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Vitrine do Oscar, Festival de Toronto exibe filmes duros sobre caos do mundo

Mostra canadense de cinema é a largada do prêmio hollywoodiano

Guilherme Genestreti

“Violência, brutalidade. É sempre a mesma história, só mudam os nomes”, brada a ativista negra diante do caixão de um jovem, também negro, morto por um policial branco. É indisfarçável o fato de o filme “The Hate U Give” ecoar, na tela, as súplicas do movimento Black Lives Matter.

O drama de George Tillman Jr., que fará sua estreia no Festival de Toronto, a partir desta semana, integra uma onda de filmes duros, inclementes e que refletem a ressaca de um mundo em desconcerto.

Cena do filme 'Skin', em exibição no festival de Toronto
Cena do filme 'Skin', em exibição no festival de Toronto - Divulgação

No que depender da escalação deste ano da mostra canadense de cinema, a próxima cerimônia do Oscar será tomada por adolescentes drogados, policiais truculentos, gângsteres, skinheads, falsários, indigentes e alcoólatras.

Tanto pela proximidade com o mercado americano quanto por sua data no calendário, Toronto é a largada da maior premiação de Hollywood. Em 2019, ela por fim tomará pé do mal-estar da década. 

É que esse tipo de cinema,  suscetível a humores de uma indústria cautelosa, decanta o zeitgeist com agilidade de mastodonte se comparada a outras formas de expressão.

Um exemplo é “The Public”. A sátira de Emilio Estevez, encenada numa biblioteca, reúne sem-teto e funcionários públicos que se impõem contra a ingerência do poder econômico sobre o Estado —um ato de desobediência civil que galvaniza o coro dos protestos Occupy, de 2011.

Mesmo quando transposto à Escócia do século 13, como em “Legítimo Rei”, o tema da revolta dos despossuídos persiste. É o caso dessa obra de David Mackenzie (“A Qualquer Custo”) sobre um monarca fora da lei (Chris Pine) que enfrenta a dominação inglesa. 

O tipo rebelado contra o sistema, aliás, parece estar em alta. A protagonista de “Can You Ever Forgive Me?”, vivida pela comediante Melissa McCarthy, é uma escritora que, depois de acumular fracassos, decide virar o jogo se tornando uma falsificadora literária. 

“Galveston” põe em cena um gângster ameaçado por um sujeito mais poderoso que vaga entre motéis baratos e casebres miseráveis da cidade texana que dá nome à obra. 

Em ambos os casos, os protagonistas são vozes de uma maioria silenciosa, que perdeu a crença nas instituições. 

O eco da crise dos opioides, que se alastra pelas grandes cidades americanas, está em “A Beautiful Boy”, história sobre um pai (Steve Carrell) que lida com o vício do filho (Timothée Chalamet) na produção que pode descolar indicações ao Oscar para os dois atores.

Adição também está em “A Million Little Pieces”, que aborda o tortuoso processo de reabilitação de um escritor viciado. “White Boy Rick”, sobre um adolescente que prestou serviços de informante do FBI e depois se valeu do know-how para se firmar, ele mesmo, como traficante é outro a focar carreiras de cocaína.

Esse último é mais uma entre as múltiplas obras de Toronto com a chancela de ter sido inspirada em histórias reais, prova de que talvez o escapismo possa estar démodé. 

Também se ancora na realidade a trama de “Boy Erased”, que trata do filho gay de um pastor batista, este interpretado por Russell Crowe, enviado a um programa de “conversão” de orientação sexual.

Nenhum outro assunto, contudo, rende tantos frutos quanto as tensões raciais. Ao menos quatro dos títulos orbitam essa questão, incluindo “The Hate U Give”, acrônimo de “thug”, uma gíria do rap para valentões briguentos. 

Depois de vencer o Oscar com “Moonlight”, Barry Jenkins cavouca a obra de James Baldwin,grande voz na literatura do movimento dos direitos civis. “If Beale Street Could Talk”, baseado no romance homônimo, narra a história de um homem negro, falsamente acusado de estupro, no Harlem da década de 1970.

Famoso por besteiróis como “Quem Vai Ficar com Mary?” e “O Amor É Cego”, Peter Farrelly roda seu primeiro drama, “The Green Book”. Nele, Viggo Mortensen faz um chofer ítalo-americano que conduz um pianista negro (Mahershala Ali) pelo sul racista dos Estados Unidos nos anos 1960.  

“Skin”, de Guy Nattiv, trará à tona os vultos da marcha na cidade de Charlottesville com a história de um rapaz criado por supremacistas brancos. 

A polarização fez ressurgir até mesmo Michael Moore, o pouco sutil documentarista que andava menos prolífico nos anos Obama, mas que agora volta a disparar farpas. 

Com “Fahrenheit 11/9” (9 de novembro, segundo o padrão da língua inglesa), ele quer explorar a era Trump. A data remete à eleição do republicano. Partindo de Moore, deve resultar numa peça mais fanfarrona do que contundente. 

Não que toda a safra de Toronto seja assim tão áspera. 

Damien Chazelle, do romântico “La La Land”, mira a Lua com “O Primeiro Homem”, história da Apolo 11, com Ryan Gosling como Neil Armstrong. Também é para o espaço que Claire Denis envia Robert Pattinson em “High Life”.

Já Bradley Cooper dirige e contracena com Lady Gaga no terceiro remake do drama musical “Nasce uma Estrela”. A única resenha publicada compara o esforço do diretor ao de Scorsese e Cassavetes.

A julgar por essas comparações, mesmo quando no terreno do musical, a novíssima Hollywood estará menos afinada com cenários opulentos e mais com a crueza das ruas.

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