Casal que fez resistência a Hitler em Berlim inspira romance inédito no Brasil

Escritor Hans Fallada usou arquivos da Gestapo para escrever 'Morrer Sozinho em Berlim'

Guilherme Magalhães
São Paulo

Morrer Sozinho em Berlim

  • Preço R$ 84 (640 págs.)
  • Autor Hans Fallada. Tradução: Cláudia Abeling
  • Editora Estação Liberdade

Foi com relutância que Hans Fallada aceitou receber as pastas da Gestapo dedicadas ao casal Otto e Elise Hampel. Após mais uma internação fruto de um colapso nervoso, o escritor alemão acabara de se mudar para Berlim, cidade que em setembro de 1945 não passava de um amontoado de escombros.

A tarefa lhe fora designada por um amigo que viria a se tornar ministro da Cultura da antiga Alemanha Oriental. A ideia era engajar autores que ficaram no país durante o regime nazista (1933-1945), mas que não haviam colaborado com o governo, a escrever sobre opositores perseguidos.

Fallada tinha consciência de que jogou segundo as regras do regime e, por isso, resistiu ao chamado porque “não queria parecer melhor do que havia sido”, como relata um conhecido do escritor.

Nos anos 1930, após a ascensão de Adolf Hitler, o autor chegou a ser contratado pelo governo alemão para escrever um romance sobre dois judeus que especulavam na bolsa de valores. Com passagens pelo jornalismo e publicidade, seu nome —ou pseudônimo, pois nascera Rudolf Ditzen— já era conhecido.

A recusa em transformar a obra em panfleto antissemita e o atraso deliberado na entrega bastaram para torná-lo um indesejável aos olhos do regime. Apesar disso, foi um dos poucos autores alemães que continuaram a publicar no Terceiro Reich, já que não o criticava abertamente.

Mas é possível que algo o tenha atraído na história dos Hampel, que, segundo ele, eram “duas pessoas desimportantes em Berlim que iniciam em certo dia de 1940 a luta contra a máquina absurda do Estado nazista e acontece o grotesco: o elefante sente-se ameaçado pelo camundongo”.

A descrição está presente no ensaio “Sobre a resistência que chegou a existir dos alemães contra o terror de Hitler”, publicado em uma revista de esquerda em novembro de 1945. É nesse texto já um tanto quanto ficcionalizado que Otto e Elise Hampel aparecem retratados como Otto e Anna Quangel, no que seria um rascunho do romance “Morrer Sozinho em Berlim”.

Publicado em 1947, meses após a morte de Fallada, aos 53 anos, o livro acaba de ganhar edição brasileira pela Estação Liberdade, que tem no prelo outro livro do autor, o relato autobiográfico “O Beberrão” —também póstumo, de 1950.

Na trama, a morte do filho do casal na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) serve de estopim para o início de uma ação de resistência que, tal como os Hampel, envolve a distribuição de cartões-postais com frases como “O infame soldado Hitler e seu bando nos jogam no precipício”.

Escrito em ritmo de thriller, a obra é povoada por uma miríade de “gente comum” do início dos anos 1940 em uma Berlim onde a guerra ainda é travada no front distante.

Como sói acontecer em narrativas do cotidiano em regimes totalitários, o medo é onipresente. Seja entre aqueles que conspiram contra o regime, seja no lar da família hitlerista vizinha dos Quangel, os Persicke, que temem serem vistos como “pouco nazistas”, seja o medo sentido pelo investigador da Gestapo de falhar na investigação.

Na vida real, foi a morte do irmão de Elise na guerra o detonador do plano que fez o casal deixar cerca de 200 cartões-postais contra Hitler em caixas de correio do norte de Berlim. A ação transcorreu de 1940 até a prisão dos Hampel, em meados de 1942. Em abril do ano seguinte, foram executados pela Gestapo.

​Fallada nem sempre esteve satisfeito durante o processo de escrita. Ainda assim, as 866 páginas datilografadas ficaram prontas em quatro semanas, no final de 1946. Dias após a entrega para seu editor, foi internado em uma clínica neurológica de Berlim. De lá, foi para outro hospital, onde morreu após uma parada cardíaca em fevereiro de 1947.

Não se tem notícia de que tenha recebido a correspondência na qual o editor comenta os pareceres negativos sobre o romance. A família Persicke foi descrita como caricata e, o livro, maniqueísta demais.

Isso não impediu a publicação na Alemanha e a posterior consagração como best-seller, além de adaptações para a televisão e para o cinema. No exterior o livro só estourou após a tardia tradução para o inglês, publicada em 2009. 

“Estranhamente outros romances de Fallada foram traduzidos rapidamente para o inglês. Não tenho ideia [do motivo da demora] porque a decisão geralmente está nas mãos dos editores”, diz à Folha Stefan Knüppel, diretor do museu dedicado ao escritor no norte da Alemanha.

Os títulos das traduções, aliás, rendem um capítulo à parte. O original “Jeder stirbt für sich allein” (cada um morre por si) virou “Todo Mundo Morre Sozinho” nos Estados Unidos e na União Soviética, “Sozinhos em Berlim” no Reino Unido —opção quase seguida pela edição brasileira, que preferiu acompanhar a portuguesa— e “Um Contra Todos” na Suécia.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.