Descrição de chapéu Análise

Compositor Tito Madi, morto aos 89, nunca dissociou tristeza de beleza

Autor de 'Balanço Zona Sul' era o rei da fossa na hora de compor, mas transpirava doçura

O cantor e compositor Tito Madi em seu apartamento em Copacabana, em 2001 - Antônio Gaudério/Folhapress
Luiz Fernando Vianna
Rio de Janeiro

Tito Madi compôs uma das mais solares canções brasileiras: “Balanço Zona Sul”. E a alegria na sua obra não foi muito além disso.

Ele tinha bossa —e com ela construiu uma ponte entre o samba-canção, seu gênero por excelência, e a novidade musical do amigo João Gilberto.

Mas o que ele tinha de melhor era a fossa. Gravou quatro discos com essa palavra no título, entre 1971 e 1974. Na verdade, tristes eram as músicas que compunha e interpretava. Para quem o conhecia, Madi transpirava doçura.

Por causa dela, acabou perdoando (após décadas) João Gilberto, que quebrou um violão em seu crânio em 1961 —a briga por motivo fútil lhe custou dez pontos na cabeça.

No show do cinquentenário da bossa nova, João exaltou “o grande Tito Madi” antes de cantar “Chove Lá Fora”.

Em função da doçura, evitava direcionar mágoas a Roberto Carlos, que teria, segundo Madi, prometido gravar composições suas, ou mesmo um disco inteiro.

Quem realizou o projeto, agora em 2018, foi Nana Caymmi. O CD será lançado no próximo ano.

Chauki Maddi nasceu em Pirajuí (SP), em 1929, em família de origem libanesa. Descobriu-se artista na cidade natal, e em 1952 mudou-se para São Paulo já com o codinome Tito.

No primeiro disco, em 1954, interpretou seu samba-canção (e de Georges Henry) “Não Diga Não”, que receberia bem mais tarde, em 1983, um registro primoroso de Nana Caymmi.

Como autor, Madi nunca dissociou tristeza de beleza. Sua fossa era elegante nas melodias e nas letras.

“Chove Lá Fora” resume isso, com seu jeito de cena de cinema. Foi gravada por Milton Nascimento, Caetano Veloso e muitos outros, inclusive o conjunto americano The Platters. “Cansei de Ilusões”, de versos rasgadamente dolorosos, ganhou de Maria Bethânia, em 1981, sua melhor interpretação.

“Sonho e Saudade”, “Quero-te Assim”, “Carinho e Amor”. São muitas as canções comoventes que Madi criou. E, com exceções a confirmar a regra, o melhor intérprete delas era ele mesmo.

Voz grave e aveludada, na linha de Dick Farney e Lúcio Alves, Madi fazia chorar sem precisar cantar como se estivesse chorando. E também era ótimo no terreno da bossa nova, como nas gravações de “A Felicidade” e “Minha Namorada”, entre outras.

Sua produção fonográfica foi rareando com o tempo, mas ainda rendeu bons exemplares, caso de “Ilhas Cristais” (2001). No último CD. “Quero te Dizer que Eu Amo” (2015), a voz já estava bastante fraca.

Depois do AVC sofrido em 2008, Madi praticamente deixou de se apresentar e até mesmo de sair do seu apartamento, em Copacabana. Foi num hospital do bairro, o São Lucas, onde estava internado com pneumonia, que ele morreu na última quarta (26), aos 89 anos.
 

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