Descrição de chapéu Livros

'O jornalismo que sempre fiz parece estar vivendo a sua agonia', diz Seymour Hersh

Em novo livro, jornalista que revelou o massacre de My Lai na Guerra do Vietnã lamenta o fim da era de ouro de seu ofício

O repórter Seymour Hersh em seu escritório do New York Times, em 1975 The New York Times

Silas Martí
Nova York

Suas reportagens, ele lembra, tinham o mesmo encanto de um rato morto. 

O jornalista americano Seymour Hersh passou as últimas seis décadas escrevendo sobre alguns dos episódios mais revoltantes e controversos da história mundial recente, do massacre de My Lai, a maior matança de civis durante a Guerra do Vietnã, aos abusos dos soldados de seu país contra detentos da prisão de Abu Ghraib, no Iraque. 

Ele também seguiu de perto os passos do líder Martin Luther King no auge da luta por direitos civis nos Estados Unidos e revelou episódios decisivos ao longo do escândalo Watergate, que acabariam levando à renúncia do presidente Richard Nixon.

Um dos nomes mais respeitados do jornalismo, Hersh começou a sua carreira como repórter policial em Chicago na década de 1950 e depois escreveu para o jornal The New York Times e revistas como Life e The New Yorker, publicando oito livros sobre os desdobramentos dessas investigações na imprensa. 

Mais famosa delas, a cobertura do massacre de My Lai, que completou meio século neste ano, rendeu a ele o Pulitzer, maior prêmio do jornalismo americano. Hersh também venceu uma série de troféus literários, um deles por seu livro sobre Henry Kissinger, chefe da diplomacia americana na época do confronto que se arrastava no Vietnã.

Em seu novo livro, “Reporter: A Memoir”, lançado em junho nos Estados Unidos e com previsão de chegada ao Brasil em março do ano que vem pela Todavia, Hersh narra os bastidores dessas reportagens e reflete sobre seus feitos no que chama de “era de ouro” do jornalismo, lamentando que ela tenha acabado.

“Estamos falando de uma vida que não é mais viável”, diz Hersh. “O jornalismo que fazia parece estar agonizando.”  

Seymour Hersh em seu escritório em Washington, em maio - Lexey Swall - 18.maio.2018/The New York Times

Nesta entrevista, Hersh, que se descreve como um purista solitário, fala de seu interesse por guerra e política, narra seus atritos com os editores ao longo de toda a vida, dizendo que foi traído pelo New York Times, e ataca a “hostilidade infantil” da imprensa americana na era de Donald Trump.

 

Seu livro começa em tom nostálgico, lamentando o fim da era de ouro do jornalismo. Não há mais esperança para o ofício?

O que acontece é que tudo é rápido demais. Não há tempo. Ninguém checa os fatos, os jornais não gastam nem três dias fazendo uma reportagem. A vida do repórter virou publicar algo no jornal e aparecer nos canais de televisão a cabo depois para comentar o assunto. Isso é maluco. Tudo ficou muito acelerado. 

Outra questão é o dinheiro. Os jornais estão morrendo. Eram bons tempos aqueles. Eu viajava sempre na classe executiva e quantas vezes precisasse. Em Paris, onde encontrava diplomatas do Vietnã, eu ficava no Hôtel de Crillon, onde um suco de laranja custava uma fortuna. 

O que quero dizer é que estamos falando de uma vida que já não é mais viável. O jornalismo que sempre fiz parece estar vivendo a sua agonia.

Fora o luxo, a escassez de recursos prejudica a objetividade do jornalismo atual? 

No fim da era Nixon e com o escândalo Watergate, por exemplo, os jornais eram mais importantes do que a Casa Branca. A imprensa tinha mais credibilidade do que o governo, mas agora não tem mais.
Hoje todos os jornais de elite são hostis e malvados com Donald Trump porque isso é o que o público deles quer ler, virou seu pão com manteiga. 

Os jornais não são mais objetivos. Se você odeia Trump, você lê The New York Times e o Washington Post. Não há mais um campo neutro. A perseguição a Trump é horrível. Estão loucos para ver a sua queda enquanto os seus índices de aprovação vêm subindo. Quanto mais os números sobem, mais atacam. 

É uma hostilidade infantil, da mesma forma que ele também se comporta como um bebê. Estão mais preocupados em odiar Trump do que revelar as verdades sobre o que aconteceu. Eles continuaram fazendo o que Hillary Clinton fez na campanha. 

Vivemos uma situação maluca em que a imprensa está torcendo por sua queda. Trump foi eleito com votos da minoria e pode ser eleito de novo se não acharem nada. A palavra vergonha não faz sentido para os jornais. Todos pensam que podem jogar qualquer um no lixo.

