Descrição de chapéu The New York Times

Ídolos do folk, Paul Simon e Joan Baez se despedem de carreira em Nova York

Autores de 'The Sound Of Silence' e 'Diamonds and Rust' reviveram alma setentista em shows

Jon Pareles
Nova York | The New York Times

A década de 1960 acabou há muito, muito tempo: cronológica, musical e ideologicamente.

E, um a um, os principais músicos daquela era estão decidindo que já passaram tempo suficiente na estrada. Sim, Bob Dylan e Neil Young continuam excursionando.

Mas nas noites de sexta-feira e sábado, as turnês de despedida de duas grandes figuras cujas origens estão no revival do folk daquela década fizeram paradas na cidade de Nova York — Joan Baez, 77, cantou no Beacon Theater, e Paul Simon, 76, no Flushing Meadows Corona Park.

Houve momentos de fusão entre a carreira dos dois. Na noite de sábado, diante de mais de 30 mil espectadores, Simon explicou ter composto "Rene and Georgette Magritte With Their Dog After the War" — sua canção "de título mais esquisito", ele disse — depois de ver uma foto identificada por essa legenda em um livro que abriu ao acaso na casa de Baez na Califórnia.

Baez, na noite de sexta-feira, elogiou muito o show de Simon que havia acabado de assistir no Madison Square Garden. Depois cantou "The Boxer", um sucesso de Simon & Garfunkel.

Paul Simon ao vivo no Flushing Meadows Corona Park, no útimo sábado (22), durante sua turnê de despedida The Farewell Tour - Evan Agostini/Invision/AP

O show de Baez foi sereno e modesto, priorizando,como sempre, as canções que ela canta e a ideias sugerem. Simon trabalhou em escala maior, invocando um mundo de influências e detalhes, muitas vezes combinando introspecção com um clima festivo..

Um show de despedida é inevitavelmente um acerto de contas com toda uma carreira, uma última oportunidade de colocar em perspectiva quase que uma vida inteira de música.

O Grateful Dead precisou de cinco noites em 2015 —duas na Califórnia, três em Chicago— para abarcar a amplitude de sua música muitas vezes improvisada (e a maioria dos membros da banda voltou à estrada, em diversas configurações, depois de alguns poucos meses de pausa).

Em contraste, o repertório da turnê de despedida de Elton John, que durará três anos e chega a Nova York em outubro, é uma lista de duas dúzias de seus maiores sucessos.

Simon e Baez escolheram, ambos, se aposentar sem cantar apenas os sucessos do passado; seus shows de despedida não se limitaram a revisitar as glórias de suas carreiras, e os mostraram ainda engajados, ainda dispostos a mexer em suas fórmulas.

Baez brincou sobre sua "big band" —apenas um guitarrista e tecladista (Dirk Powell), um percussionista (seu filho Gabriel Harris) e, em algumas canções, uma vocalista de apoio (Grace Stumberg), além do violão que Baez mesma toca. O grupo oferece um pano de fundo discreto para a voz da cantora.

Ainda que ela tenha perdido um pouco de seu soprano transparente da década de 1960, retém a determinação de contar histórias e falar sobre consciência social.

Show da cantora Joan Baez no Teatro Bradesco, em março de 2014. - Folhapress

Sempre apegada ao folk, Baez prestou homenagem a mentores, camaradas e fontes.

Mencionou Pete Seeger, sua irmã Mimi (que gravava com o pseudônimo Mimi Fariña), a compositora chilena Violeta Parra, o movimento trabalhista celebrado em "Joe Hill" e ,acima de tudo, Dylan, de quem ela foi namorada e uma das primeiras divulgadoras.

O catálogo de composições dele ofereceu diversas das canções do show de despedida.

Baez abriu com "Don't Think Twice, It's All Right", e o relacionamento tempestuoso entre os dois foi tema de "Diamonds and Rust", composição rancorosa da cantora lançada depois que eles terminaram, e que a colocou no Top 40 das paradas de sucesso em 1975. Mais tarde, ela cantou "A Hard Rain's A Gonna Fall", de Dylan, e comentou: "Aquele menino não tinha boas maneiras, mas que compositor!"

Mas ela também recorreu a compositores mais jovens para falar do presente. Sua perspectiva atual, disse ela, é resumida por uma canção de Antony and the Johnsons, "Another World".

