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Engajamento da família e apoio em recaídas são essenciais para usuário de drogas

Especialistas debateram o tema após sessão do filme 'Querido Menino' realizada pela Folha

Cena do filme "Querido Menino", de Felix Van Groeningen, com Timothée Chalamet e Steve Carell
Cena do filme "Querido Menino", de Felix Van Groeningen, com Timothée Chalamet e Steve Carell - Divulgação
Leonardo Neiva
São Paulo

​​Envolver a família na reabilitação do usuário de drogas e fazê-la entender que as recaídas não são uma derrota, e sim parte do tratamento, são alguns dos aspectos mais difíceis e também mais importantes para o processo de recuperação.

De acordo com especialistas que debateram o tema na quarta-feira (20), após exibição do filme “Querido Menino”, realizada pela Folha, é importante que a recaída não seja tratada como um fracasso.

O problema é que, quando ela ocorre, o dependente acaba voltando ao padrão de uso de antes da abstinência, dando a impressão aos familiares de que todo o trabalho foi invalidado, explicou André Malbergier, coordenador do programa do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas, do Instituto de Psiquiatria da USP.

“Quando o médico ou psicólogo diz que a recaída faz parte do processo, a família reclama que se está dando carta branca para que o usuário use isso como justificativa. Na verdade, quando a recaída acontece, a grande questão é dar o suporte necessário para que o paciente consiga ficar abstinente novamente”, disse Malbergier.

O psiquiatra também frisou a importância de separar uma recaída de um lapso, que caracteriza o uso ocasional da droga por alguém que não vinha consumindo. Nesse caso, é importante não deixar que o lapso evolua para um quadro mais grave.

Baseado nos livros biográficos escritos por Nic e David Sheff, o filme “Querido Menino” acompanha o drama de um jovem (Timothée Chalamet) e de seu pai (Steve Carell) em uma luta de anos contra as drogas.

Da plateia, Ronaldo Luiz Rissetto, 64, assessor da Coordenação de Políticas sobre Drogas da Prefeitura de São Paulo, elogiou o longa e destacou a importância da orientação da família para dar o devido suporte ao usuário.

“Tenho um filho que usou droga por 12 anos e está limpo há sete. Eu e minha esposa passamos por praticamente todas as etapas mostradas no filme. O que falta na nossa cultura é esse engajamento da família, que hoje acaba sendo um fator tóxico, e não de contenção e apoio. Como pai, demorei anos para tomar alguma atitude com meu filho. Se tivesse conhecido um grupo de apoio, poderia ter abreviado uma série de etapas”, contou.

De acordo com a psicóloga Flávia Serebrenic, o tratamento do dependente de drogas se baseia em um tripé: o uso de medicamentos, a psicoterapia individual e a terapia familiar.

“A primeira etapa é fazer a pessoa perceber que tem o problema e querer mudar. A partir daí, vamos usando técnicas de terapia cognitivo-comportamental e de prevenção de recaída, que significa olhar para a situação e ajudar a pessoa a pensar em alternativas para lidar com circunstâncias de risco”, disse Serebrenic.

Como possibilidade de tratamentos no fututo, Malbergier citou uma vacina experimental que está sendo desenvolvida na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e em outros países. A tentativa é que, ao ser aplicada, ela crie anticorpos contra algumas das principais drogas, como a cocaína. 

Os especialistas concordaram que a descriminalização do usuário é uma etapa importante para o combate às drogas no Brasil. "O dependente químico não deve ser tratado como caso policial, mas de saúde", afirmou Serebrenic. 

Sobre maconha, a psicóloga disse que o consumo, para muitos, é só uma fase na vida, mas que a droga não é inofensiva. “Tenho visto muita gente mal por causa de maconha”, afirmou.

De acordo com Malbergier, o dependente de maconha costuma ser mais arrogante, não reconhece que tem o problema e adere com dificuldade ao tratamento.

O debate foi mediado pela jornalista especializada em saúde e colunista da Folha Cláudia Collucci.

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