filme ao prêmio máximo, a Academia deu um jeito de prestigiar a animação de Walt Disney com uma estatueta especial na cerimônia.

Mesmo em anos não tão remotos, o Oscar sempre flertou com destaques das bilheterias. “O Silêncio dos Inocentes” (1991), “Questão de Honra” (1992), “O Fugitivo” (1993), “Forrest Gump” (1994) e “Apollo 13” (1995) estiveram entre as cinco maiores bilheterias em seus respectivos anos e foram indicados na categoria melhor filme —“Silêncio” e “Forrest” venceram.

Quando essa relação começou a mudar? Provavelmente na festa de 1997, que ficou conhecida como o Oscar do cinema independente. “O Paciente Inglês”, “Fargo”, “Shine - Brilhante” e “Segredos e Mentiras" disputavam a estatueta contra “Jerry Maguire, a Grande Virada”, único representante de um estúdio grande.

De volta aos dias atuais, os principais estúdios produzem cada vez menos filmes por ano e depositam suas fichas em adaptações de HQs, animações ou superaventuras. E deixam para as subsidiárias os “filmes do Oscar”.

Assim, a cerimônia está apenas pagando a conta desse novo sistema de produção.

Em 2009, houve uma primeira tentativa de trazer os sucessos de volta. A ideia foi dobrar o número de indicados na categoria principal, passando de cinco para dez.

Deu certo naquele ano. “Avatar”, “Up - Altas Aventuras” e “Um Sonho Possível” disputaram o prêmio de melhor filme —e perderam para o pequeno “Guerra ao Terror”.

Já em 2017 não dava para imaginar nenhum dos filmes entre as dez maiores bilheterias na categoria principal do Oscar, nem mesmo o superestimado “Mulher-Maravilha”. 

A premiação hollywoodiana sempre buscou o popular, a qualidade do pop é que caiu.

Se a nova categoria não levantar a audiência, talvez fosse o caso de a Academia se unir logo ao MTV Movie Awards e premiar o melhor beijo, vilão ou herói. Ou talvez promover o Framboesa de Ouro, este sim mais antenado com as superproduções.

Maiores bilheterias da história nos EUA

Fonte: Box Office Mojo;
Valores corrigidos pela inflação

1. ...E o Vento Levou (1939)
US$ 1,87 bilhão (R$ 7,2 bi)

2. Guerra nas Estrelas (1977)
US$ 1,65 bilhão (R$ 6,35 bi)
perdeu o Oscar para ‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’

3. A Noviça Rebelde (1965)
US$ 1,32 bilhão (R$ 5,08 bi)

4. E.T.: O Extraterrestre (1982)
US$ 1,31 bilhão (R$ 5,04 bi)
perdeu o prêmio para ‘Gandhi’

5. Titanic (1997) 
US$ 1,26 bilhão (R$ 4,83 bi)

6. Os Dez Mandamentos (1956)
US$ 1,21 bilhão (R$ 4,67 bi)
perdeu para ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias’

7. Tubarão (1975)
US$ 1,19 bilhão (R$ 4,57 bi)
perdeu para ‘Um Estranho no Ninho’

8. Doutor Jivago (1965)
US$ 1,15 bilhão (R$ 4,43bi)
perdeu para ‘A Noviça Rebelde’

9. O Exorcista (1973)
US$ 1,03 bilhão (R$ 3,94 bi)
perdeu para ‘Golpe de Mestre’

10. Branca de Neve e os Sete Anões (1937)
US$ 1,01 bilhão (R$ 3,89 bi)
não foi indicado a melhor filme, mas Disney ganhou um Oscar honorário pela obra

Erramos: o texto foi alterado

Em 1997, era "Segredos e Mentiras" que integrava a lista dos indicados ao Oscar, não "Os Últimos Passos de um Homem". O texto foi corrigido.

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