Descrição de chapéu Opinião

Região dos Jardins cumpre o papel de reserva ambiental de São Paulo

A expressão bairro jardim foi incorporada à nomenclatura urbana como sinônimo de distinção

Os Jardins, bairro na zona oeste de São Paulo - Reprodução/Google Earth
Mônica Junqueira de Camargo

As cidades são organismos vivos em constante mutação e, ao mesmo tempo, a memória que associa os habitantes ao seu passado.

As necessárias intervenções para atender às demandas de cada tempo não podem destruir seu caráter, pelo contrário, devem valorizar seus elementos históricos, deixando perceptíveis as várias camadas do ambiente construído que, além do papel memorial, são documentos para investigações das mais variadas áreas do conhecimento.

As cidades, mais comumente associadas às pesquisas da arte, arquitetura, engenharia, urbanismo, história, sociologia, antropologia, vêm sendo perscrutadas pela psicologia, saúde pública e ambiental, para o estudo da relação entre comportamento humano e ambiente construído.

Um bem cultural de grande complexidade, cuja preservação envolve questões distintas das suscitadas pelos monumentos históricos, fazendo surgir, no início do século 20, o conceito de patrimônio urbano, internacionalmente reconhecido, em 1964, pela Carta de Veneza.

A preservação de um bem cultural requer inicialmente a compreensão do que se deseja preservar, quais os atributos e valores responsáveis pelo seu caráter.

No caso da mancha urbana tombada pelo Condephaat na resolução 02/86, que compreende a área entre av. Rebouças, av. Nove de Julho, av. São Gabriel, av. República do Líbano, r. Estados Unidos e av. Faria Lima, é importante preservar um determinado desenho urbano que introduziu novas relações entre espaço público e privado, a partir do equilíbrio entre cheios e vazios, cujo desafio é como garantir tal preservação continuamente, frente às mudanças de legislação e uso desses espaços.

Essa área é uma referência histórica no desenvolvimento da capital. Constituída de distintos loteamentos, entre eles o Jardim América, cuja inovação e sucesso empresarial se tornaram referência para a implantação dos circunvizinhos: Jardim Europa, Paulista e Paulistano.

O Jardim América foi criado pela Companhia City, segundo projeto dos arquitetos britânicos Barry Parker e Raymond Unwin, responsáveis pela primeira garden city da história —Letchworth, importante referência dos debates urbanos no início do século 20, como uma alternativa ao descongestionamento das áreas centrais.

O Jardim Europa, por sua vez, foi projetado por Hippolyto Pujol Jr, em 1919, fiel ao modelo do seu vizinho; o Jardim Paulistano, loteado pelos irmãos Mafuhz, replicou o traçado orgânico, porém com lotes menores, e o Jardim Paulista manteve apenas o uso residencial, retomando o traçado em tabuleiro com lotes de dimensões distintas.

A relativa homogeneidade dessa área densamente arborizada, em contraste com o entorno altamente verticalizado, cumpre o papel de reserva ambiental.

A bem-sucedida experiência do Jardim América foi replicada pela City em outras áreas, como Pacaembu, Alto da Lapa, Alto de Pinheiros, Butantã, Caxingui, Boaçava, constituindo um padrão rapidamente assimilado por empreendedores imobiliários não só na capital como em outros municípios, com a expressão bairro jardim incorporada à nomenclatura urbana como sinônimo de distinção.

O traçado orgânico das ruas segundo as curvas de nível, em contraposição à malha retilínea predominante na cidade, os recuos ajardinados, as fronteiras entre espaço público e privado buscando a integração à arborização das ruas instituíram um novo padrão urbanístico determinante de um novo ambiente.

Com regras muito bem definidas de uso e ocupação dos lotes, muito mais restritivas que as municipais, e sob forte fiscalização da companhia, esses bairros conseguiram manter sua integridade nos anos 1980.

Com a expansão da cidade, o aumento de trânsito nas principais artérias, a mudança de uso de alguns imóveis, e a forte pressão do mercado imobiliário à verticalização, a mancha identificada como Jardim América foi, a partir de um pedido dos moradores, tombada pelo Condephaat, referendada pelo Conpresp em 2004, e em processo de revisão por um Grupo de Trabalho criado em 2015. 

O significado histórico e a contribuição ambiental do desenho urbano dessa área fundamentaram seu reconhecimento como patrimônio cultural, cuja preservação deve garantir a relação entre espaço público e privado, o equilíbrio entre cheios e vazios, estabelecidos pelo traçado das ruas, pela vegetação, pelas linhas demarcatórias do lote, e pelo baixo adensamento populacional.

Esse desenho, e não a criação de um outro modelo baseado em condomínios fechados, no remembramento de lotes, na descontinuidade entre espaço público e privado, que vem sendo praticado de maneira irregular na área, deve ser a base das atualizações necessárias ao enfrentamento do dinamismo metropolitano.  

Mônica Junqueira de Camargo
Arquiteta e professora associada de história da arquitetura moderna e contemporânea da FAU-USP

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