Descrição de chapéu The New York Times

Grammy tenta agradar a todos, mas acumula tensão com artistas

Conflitos com rappers e acusações de machismo são algumas das questões que o prêmio musical enfrenta

Ben Sisario
Nova York | The New York Times

Grammy Awards deveria ser a maior festa da música. Mas, nos últimos anos, a cerimônia de entrega dos prêmios também virou um saco de porradas para críticos, ativistas e até artistas importantes devido a questões diversas, como raça, gênero e... sim, isso mesmo, música.

A 61ª cerimônia anual de entrega dos prêmios, a ser apresentada por Alicia Keys e transmitida ao vivo pela CBS na noite deste domingo (10), não deve ser diferente.

Depois de ser alvo de muitas críticas no ano passado, quando o Grammy Awards foi desancado porque apenas uma mulher recebeu um prêmio solo no ar —e o executivo-chefe da Academia de Gravação, Neil Portnow, comentou que as mulheres na música deveriam fazer um esforço maior para avançar na carreira—, o Grammy adotou uma série de mudanças em seu processo de inclusão de membros e indicações, visando resolver os problemas.

Mas, sob muitos aspectos, o Grammy ainda percorre uma corda bamba. Enquanto o show se esforça para continuar a ser culturalmente relevante e ao mesmo tempo equilibrar as exigências da representação racial e de gênero, talvez seja impossível agradar a todos ao mesmo tempo.

Em entrevista concedida esta semana, Pornow comentou: “Aquele momento lançou uma luz sobre uma questão à qual era preciso prestar atenção: a falta de diversidade na música. E, se a luz lançada desencadeou mudanças, então podemos sentir que ela teve uma razão de ser e um valor.”

Para os espectadores, uma das mudanças mais evidentes será que hoje oito artistas ou bandas, em vez de cinco, vão concorrer nas quatro categorias principais: álbum, disco e canção do ano e melhor artista estreante. Essa mudança satisfez a muitos críticos ao incluir mais mulheres entre as indicações. Mas também dificultou a seleção dos vencedores.

Para o prêmio de álbum do ano, Drake e Kendrick Lamar, dois deuses do hip-hop contemporâneo, concorrem com Post Malone, que liderou as paradas com um estilo suave a meio caminho entre rap e canto; com o rap vibrante de Cardi B; o R&B aventuroso de Janelle Monaé e H.E.R.; e duas cantoras-compositoras das esferas country e folk, Kacey Musgraves e Brandi Carlile.

Se Carlile prevalecer, será a primeira ganhadora do prêmio abertamente gay. Mas, como artista de vendas mínimas, uma vitória dela faria o Grammy parecer desligado do grande público? Será que um rapper vai vencer, ou eles vão anular um ao outro na votação?


Também existe a chance de o prêmio ser dado a Drake ou Lamar, e o vencedor não comparecer à cerimônia. Esse tem sido um risco crescente para os Grammy na medida em que o show tem desagradado a cada vez mais artistas de hip-hop e R&B –gente como Drake, Kanye West, Jay-Z e Frank Ocean— por não ter lhes dado os prêmios mais prestigiosos.

“A verdade é que continuamos a ter um problema com o mundo do hip-hop”, disse Ken Ehrlich, há anos produtor do Grammy. “Quando eles não levam o prêmio grande para casa, a opinião da academia e o que o Grammy representa continuam a pesar menos para a comunidade do hip-hop. É uma pena.”

Ehrlich disse que neste ano convidou Drake, Lamar e Childish Gambino —cuja canção “This Is America” foi indicada a quatro prêmios, incluindo disco e canção do ano— para apresentar-se no show, mas todos recusaram. Representantes dos três artistas não quiseram comentar se eles vão comparecer ao evento.

Houve mais uma má notícia para os Grammy na tarde de quinta-feira, quando Ariana Grande confirmou que desistiu de participar do show depois de ter uma divergência com os produtores –ao que parece, com o próprio Ehrlich— sobre qual canção cantar.

“Eu fiquei calada, mas agora vocês estão dizendo mentiras sobre mim”, Grande escreveu no Twitter, respondendo a uma entrevista à Associated Press em que Erhlich disse que a cantora “achou que já estava muito em cima da hora para ela preparar alguma coisa”.

“Eu consigo preparar uma apresentação de um dia para outro, e você sabe disso, Ken”, ela escreveu. “Foi quando minha criatividade e auto-expressão foram sufocadas por você que eu resolvi não participar. Espero que o show seja exatamente o que você quer que seja e mais.”

