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Livros

'Garotas Mortas' oscila entre jornalismo, relato autobiográfico e ficção

Selva Almada narra casos de feminicídio ocorridos na Argentina na década de 1980

CAMILA VON HOLDEFER

Garotas Mortas

  • Preço R$ 44,90 (128 págs.)
  • Autor Selva Almada
  • Editora Todavia
  • Tradução Sérgio Molina

Em 1986, Selva Almada, então com 13 anos, ouviu na rádio a notícia da morte de Andrea Danne. “Eu não estava prestando atenção, mas a ouvi bem claramente”, escreve. “Naquela mesma madrugada, em San José, uma cidadezinha a vinte quilômetros dali, uma adolescente tinha sido assassinada em sua própria cama, enquanto dormia.”

Foi naquele momento, segundo a autora, que o livro que se transformaria em “Garotas Mortas” começou a germinar.

Trinta anos atrás, na província de Entre Ríos (Argentina), o feminismo era, na melhor das hipóteses, discutido em outros termos (mais brandos e alusivos) e em outro tom (mais moderado).

A escritora argentina Selva Almada, autora de 'Garotas Mortas' - Keiny Andrade/Folhapress

A mãe de Selva Almada foi uma espécie de precursora: quando debatia a violência que vitimava vizinhas e parentes, ao contrário das outras mulheres, falava “em alto e bom som, indignada”. Recém-casada, cravou um garfo no braço do marido que a ameaçava —cena que relatou à filha ainda pequena.

As palavras e o exemplo da mãe foram, em parte, responsáveis pelo despertar precoce de Selva Almada para a violência de gênero.

“Garotas Mortas” é uma narrativa em primeira pessoa que faz as vezes de jornalismo investigativo. Ao de Andrea Danne, Selva Almada une dois outros casos de feminicídio ocorridos na década de 1980. Um é o de María Luisa Quevedo, estuprada e estrangulada em 1983. Outro é o de Sarita Mundín, cujos detalhes ainda permanecem um mistério, desaparecida em 1988.

A esses casos, Almada costura episódios e cenas que partem da violência latente —e naturalizada— e podem chegar à brutalidade mais abjeta. Quase todos mostram uma dominação masculina ligada ao poder do dinheiro. Almada revela, por exemplo, uma prostituição que não recebia este nome e não poupava meninas menores de idade.

Almada lê os processos e conversa com amigos e familiares das três garotas. Também consulta uma vidente, a quem chama de Senhora. As conversas com a Senhora preenchem com fabulações —​que ganham ar de legitimidade— as diversas lacunas das histórias. Antes de tornar o livro menor, o expediente é responsável por construções e recursos tipicamente literários, fazendo com que o livro oscile em uma fronteira entre a peça jornalística das páginas policiais, o relato autobiográfico e a ficção.

É de Selva Almada, que participou da Flip de 2018, um dos últimos livros publicados pela extinta Cosac Naify, “O Vento que Arrasa”. Há semelhanças entre as duas narrativas, sobretudo na voz segura, capaz de sustentar o clima de tensão.

Apesar da indignação e da dor, o que se sobressai é outra coisa. “Garotas Mortas” mostra, no fim das contas, que as mudanças no vocabulário, no volume em que podemos falar e nos vínculos de solidariedade que criamos nos dão alguma esperança.

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