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Descendente de índio alçado à burguesia na França refaz passos do parente

Passados mais de 500 anos, francesa vai a Santa Catarina rastrear Içá-Mirim, chamado pelos normandos de Essomericq

Ilustração sobre descendentes de índios que viraram nobres na França
Ilustração do índio Içá-Mirim, ou Essomericq na corruptela do francês - Adams Carvalho
 
Lucas Neves
Paris

​No sábado de setembro que marcou o começo da primavera, o comitê alistado para receber uma única visitante na cidade catarinense de São Francisco do Sul era extenso —reunia o secretário de Educação local, uma professora de Joinville, a uma hora dali, uma tradutora e membros da fundação cultural do município.

A ocasião talvez pedisse mesmo alguma solenidade. Era, afinal, uma espécie de retorno da filha pródiga. A francesa Dorothée de Linares, 45, acredita ser descendente do índio carijó Içá-Mirim, que teria sido levado em 1504 da ilha onde hoje fica São Francisco do Sul pelo comerciante e navegador europeu Binot Paulmier de Gonneville.

Consta que a promessa feita pelo explorador ao cacique Arosca era de que o adolescente voltaria dali a 20 luas, tendo adquirido proficiência nas técnicas de artilharia.

Milhares de luas se passaram, o homem até pôs os pés no satélite da Terra e retornou ileso, mas Içá-Mirim, Essomericq na corruptela do francês, nunca regressou da Normandia, seu porto de chegada no Velho (Novo) Mundo.

Casou-se com uma filha ou sobrinha de Gonneville (a depender da versão), teve 14 filhos e morreu aos 95 anos.

Catorze gerações depois, passados mais de 500 anos, tornou a casa de forma simbólica por obra de Linares, que aportou na ilha atrás de vestígios de Içá-Mirim, supostamente o primeiro índio brasileiro a cruzar o Atlântico.

Encontrou uma rua que leva o nome dele, e outra, a do navegador francês, segundo conta em seu blog Nos Rastros de Essomericq, que faz as vezes de diário de viagem (e que ainda trará prospecções na Normandia).

Também se deparou, no parque ecológico municipal, com uma estátua em que uma representação do garoto indígena é envolta por um macaco, uma ave de rapina e um boto. Ficou para uma próxima a paradinha na petiscaria batizada em homenagem a ele.

Linares diz ouvir a história de Içá-Mirim desde a infância. Anos atrás, leu a edição francesa de “Vinte Luas – Viagem de Paulmier de Gonneville ao Brasil: 1503-1505”, ensaio de 1992 em que a crítica literária Leyla Perrone-Moisés narra o périplo de Essomericq (cujo “nome francês”, não será por acaso, guarda um trocadilho com a pergunta “est-ce homérique?”, ou  “isso não é homérico?”).

Premiada com o Jabuti de melhor ensaio ou biografia, a obra da professora da USP se tornou a principal fonte de Linares até aqui.

A francesa deixou uma carreira de duas décadas em uma gigante do setor de energia para se dedicar à literatura. Quer transformar a história do parente em um título infantojuvenil. Enquanto a nova profissão não decola, ela se prepara para abrir uma microempresa de recrutamento.

“Não quero que o livro tenha um tom folclórico, exótico, mas preciso incluir detalhes que façam o leitor vibrar”, diz, em um café do 17º distrito de Paris, perto de sua casa. “Meu filho de sete anos ficou surpreso, por exemplo, quando contei que tinha visto em São Francisco do Sul uma indiazinha com uma saia da princesa de ‘Frozen’.”

Linares afirma ter se espantado com o grau de marginalização das comunidades indígenas na sociedade brasileira. “É uma situação dramática. Eles são invisíveis, não estão integrados ao resto do país. Na cidade que visitei, não os vi, a não ser pela família que se revezava entre pedir esmola e vender artesanato para os turistas no porto.”

Para ela, contar a história de Içá-Mirim talvez ajude a “lançar luz sobre os índios de hoje e a preservar a memória” de populações desaparecidas —subgrupo do povo guarani, os carijós foram considerados extintos no século 17, segundo registros de historiadores citados pela Funai.

A francesa vê paralelos entre a travessia de Içá-Mirim no século 16 e as dos milhares de migrantes que se lançam ao Mediterrâneo hoje, “passando de um mundo a outro, em busca de um paraíso prometido”.

Mas tem consciência de que a inscrição da saga do índio no real é frágil, sabe que a probabilidade de sua aventura ter transcorrido exatamente como chegou aos ouvidos infantis dela é, na melhor das hipóteses, remota.

Uma das reviravoltas folhetinescas envolveria a morte, no retorno à Europa, do tutor que o cacique designara para o filho, batizado às pressas por medo do comandante Gonneville de que ele morresse pagão, dado o surto de doenças a bordo e o ataque de piratas que fez a tripulação cair de 60 para 20 homens.

“Não busco a veracidade total”, afirma. “Essa história é um pouco um mito fundador para mim, como a Bíblia para algumas pessoas, que sabem que nem tudo o que é descrito ali ocorreu de fato.”

Essa espécie de fábula ainda é capaz de mobilizar a atenção da criançada catarinense, como Linares testemunhou durante a visita a uma escola local. “Foi bonito ver a emoção delas diante desse tempo remoto, de uma história antiga que também pode ser brasileira, não é só europeia.”

Finda essa viagem no tempo, 14 gerações para trás, Linares acredita que, entre as aventuras de Içá-Mirim e sua própria incursão catarinense, talvez haja algo mais do que um livro para crianças.

“Quem sabe não escrevo também uma autoficção, que me desobrigue de ficar presa ao real, na qual possa dizer o que eu queira?”, ela pergunta.

Independentemente do grau de “intrusões romanescas” ou liberdade poética nas obras que virão, o que importa por ora para a francesa está resumido na mensagem que um líder guarani catarinense lhe enviou (por Facebook) depois de conhecê-la: “Não esqueça quem você é”.

A jornada do herói

junho de 1503
Comandada pelo comerciante Binot Paulmier de Gonneville, a nau L’Espoir (a esperança) zarpa de Honfleur, na Normandia, em busca das “riquezas das Índias”

janeiro de 1504
Depois de enfrentar correntes marítimas, ventos inclementes e um surto de escorbuto a bordo, a tripulação restante aporta no que hoje é São Francisco do Sul, em Santa Catarina

junho de 1504
O Esperança parte de volta para a Normandia, agora com o jovem índio carijó Içá-Mirim entre seus passageiros; a promessa a seu pai é de que ele regresse em 20 luas

1521
Chamado pelos normandos de Essomericq, o índio se casa com uma parente de Gonneville (não se sabe ao certo se com a filha ou com a sobrinha do comerciante)

1585
Içá-Mirim morre sem jamais ter voltado ao Brasil

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