Mariza acrescentava à coluna parte de mim que eu escondia no texto

Era como se ela se encarregasse de expressar a violência dos afetos que eu tinha deixado (ou reprimido) entre as linhas

Ilustração
Ilustração de Mariza publicada na quinta-feira 21 de março de 2019 - Mariza Dias Costa/Folhapress
Contardo Calligaris
São Paulo

Quase exatamente 20 anos atrás, a Folha publicou minha primeira coluna da quinta-feira. E era ilustrada por Mariza Dias Costa.

Eu morava nos Estados Unidos e não houve como a gente se encontrar antes de uma colaboração que nunca parou e só acaba porque Mariza morreu. Conhecia a força do trabalho dela porque ela ilustrara a coluna de Paulo Francis.

Mas minhas primeiras colunas eram bem comportadas; por exemplo, apresentavam pesquisas de psicologia e tentavam mostrar quais eram as consequências para todos. Como elas dialogariam com as ilustrações de Mariza?

Eu lutava para conseguir um exemplar da Folha (poucas cópias chegavam a Nova York). A cada vez, a ilustração era mais que isso: era como se ela se encarregasse de expressar a violência dos afetos que eu tinha deixado (ou reprimido) entre as linhas.


Os leitores só conheceram os desenhos impressos na página do jornal. Eram sensacionais, mas algo dos originais se perdia inevitavelmente. Mariza desenhava em três dimensões: usava os métodos tradicionais (crayons, lápis, aquarela, pena etc.) misturados com qualquer coisa que ela catasse na sarjeta da cidade, ao longo de suas andanças.

Caminhando com Mariza descobri que as ruas do centro de São Paulo são carpetadas de penas perdidas por pombos e outras aves. Ela enxergava e pegava todas. Pensei que ela as usasse como instrumentos para espalhar tinta, como pincéis. Mas é só ter nas mãos um desenho original de Mariza para constatar que não tem anjo ou demônio ou ave cujas asas não contenham, coladas no papel, penas de verdade –penas perdidas e encontradas na sarjeta.

Isto tínhamos em comum: Mariza e eu amávamos a cidade, ou melhor, seus restos “menos salubres” —portanto, também sua violência e suas misérias. E ela se encarregava de acrescentar à coluna essa parte de mim que, quase sempre, eu escondia no texto, ou melhor, esquecia na sarjeta.

Ao longo dos 20 anos, não foi raro que os leitores percebessem essa nossa colaboração e a comentassem comigo.

Na manhã de sexta-feira, a notícia da morte de Mariza me chegou por um deles, Roberto Corcioli, que me escreveu:

“Caro Contardo Calligaris, se eu, como leitor, lamento profundamente que suas colunas deixarão de ‘conversar’ com as magníficas ilustrações de Mariza Dias Costa, fico a imaginar quão consternado você deve estar.”

É isso mesmo. Ciao, Mariza.

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