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Cinema

Filme mostra que a divertida carreira de Roger no Ultraje segue acima do mimimi

Documentário foca a vida musical do artista, que é excelente, e promove viagem no tempo

Ivan Finotti

Ultraje

  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Marc Dourdin

​​Roger Moreira frequentou o noticiário nos últimos meses por ter declarado voto em Jair Bolsonaro e visitado o então candidato no hospital alguns dias após o atentando a faca que sofreu em setembro de 2018. Este não é um assunto tratado no documentário que conta a história do artista e de sua banda, Ultraje a Rigor, do início nos anos 1980 até hoje.

O diretor Marc Dourdin foca a vida musical de Roger, que é excelente. Para quem viveu os anos 1980, é uma volta no tempo, com muitas imagens de shows em inferninhos e apresentações de TV (como a de sunga no Ilha Porchat), e, para quem não acompanhou êxito do Ultraje na época, uma oportunidade de conhecer a diversão que foi a banda.

Os primeiros 40 minutos descrevem o conto de fadas que foi o surgimento do grupo até o enorme sucesso alcançado com o disco de estreia, de 1985.

Em seus primeiros passos, a banda se chamou Pimenta do Reino, The Littles e The Shittles, até optar por Ultraje a Rigor, em 1982. O filme conta a bem-sucedida estratégia de marketing do grupo, que pichou a cidade inteira com seu nome e, assim, passaram a ser conhecidos no meio musical.

Roger conta que chegou a ser algemado após pichar a casa de um policial. O guitarrista Edgard Scandurra fazia parte do Ultraje nesses primeiros momentos. Aliás, ele tocava em outras três bandas: Smack, As Mercenárias e o Ira!, projeto que acabou escolhendo como definitivo.

São lembrados grupos como Azul 29, Agentss, Voluntários da Pátria e Magazine, além dos Titãs, que se apresentavam em casas como Lira Paulistana, Napalm, Rose Bombom e Hong Kong.

Lançado no ano anterior à votação das Diretas, em 1984, o compacto “Inútil/ Mim Quer Tocar” colocou o Ultraje no mapa nacional. Sem falar no inesquecível riff de guitarra, Roger definitivamente captou o espírito do tempo com a frase inicial e refrão da música: “A gente não sabemos escolher presidente/ [...] Inútil/ A gente somos inútil”.

A crítica social não era o motor da banda, e sim as piadas ginasianas, como demonstrou o segundo compacto, com “Eu Me Amo/ Rebelde Sem Causa”. Mas Roger tocaria novamente nos nervos da época com a faixa título do primeiro LP, “Nós Vamos Invadir sua Praia”: “Daqui do morro dá pra ver tão legal/ O que acontece aí no seu litoral”.

Em 1985, o Ultraje estava tão nas alturas que Roberto Carlos convidou a banda para o especial de fim de ano. Juntos, cantaram “Ciúmes”, com Roberto fazendo caretas e gracinhas.

Após o auge, é claro, vem a queda. Posteriormente, Roger vai levando sua banda, trocando de integrantes, algumas vezes melancolicamente, lançando discos independentes, se virando, até os dias de hoje, quando trabalha fazendo música para o talk show “The Noite”, de Danilo Gentili, diariamente no SBT à 0h30 ou 1h.

Se as escolhas políticas de Roger o transformaram em persona non grata para parte dos brasileiros, é certo dizer que sua divertida carreira artística segue acima do mimimi.

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