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Negro e gay que recusava ser rotulado, autor James Baldwin é redescoberto

Escritor americano que abordava questões raciais e de sexualidade tem livros lançados no Brasil

Daniel Benevides
São Paulo

O homem mais amargo que já conhecera tinha morrido. Seu padrasto. Era julho de 1943. Morreu pouco depois de uma das revoltas raciais mais sangrentas da história, em Detroit. No dia do funeral, quando James Baldwin fez 19 anos, outra revolta estourou no Harlem: “Quando o levávamos para o cemitério, em meio a um pandemônio de vidros quebrados, as marcas da injustiça, anarquia, insatisfação e ódio nos cercavam”.

Assim começa “Notes of a Native Son” (1965), ensaio que dá título a um dos livros mais impactantes de Baldwin,  escritor americano morto em 1987, em que fala da cultura afro-americana e dos preconceitos que sofreu, como quando atirou uma jarra no espelho de um restaurante porque ouviu pela enésima vez “não atendemos negros aqui”. 

A força de sua retórica e de seu pensamento, que não se encaixavam nas mil categorias criadas para dar conta das mudanças dos anos 1960 e 1970, está em cada página que escreveu, nos sermões que deu entre os 14 e os 17 anos como pregador-mirim, arrebatando mais fiéis que seu padrasto pastor, e também na inteligência com que desarmava argumentos e elevava a militância pelos direitos civis a um patamar ainda mais progressista e questionador. 

Ao se recusar a ser rotulado como “escritor negro e gay”, dizendo-se simplesmente um homem, um escritor, desmantelava o sistema de acomodações que perpetuava a segregação. Para ele, “a glorificação de uma raça e a consequente degradação de outras sempre foi e sempre será a receita para o assassinato”.

Era um sujeito fora de seu tempo. Não à toa, hoje é redescoberto como aquele que, se não tinha a voz imperiosa de Martin Luther King e Malcolm X, dois de seus amigos, produzia uma ressonância particular e profunda, não isenta de ironia, que ainda se faz sentir. 

O escritor James Baldwin
O escritor James Baldwin - Associated Press

Barry Jenkins inspirou-se nele para fazer “Moonlight”, filme que ganhou o Oscar, e acaba de lançar “If Beale Street Could Talk”, com elogios da crítica, baseado em um dos seus romances. 

O livro, de 1974, que conta a história de um jovem negro acusado injustamente de estupro, será lançado neste ano pela Companhia das Letras. A editora prepara para 2019 uma edição de “Notes of a Native Son” e lançou no mês passado “O Quarto de Giovanni”. 

Acaba de sair também “Terra Estranha”, seu romance mais complexo. Completando o cenário, o documentário “Eu Não Sou Seu Negro”, de 2016, mostra Baldwin numa série de entrevistas e eventos, magnetizando o espectador com sua inteligência.

A verdade é que nunca foi completamente compreendido, mesmo tendo sido capa da Time em 1963, época em que “Fire Next Time”, seu livro de ensaios, ficou 41 semanas nos mais vendidos do New York Times.

Por isso, já aos 24 anos, resolveu morar na França, onde morreria, numa bela casa no sul, visitada por Nina Simone (a quem abriu os olhos sobre os direitos civis), Ray Charles, Ives Montand e Miles Davis.

Nasceu no Harlem, franzino, quase não resistiu. O pai biológico, um junkie, logo caiu fora e a mãe casou-se com o soturno pastor, que já tinha um filho e com quem teria mais sete. No meio dessa balbúrdia, Baldwin achou tempo para ler e escrever precocemente. Era tão bom aluno que ganhou bolsa numa das melhores escolas de Nova York, onde predominavam judeus. 

Sempre teve vários amigos brancos, o que lhe valeu críticas dos movimentos negros, assim como o fato de ser gay. Eldridge Cleaver, líder dos Panteras Negras, iria mais longe, ao dizer que que era um “adorador de brancos”. 

Isso porque Baldwin surpreendeu a todos com o segundo livro, “O Quarto de Giovanni”, uma história de amor homoerótico entre dois brancos, em Paris. Nada poderia ser mais distante da expectativa que se tinha dele, a ponto de sua editora recusar o manuscrito.

Conseguiu lançá-lo por outra, dois anos depois, em 1956. Hoje é tido como um clássico. Seu começo é arrasador. O expatriado David, figura ambígua, porque parcialmente homofóbico, lamenta que o amante, o bartender italiano do título, será guilhotinado. O que se segue é uma história tortuosa de terror e decadência que não fica nada a dever a Oscar Wilde e Henry James —este, uma de suas grandes influências. 

Com “Terra Estranha” (1962), Baldwin foi mais longe e misturou os dois temas centrais de sua vida: sem se esquivar da descrição explícita do ato sexual, mostra uma Nova York boêmia e dividida entre o Harlem pobre dos irmãos Rufus e Ida (cuja fúria faz pensar no conceito de “lugar de fala”) e o Grenwich Village luminoso do casal quase wasp Cass e Richard. 

Há suicídio, relações interraciais, bissexualismo, traições, crises existenciais. 

Tudo escrito com equilíbrio quase impossível de paixão e racionalidade. E, apesar do final algo redentor, a impressão de que ficaram muitos escombros no caminho é grande, como nos outros livros. Ainda assim, o autor, perseguido pelo FBI, que juntou 2.000 páginas a seu respeito, costumava dizer: “não sou pessimista, porque estou vivo”. 


O Quarto de Giovanni 
James Baldwin. Trad. Paulo Henriques Britto. Ed. Companhia das Letras. R$ 49,90 (232 págs.)
Terra Estranha
James Baldwin. Trad. Rogério W. Galindo. Ed. Companhia das Letras. R$ 69,90 (544 págs.)

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