Uma série de jornalistas são lembrados no livro, todos eles repórteres de guerra. Nunca se interessou por nomes que tornaram a profissão famosa naquela época, os mestres do jornalismo literário, como Gay Talese ou Hunter Thompson?

Estou falando de repórteres mais durões. Meu fascínio era por aqueles caras que criticavam a guerra no Vietnã, uma guerra toda errada. Sem dúvida caras como Gay Talese e Hunter Thompson, com quem passei uma noite e nunca mais quis repetir a experiência, abriram o jornalismo para questões interessantes. Mas sempre me interessei mais por guerra e política, e não é disso que falavam.

Mas o estilo de um texto importa ainda no jornalismo?

Estilo é a habilidade de contar bem uma história. Detestava quando alguém vinha me dizer que alguma coisa estava bem escrita. Eu respeitava mais os repórteres que tinham essa habilidade para falar sobre guerra e política do que as coisas que Tom Wolfe, Gay Talese e Hunter Thompson estavam fazendo. 

Mas sou um velho, tenho 81 anos. Meu lema era contar a história e sair do caminho, não ficar me vangloriando. Sou partidário das “hard news”. Escrever notícia mesmo é muito mais complicado. Muitas vezes, sem tempo, mandava o texto para o jornal e depois acordava no meio da noite pensando que teria ficado melhor de outro jeito. E isso é uma arte, nunca vai ficar como queremos de verdade.

Sua relação com os editores sempre foi conflituosa. O que causava esses atritos?

O que acontecia era que o meu trabalho era ir até a mesa do editor e propor contar as histórias que tinham o mesmo apelo de um rato morto infestado por piolhos. Chegava lá dizendo que isso era o que queria fazer, que ia custar muito dinheiro, o jornal perderia assinantes e poderia acabar sendo processado. 

E, depois de fazer algumas reportagens assim, você acabava causando certa exaustão. Isso aconteceu comigo na Associated Press, no New York Times, na New Yorker.

Reportagens importantes também deixaram de ser publicadas por oposição sua a mudanças na edição.

No Times, eles se cansaram das minhas reclamações. Mesmo respeitando o editor, sou purista.

O que aconteceu lá é que, enquanto eu apurava uma reportagem, os editores iam conversar com o presidente do país em paralelo para depois sugerir mudanças. Um editor não deve ser amigo do presidente ou fazer social com o governo. Eles tornaram a situação impossível para que eu escrevesse as reportagens que eu queria escrever. Isso foi uma traição, acabou com a confiança entre a gente.

Isso também aconteceu na New Yorker. Mesmo que os respeitasse, pensava que as mudanças que estavam propondo não faziam sentido, estavam todas erradas. Os editores têm uma visão bem diferente da visão do repórter.

É por isso que diz no livro que nunca quis ser um editor?

Sou crítico demais. E sou muito solitário. Não tenho personalidade para isso. Nem meus filhos me mostravam as redações que faziam no colégio, porque eu diria que estavam cheias de clichês.

Por outro lado, você lembra casos em que se autocensurou ao escrever, antes que editores sugerissem qualquer corte.

Todo repórter lida com essas coisas. Uma vez, cobrindo um tiroteio, ouvi o policial dizer que tinha matado um preto. Não escrevi isso porque fiquei com receio. Amo essa profissão de repórter, mas ela é sempre distante da perfeição. E isso é um desafio.

Mas também penso que os repórteres hoje são muito crédulos. Em tempos de crise, e não existe nada melhor para a Casa Branca do que uma crise, o governo controla as notícias. E os repórteres acreditam na Casa Branca. Ninguém nunca volta para contar os bastidores do que aconteceu porque sabe que será desmentido, então todo o relato só fica por isso mesmo.

Seu livro, no entanto, parece falar muito dos seus acertos e bem pouco dos erros. Não houve grandes fracassos também?

Ninguém é perfeito. Os fracassos aconteciam quando mentiam para mim. Mas não quis mesmo escrever um livro só narrando os meus sucessos, não era para contar vantagem. Errei muitas vezes, e houve reportagens que me tiraram o sono, mas ninguém nem notou.

Tentei evitar a todo custo que o livro passasse essa impressão de que estou lá sozinho no topo da profissão. Escrevi o livro para ensinar como fazer uma reportagem, sem essa sensação de grandeza. Mas eu sei que muitas pessoas não gostam de mim.


Seymour Hersh, 81

Nascido em Chicago, começou a carreira como repórter policial. Passou pelo New York Times e a New Yorker, entre outros. Revelou o massacre de My Lai, na Guerra do Vietnã, cobertura que rendeu a ele o Pulitzer, o maior troféu do jornalismo, e cobriu o caso Watergate

Reporter: A Memoir

  • Preço US$ 16,70 (R$ 62), 368 págs.
  • Autor Seymour Hersh
  • Editora Alfred A. Knopf
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.