Artistas brasileiros tentam decifrar brilho de Dubai em feira do Oriente Médio

Edição que acontece entre os dias 20 e 23 tem número recorde de galerias da América Latina

Silas Martí
Dubai

Um vendaval, desses que causam as tempestades de areia no deserto onde estamos, quase mandou pelos ares a oca montada pelos artistas do Opavivará numa ilha artificial bem no meio do resort de luxo que abriga a maior feira de arte do Oriente Médio.

Na tentativa de trazer a brisa de verdade dos cariocas para uma das cidades mais cenográficas do planeta, o coletivo do Rio de Janeiro criou uma esfera de guarda-chuvas um tanto frágil que virou cartão-postal instantâneo desta Art Dubai. Os árabes e expatriados que abarrotam a metrópole mais vistosa da região adoraram, mas precisaram esperar a tempestade passar para se espreguiçar nas cadeiras de praia do lado de dentro.

“Tudo é fake, meio parque temático nesse país. Não tem calçadas, parques, praias públicas”, observa Daniel Toledo, um dos artistas do grupo. “Então pensamos em trazer a relação que a gente tem com a praia, o ato revolucionário do prazer para cá.”

Do ponto de vista comercial, o prazer carioca se traduz na presença recorde de galerias brasileiras —seis no total— e latino-americanas numa feira antes dominada por casas da Ásia e do Oriente Médio. A expansão territorial tem a ver com o olhar do novo diretor da feira, o espanhol Pablo del Val, que vem tentando atrair de volta à região a diáspora árabe que se alastrou pelas Américas.


“Há relações estéticas e conceituais entre os artistas latino-americanos e os árabes”, diz Del Val. “Muitos aqui passaram por momentos históricos muito semelhantes, é uma ideia parecida de pós-colonialismo. Sem contar que há microcomunidades que formam esse país, cada uma com um gosto muito particular.”

Esse país, no caso, são os Emirados Árabes Unidos, um conjunto de monarquias ricas em petróleo e gás natural à beira-mar onde a população em sua grande maioria é formada por estrangeiros atrás das fortunas possíveis numa terra de sol escaldante e arranha-céus cintilantes.

Nesta 13ª encarnação da feira, que perdeu a joia da coroa do Oriente para a todo-poderosa Art Basel Hong Kong, a ideia foi remar rumo ao Ocidente, em especial o tão sedutor sul global, como o antigo Terceiro Mundo foi rebatizado pelas feiras de arte que buscam ampliar sua margem de lucro.

Del Val escalou ninguém menos que Fernanda Brenner, a jovem e carismática fundadora do Pivô, o mais cool dos centros culturais paulistanos que ocupa um andar inteiro do edifício Copan, para comandar uma ala da feira dedicada a novos e descolados artistas latinos, a lufada de ar fresco numa feira antes conhecida por vender overdoses de obras de ouro, cristal e bijuteria reluzente.

O saldo foi positivo. Grandes galerias paulistanas, líderes do mercado sul-americano, marcaram presença com interpretações no mínimo curiosas de seus artistas sobre as peculiaridades locais, dos prédios espalhafatosos ao mosaico de nacionalidades que fazem Dubai ser Dubai.

No mais ambicioso desses projetos, Luiz Roque lembra a história da cadela enviada ao espaço pelos soviéticos num filme que mostra uma cachorrinha blasé a bordo de um jatinho sobrevoando o deserto em direção aos arranha-céus de Dubai —a cidade abriga o Burj Khalifa, o mais alto prédio do mundo com mais de 800 metros de altura.

Seu filme, com trilha sonora dos DJs da festa paulistana Tormenta, é a mais perfeita tradução da estranha sensação de rodar a toda velocidade entre os prédios espelhados de Dubai a bordo de um táxi rasgando pela Sheikh Zayed, a via expressa que corta a cidade. Há muito brilho e pouca substância, um desenraizamento atroz ao som de música eletrônica que tudo amortece.

“É uma arquitetura metabolizada. Não é uma cidade feita para pessoas. E a ideia do cachorro é falar da atividade humana sem mostrar os humanos”, diz Roque. “É superar essa coisa brilhante mesmo.”

Luisa Strina, galerista que dá seu nome à galeria mais respeitada do Brasil, concorda. “Parece que aqui você está numa cidade das histórias em quadrinhos”, ela diz. “É minha primeira vez. Não tenho conexão nenhuma, estou numa primeira viagem.”

Nessa pegada, seu estande mostrou uma série de trabalhos de Alexandre da Cunha, brasileiro radicado em Londres que criou para a feira uma série de quadros em que toalhas de banho estampadas com bandeiras nacionais surgem tingidas de preto.

“Pensei no projeto influenciado pela minha ideia de Dubai. A propaganda daqui é muito emblemática, as cores da bandeira é tudo que você vê andando de táxi”, diz o artista. “Foi uma confirmação da ideia que eu tinha.”

Na mesma pegada têxtil, Laura Lima, uma das duas brasileiras escaladas para a Bienal de Charjah, maior mostra de arte contemporânea do Oriente Médio, que corre em paralelo à feira, costurou tecidos revestindo telas de pintura, como se vestisse uma ideia cega.

Marcio Botner, da galeria A Gentil Carioca, que representa Lima e faz sua estreia na Art Dubai, acredita que as obras da artista refletem o clima da cidade ao redor, a tentativa de traduzir uma cultura milenar no corpo de uma metrópole ainda jovem.

É uma ideia que encontra eco no trabalho da nova dupla colombiana Mazenett Quiroga, representada pela galeria Instituto de Visión, de Bogotá. Eles estamparam as manchas da pele de um jaguar sobre um isolante térmico metálico, um dos materiais mais usados pela construção civil local, fundindo a fúria desenvolvimentista dos Emirados Árabes ao instinto animal numa obra um tanto literal. 

Fizeram ainda um monte de areia com uma embalagem de cigarros West, tentando traduzir a ideia de que no mundo árabe estão todos viciados em orientação geográfica para se voltar a Meca na hora das orações.

Falta estofo, mas não deixa de ser uma visão latina do exótico universo de Dubai, uma cidade atravessada por tensões de todos os continentes ao redor e talvez por isso anódina ao ponto de parecer um estranho playground de ricos expatriados.

O jornalista viajou a convite da Art Dubai

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