O ano passado foi outro momento tenso na história problemática do Grammy com o hip-hop, quando Jay-Z, o artista que recebera mais indicações –oito, incluindo para álbum, disco e canção do ano— voltou para casa de mãos abanando, e Lamar, apesar de ter ganhado os cinco troféus do rap, perdeu o Grammy de álbum do ano para Bruno Mars. Três meses mais tarde, Lamar recebeu o Prêmio Pulitzer de música.

“Quando o Pulitzer acerta e o Grammy erra, isso revela muita coisa”, disse Troy Carter, agente de artistas e ex-executivo do Spotify.

Portnow disse que acredita que o Grammy se esforçou genuinamente para atrair os artistas, mas as tensões não dão sinais de estarem diminuindo.

“Esperamos que todos os indicados assistam à cerimônia e estejam presentes quando suas realizações são celebradas”, disse Portnow.

Mas, enquanto a questão racial vem sendo um problema crescente há anos, a questão mais urgente do Grammy é com o gênero. No ano passado, um relatório da University of Southern California divulgado dias antes da cerimônia divulgou números desanimadores sobre a representação feminina na indústria musical e no prêmio. Lorde, a única mulher indicada para álbum do ano em 2018, não foi convidada para se apresentar solo na cerimônia.

Depois da cerimônia, o comentário de Portnow sobre a necessidade de as mulheres se esforçarem mais atraiu indignação imediata; algumas executivas musicais mulheres pediram sua renúncia. Portnow disse na época que suas palavras foram tiradas de contexto. Mais tarde, anunciou que deixará seu cargo quando seu contrato terminar, em julho.

Em resposta às queixas, a Academia de Gravação nomeou uma força-tarefa liderada por Tina Tchen, ex-chefe-de-gabinete de Michelle Obama, para “identificar as barreiras e os vieses inconscientes enfrentados por comunidades sub-representadas” na academia e na indústria musical mais ampla.

Trabalhando com a força-tarefa, a academia vem procurando diversificar seu rol de eleitores, convidando 900 pessoas novas, de origens diversas, para ser membros; dessas pessoas, 22% aceitaram o convite em tempo de votar este ano, revelou Laura Segura Mueller, da academia. Na semana passada, a força-tarefa desafiou a indústria musical a contratar mais produtoras e engenheiras mulheres, duas funções exercidas predominantemente por homens.

Mesmo com esses passos, as indicações deste ano para o Grammy mostram quanto ainda falta ser feito para alcançar paridade real de gêneros. Das oito canções indicadas para disco do ano, foram creditados ao todo 48 produtores e engenheiros, entre os quais apenas duas mulheres.

Uma delas é Lady Gaga, indicada como produtora de “Shallow”, sua canção com Bradley Cooper do filme “Nasce Uma Estrela”, forte candidata a disco e canção do ano. Lady Gaga está prevista para se apresentar no show, mas Bradley Cooper estará na entrega do Bafta, o prêmio do cinema britânico. (Taylor Swift, indicada para apenas um Grammy, álbum pop vocal, também está em Londres, filmando uma adaptação de “Cats”, e não está vai comparecer.)

E, nesta semana, a University of Southern California lançou uma versão atualizada de seu relatório, mostrando que os números relativos à presença de mulheres na música não melhoraram. Analisando as listas Hot 100 de final de ano da Billboard dos últimos sete anos –um total de 633 canções, tiradas as duplicadas—, o estudo constatou que dos 1.455 artistas creditados nas canções, apenas 17,1% eram mulheres. Apenas três dessas 633 canções foram creditadas unicamente a compositoras.

“O relatório deste ano realmente reforça o que vimos no ano passado”, comentou Stacy L. Smith, fundadora da Iniciativa Annenberg de Inclusão da USC e líder do estudo, “confirmando que as mulheres ainda enfrentam uma crise de inclusão em posições de liderança no espaço musical.”

Portnow disse que encarou as críticas do ano passado como uma oportunidade para corrigir problemas importantes e para a academia assumir papel de liderança na indústria musical. Para ele, nem todos ficarão satisfeitos, mas isso não é problema.

“Os fatores subjacentes do que deixa as pessoas satisfeitas ou não mudam de ano a ano”, ele explicou.

“Pode ser algo de natureza musical ou pode ser algo sociológico, que é o que estamos vendo mais hoje no clima atual. Mas isso é apropriado, já que é esta época da história em que vivemos.”

 Tradução de Clara Allain
 

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