Descrição de chapéu The New York Times

Para salvar Stradivarius, uma cidade inteira fica em silêncio

Cremona, na Itália, fechou ruas e restringiu barulho para gravar em banco de dados os sons cristalinos do instrumento

The “Vesuvius” violin, made by Antonio Stradivari in 1727, in the Museum del Violino in Cremona, Italy, Jan. 11, 2019. The museum is assisting with an ambitious recording project, “Stradivarius Sound Bank,” to preserve the sound of Stradivarius instruments for future generations

Violino Vesuvius, feito por Antonio Stradivari em 1727 e parte da coleção do museu de Cremona Isabella de Maddalena/The New York Times

Max Paradiso
Cremona (Itália) | The New York Times

Florencia Rastelli ficou mortificada. Barista muito experiente, ela jamais deixou uma xícara de café cair, segundo disse. Mas na segunda-feira passada, enquanto limpava o balcão do café Chiave di Bacco, onde trabalha, ela derrubou um copo, que se quebrou com um estrondo ao bater no chão.

Os clientes ficaram paralisados, recorda Rastelli. “Era como se estivessem pensando que, de todos os dias, justo naquele. Um policial entrou no café e pediu que eu mantivesse o silêncio. Fiquei morrendo de vergonha.”

Os moradores de Cremona, no norte da Itália, estão vivendo um período de grande sensibilidade ao barulho. A polícia bloqueou ruas do centro da cidade, usualmente muito movimentado, e o tráfego foi desviado. Em uma recente entrevista à imprensa, o prefeito Gianluca Galimberti implorou que os cidadãos de Cremona evitassem fazer barulhos súbitos e desnecessários.

Cremona abriga as oficinas de alguns dos melhores fabricantes de instrumentos da história, entre os quais Antonio Stradivari, que nos séculos 17 e 18 produziu alguns dos melhores violinos e violoncelos de todos os tempos.

A cidade iniciou um ambicioso projeto para gravar digitalmente os sons dos Stradivarius para a posteridade, bem como os sons de instrumentos feitos por Amati e Guarneri del Gesù, dois outros famosos artesãos de Cremona. E para isso é preciso silêncio.

Um violino, viola ou violoncelo Stradivarius representa o pináculo da engenharia sonora, e ninguém até hoje conseguiu reproduzir a sua tonalidade singular.

Fausto Cacciatori, curador do Museu do Violino de Cremona e participante do projeto, diz que cada Stradivarius “tem sua própria personalidade”. Mas seus sons distintivos “inevitavelmente mudarão” e podem até ser perdidos, dentro de algumas décadas.

“É parte de seu ciclo de vida. Nós os preservamos e restauramos, mas, depois que chegam a uma certa idade, tornam-se frágeis para ser tocados e são ‘colocados para dormir’, por assim dizer.”

Para que as gerações futuras não percam a chance de ouvir os instrumentos, três engenheiros de som estão produzindo o Banco de Sons Stradivarius, um banco de dados para armazenar todos os tons que quatro instrumentos selecionados da coleção do museu são capazes de produzir.

Um dos engenheiros, Mattia ​Bersani afirma que os sons do banco de dados podem ser manipulados por meio de software para produzir novas gravações quando a tonalidade dos instrumentos originais se degradar. Os músicos do futuro poderão “gravar uma sonata com um instrumento que já não funcionará”.

“Isso permitirá que meus netos ouçam o som de um Strad”, disse Leonardo Tedeschi, antigo DJ que concebeu o projeto. “Estamos tornando imortal o instrumento mais refinado que já foi criado.”

Por cinco semanas, entre janeiro e fevereiro, quatro músicos, tocando dois violinos, uma viola e um violoncelo, farão centenas de escalas e arpeggios, usando técnicas diferentes com arcos, ou dedilhando as cordas. Trinta e dois microfones de alta sensibilidade, montados no auditório do museu, capturarão os sons.

“Será um desafio físico e mental para eles”, disse Thomas Koritke, engenheiro de som de Hamburgo, Alemanha, que lidera o projeto. “Terão de tocar centenas de milhares de notas individuais e transições, por oito horas ao dia, seis dias por semana, ao longo de mais de um mês.”

Organizar o projeto também requereu muito tempo, comenta Koritke. “Demorou anos para que convencêssemos o museu a permitir o uso de instrumentos de cordas fabricados 500 anos atrás.”

Depois, os envolvidos tiveram de encontrar músicos de primeira linha que conhecessem os instrumentos em seus mínimos detalhes. Em seguida, foi preciso estudar também a acústica do auditório, projetada levando em conta o som dos instrumentos.

Em 2017, os engenheiros imaginaram que o projeto estivesse pronto para ser iniciado. Mas uma verificação de som revelou uma falha grave.

“As ruas em torno do auditório são todas calçadas com paralelepípedos, e isso é um pesadelo sonoro”, diz Tedeschi. O barulho de um motor de carro ou de uma mulher andando de salto alto produz vibrações que se propagam por sob o pavimento e reverberam nos microfones, inviabilizando a gravação, ele explicou. “Ou seja, tínhamos de fechar toda a área ou o projeto não sairia da imaginação.”

Para sorte dos engenheiros, o prefeito de Cremona é presidente da Fundação Stradivarius, a organização municipal que opera o Museu do Violino. Ele permitiu que as ruas em torno da instituição fossem fechadas por cinco semanas, e apelou que os moradores mantivessem o silêncio.

“Somos a única cidade do mundo que preserva não só os instrumentos como suas vozes”, disse Galimberti. “Esse é um projeto extraordinário, que tem olhos no futuro. E estou certo de que os moradores compreenderão que o fechamento da área era inevitável.”

Em 7 de janeiro, a polícia bloqueou o trânsito. A ventilação e os elevadores do museu foram desligados. Todas as lâmpadas da sala de concerto foram removidas, para eliminar um ligeiro zumbido.

Alguns andares acima, no museu, Cacciatori colocou um par de luvas de veludo e removeu uma viola Stradivarius de 1615 de seu display envidraçado. Ele a inspecionou cuidadosamente e, depois, um segurança escoltou curador e instrumento até o auditório, dois andares abaixo.

O curador entregou o instrumento ao violista holandês Wim Janssen, que caminhou para o centro do palco.

Ele se acomodou em uma cadeira, na penumbra, sob um conjunto de microfones. Os três engenheiros deixaram a sala e se posicionaram em uma cabine de som isolada, sob o auditório, repleta de alto-falantes, telas de computador, servidores e cabos.

Janssen usava um fone de ouvido, por meio do qual recebia instruções de Koritke. “Comece”, sussurrou o engenheiro de som. O violista tocou uma escala em dó maior, enquanto a equipe de gravação contemplava gráficos em suas telas, em resposta ao som cristalino do instrumento. Tedeschi sorriu, satisfeito.

Então aconteceu, e todo mundo se deteve. “Pare por um minuto, por favor”, disse Koritke, e o violista manteve a posição. Os engenheiros voltaram a gravação, e a tocaram de novo. Koritke ouviu o problema, com toda clareza. “Quem derrubou um copo no chão?”

Tradução de Paulo Migliacci

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