Descrição de chapéu Oscar 2019

Obsessão cultural por juíza gerou documentário que concorre ao Oscar

Entre os curtas-metragens, indicado recupera imagens de passeata nazista na Nova York de 1939

Fernanda Ezabella
Los Angeles

O rosto sisudo de uma velhinha de 85 anos está por todos os lados em Hollywood. Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte, foi catapultada a ícone feminista com ajuda de uma brincadeira de internet e hoje estampa canecas, livros infantis, bonecas e até tatuagens.

O fenômeno pop chega ao auge no domingo, quando um filme sobre sua vida concorre a dois Oscar: melhor documentário e música por “I’ll Fight”, de Jennifer Hudson, escrita por Diane Warren.

“A gente sabia da demora para terminar um filme e se perguntava de verdade se as pessoas ainda teriam interesse nela quando o filme estivesse pronto”, lembrou Betsy West, codiretora de “RBG”, num evento na sede da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. “E suas histórias só ficaram cada vez mais e mais relevantes.”

Segunda mulher indicada à Suprema Corte, Ginsburg sempre foi avessa à publicidade, mas passou a chamar mais atenção numa série de votos dissidentes (quando vai contra a decisão da maioria na corte) em oposição aos colegas cada vez mais conservadores.

Falou pelo direito ao aborto e defendeu o direito de funcionárias a ter cobertura de métodos anticoncepcionais. Num de seus votos dissidentes, foi imortalizada na internet com o meme Notorious R.B.G., em alusão ao nome do rapper Notorious B.I.G..

O filme é fichinha perto da obsessão cultural que engoliu Ginsburg, uma figura frágil de 1,55 m de altura. Nos últimos meses, ela foi tema de exposição num museu de Los Angeles, apareceu na animação “Uma Aventura Lego 2” e virou fantasia de Halloween na série “Modern Family”.

Ela também inspirou o filme “On the Basis of Sex”, estrelado por Felicity Jones e lançado em dezembro, sobre seus anos como advogada de defesa dos direitos das mulheres. Nos anos 1970, liderou seis casos de discriminação de gênero na Suprema Corte e ganhou cinco.

“Muitos dos jovens de hoje que veneram RBG não sabem do seu passado como advogada. Ela foi de fato a arquiteta legal do movimento feminista”, disse a diretora West. “Com o filme, queríamos um balanço entre seu momento atual e seu passado, sem medo de vasculhar arquivos e mostrar essa mulher maravilhosa aos 85.”

Em “RBG”, a juíza aparece se exercitando com um personal trainer (ela consegue fazer 20 flexões, sem apoiar os joelhos), participa do elenco de uma ópera e mostra sua coleção de golas bordadas e de pedraria que usa em corte.

Quando jovem advogada e mãe de dois filhos, ela surge defendendo o direito de um viúvo a benefícios sociais, como parte de sua estratégia por direitos igualitários. “A linha de gêneros ajuda a colocar a mulher não num pedestal, e sim numa gaiola”, diz Ginsburg.

O filme consagra a canonização de RBG e foge de polêmicas que serviriam bem a qualquer documentário. Ficou de fora, por exemplo, quando ela chamou de “bobo e desrespeitoso” o protesto de um jogador de futebol americano que se ajoelhou no hino nacional.

“RBG” foi o terceiro documentário mais visto nos EUA em 2018, perdendo para “Won’t You Be My Neighbor”, sobre o apresentador de TV Fred Rogers, e “Free Solo”, seu principal adversário na corrida pelo Oscar.

Para os cineastas de “Free Solo”, uma questão incomodou desde o início do projeto. E se no ato de filmar seu protagonista, um alpinista americano, os diretores causassem sua queda e morte?

O sonho de Alex Honnold era escalar o El Capitan, um paredão de granito de 900 metros, cartão postal do parque Yosemite, na Califórnia. Mas ele queria fazer sozinho e sem cordas, algo inédito.

E Jimmy Chin queria estar lá para filmar. Alpinista profissional, Chin já havia dirigido outros filmes, como “Meru” (2015), e passou os últimos dois anos na cola de Honnold. Tinha uma regra de ouro: nunca perguntar se ele tentaria de fato a proeza, ou quando.

“Não queríamos causar nenhuma pressão para que ele fizesse isso”, contou Chin no evento da Academia. Ele codirigiu e coproduziu “Free Solo” com sua mulher, Elizabeth Chai Vasarhelyi.

“Free Solo” e “RBG” competem com “Hale County this Morning, this Evening”, “Minding the Gap” e “Of Fathers and Sons”, sobre uma família islâmica extremista na Síria.

Na categoria de curtas, dois filmes se destacam, como a história de mulheres na Índia que fabricam absorventes de baixo custo (“Absorvendo o Tabu”, disponível na Netflix) e “A Night at the Garden”, que recupera imagens de quando, em Nova York, em 1939, 20 mil americanos se reuniram para celebrar o nazismo.

“É uma visão horripilante de como a humanidade pode facilmente ser enfeitiçada por personagens carismáticos”, diz o diretor Marshall Curry.
 

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