Depois de cantar sobre a vingança de uma mulher explorada, em "Silver Blade", balada composta para ela por Josh Ritter, ela citou o movimento #MeToo. E na canção mais tópica da noite, "The President Sang Amazing Grace", de Zoe Mulford, ela honrou a memória das vítimas de um homicídio em massa em uma igreja de Charleston. Carolina do Norte, em 2015.

A postura política progressista de Baez é tão conhecida que ela nem precisou falar muito do assunto. Em lugar disso, brincou a respeito.

Paul Simon durante sua turnê de despedida em Nova York, no último sábado (22). - REUTERS

Ao completar o show, a versão do hino nacional americano que Jimi Hendrix tocou em Woodstock foi usada como trilha de encerramento; ela e a banda se ajoelharam.

Baez concluiu o espetáculo com o spiritual "Swing Low, Sweet Chariot", usando a fé para aceitar sua mortalidade, e retornando à pureza que lhe trouxe fama na década de 1960. No fim, ela cantou sobre os anjos que estão chegando "para me carregar, para carregar vocês, para nos carregar —mesmo Donald—  para casa".

Simon, que insistiu em que está abandonando as turnês mas que continuará tocando e se apresentando ocasionalmente, escolheu o local de seu show de despedida com muita precisão: perto da Unisphere, um símbolo do otimismo mundial dos anos 60, no maior parque da região de Queens.

Joan Baez em apresentação no Brasil, em 2014;

Simon nasceu em Nova Jersey, mas cresceu em Queens, e estava sorrindo já bem antes de cantar o verso "tchau, Rosie, rainha de Corona", em "Me and Julio Down by the Schoolyard", sabendo exatamente o resultado que isso provocaria nas pessoas.

Depois de cantar "Kodachrome", que zomba "de toda a porcaria que aprendi no segundo grau", ele disse "é, isso é pra você, Forest Hills High", antes de admitir que na verdade "me diverti bastante" na escola.

Simon comandou o show final de sua vida de turnês com descontração casual, e causou gritos e aplausos sempre que uma das letras mencionava Nova York ou um dos marcos da cidade.

O Flushing Meadows Corona Park fica sob uma rota de aviação, e quando um jato  pssou por sobre a área a caminho da aterrissagem, Simon acenou para ele e desejou, alegremente: "bem-vindo a Nova York".

E encerrou o show, e sua carreira na estrada, com "The Sound of Silence", cuja letra contém uma advertência baseada na experiência cotidiana de viver em Nova York: "As palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô e dos cortiços".

Mas a música de Simon também retratou uma Nova York distante dos bairros do passado: conectada e informada internacionalmente, curiosa e acolhedora, culturalmente conexa e incansavelmente experimental, e muitas vezes um espaço de solidão irrequieta em meio à hiperatividade.

As melodias animadas de canções como "You Can Call Me Al" e "Kodachrome" vieram envoltas em tons de desespero e desilusão; propelida por percussão flamenca, a elástica "Wristband", de "Stranger to Stranger", álbum de 2016, fala sobre a raiva cada vez mais intensa das pessoas que se sentem excluídas.

Simon sempre evitou mensagens políticas diretas, determinado a não ser didático. Ele apresentou "American Tune" - uma canção de 1973 cuja letra diz "quando penso na estrada que estamos percorrendo/ tento imaginar o que saiu errado" - dizendo simplesmente "que época estranha, não é? Não desistam".

Paul Simon durante o Global Citizen Festival, em Nova York, no último sábado (22). - AP

Os ritmos eram internacionais e idiossincráticos, com grooves que invocavam Jamaica, Índia, África do Sul, Brasil, a salsa dos porto-riquenhos de Nova York e o zydeco da Lousiana ("That Was Your Mother", na qual Simon mostrou alguns passos de dança).

A multifuncional banda de 14 membros que o acompanhava incluía uma profusão de instrumentos — acordeão, oboé, cuíca brasileira — e um espectro notável de idiomas e fusões.

As despedidas na música pop tendem a ser definitivas até que deixem de sê-lo: basta perguntar ao Phish ou aos Eagles.

A turnê de despedida de Baez durará até o ano que vem, e a trará de volta ao Beacon em 1º de maio. E com essas apresentações como suas declarações finais, Baez e Simon deixaram a mensagem de que, mesmo que abandonem a estrada, seu trabalho ainda não está concluído.

Tradução de Paulo Migliacci

 

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