Descrição de chapéu RFI

Bailarina de favela do Rio brilha no palco em Berlim

Do morro do Cantagalo, hoje ela faz parte do corpo de baile do Friedrichstadt Palast

Cristiane Ramalho
Berlim | RFI

A bailarina Debora Goulart tinha 14 anos quando foi descoberta, numa favela carioca, por um professor de balé alemão. Aos 22, ela hoje faz parte do corpo de baile do Friedrichstadt Palast –um dos teatros mais tradicionais de Berlim.

O salto aconteceu num lance de sorte. Debora já fazia dança desde os oito anos de idade no projeto “Dançando para Não Dançar”, no morro do Cantagalo, onde morava, em Ipanema, quando foi convidada pelo diretor de uma escola estadual de balé de Berlim –a Staatliche Ballettschule– para estudar na Alemanha.

A bailarina Debora Goulart dança enquanto olha para a câmera
A bailarina Debora Goulart - Yvis Sucksdorff

O diretor da escola, Ralf Stabel, que visitava a favela para ver uma apresentação do projeto, ficou encantado com Debora. “Eu só dancei em grupo, para dar as boas-vindas. Quem deveria ter sido escolhida era uma outra menina, mais experiente”, lembra a carioca, que logo provaria que além de sorte, tinha mesmo talento.

Para se preparar para Berlim, Debora teve que disputar uma vaga na prestigiada Escola de Balé Maria Oleneva, do Teatro Municipal. E conseguiu. “Eram 50 meninas concorrendo, e fui uma das três aprovadas na prova. Foi importante para poder treinar e fortalecer a minha técnica”, conta.

Um ano depois, já estava de mudança para Berlim. Um começo difícil. Além de estudar balé, Debora teve que aprender todas as matérias do curso secundário alemão. Um desafio gigantesco. “Eu tinha que estudar tudo: alemão, inglês, matemática, geografia... Aprendi na marra mesmo”, lembra.

Debora também deu um jeito de estudar sozinha e fazer a prova para ter direito ao diploma do ensino médio brasileiro. “Até hoje não sei como consegui me organizar. Mas graças a Deus deu tudo certo”, conta a bailarina.

Racismo na escola

Negra, com um metro e setenta e oito de altura, e aluna aplicada, Debora chamava a atenção na escola. Tinha várias amigas, mas acabou sofrendo com o racismo de uma colega alemã.   

“Quando a gente chegou na escola de balé –eu e uma amiga minha– uma menina disse que não queria fazer aula com a gente na mesma turma porque éramos negras, e ela não gostava de negros”. Por sorte, foram defendidas pelas demais colegas. “A turma foi super legal com a gente, todas as meninas ficaram contra ela”.

Não foram poucos os momentos em que Debora pensou em desistir de tudo e voltar para o Brasil. “No começo, eu não conseguia me comunicar. Não falava alemão, não falava inglês, era super frio. Às quatro horas da tarde já estava escuro.”

Para uma adolescente acostumada com o calor e a informalidade carioca, foi uma mudança brutal. “Na comunidade você sai na rua e fala com todo mundo. Não gostava de estar aqui”, admite.

A bailarina Debora Goulart faz uma posição de balé
Depois de quase sete anos em Berlim, a carioca pensa agora em investir também na carreira de modelo. - Yvis Sucksdorff

Jovens engravidando

Hoje, ela está mais do que adaptada. Mas o Brasil continua a ser uma referência forte na vida da carioca, que costuma visitar a família uma vez por ano. Da última viagem, Debora trouxe uma tristeza: constatar o impacto da crise sobre projetos como o "Dançando pra não Dançar" e o Criança Esperança, que segundo ela, estão praticamente sem patrocínio.

“Esses projetos eram uma possibilidade para os jovens de ocupar o tempo livre. Com os pais trabalhando, eles ficam sozinhos, sem controle. É muito fácil para as meninas acabar engravidando cedo, ou os meninos entrarem pro tráfico. E é exatamente isso que está acontecendo agora”, lamenta a bailarina.

Sem falar no próprio Teatro Municipal. “É uma pena. Um teatro lindo, com bailarinos super talentosos que não têm mais dinheiro para pagar o aluguel, nem a comida. É triste demais a gente ver a nossa arte tão desvalorizada.”

Rotina puxada

Debora reconhece que só continuou no balé por insistência da mãe, que a estimulou a não desistir do projeto. “Eu me achava muito grande, diferente das outras meninas. Tinha vergonha. Elas eram pequenas –apesar de termos a mesma idade. Foi minha mãe que me incentivou. Hoje eu entendo o motivo”.

No teatro, a rotina exige muita disciplina. Mas Debora adora o que faz: “A gente tem ensaios de manhã e apresentações à noite. Mas ver o público aplaudindo no final do espetáculo faz parte do salário. A gente se sente super realizado”.

Depois de quase sete anos em Berlim, a carioca pensa agora em investir também na carreira de modelo. Além de fotografar para agências alemãs, ela acaba de gravar uma participação no famoso programa Germany’s Next Topmodel, pilotado por Heidi Klum, que vai ao ar a partir de fevereiro.

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