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Cinema

'Nós' responde de forma terrivelmente aguda às aflições atuais

No filme de terror de Jordan Peele, o ataque é interior e vem do outro que vive em nós

Inácio Araujo

Nós

  • Quando Estreia nesta quinta (21)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Lupita Nyong'o, Winston Duke e Elisabeth Moss
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Jordan Peele

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Não é preciso mais que um minuto de filme para apreciarmos a capacidade de Jordan Peele para nos atirar em atmosferas inquietantes. 

E, no entanto, quase nada acontece: há um casal em um parque de diversões, em 1986, a mãe que pede ao pai para cuidar da filha. O pai que obviamente não cuida, e a menina sai andando sozinha.

Uma criança se perde —tudo pode acontecer. É noite, tanto pior. E, se ela entra numa casa de espelhos, pior ainda. Espelhos são coisas malditas, porque duplicam os seres —foi mais ou menos isso que Jorge Luis Borges escreveu. "Nós" parece, desde essa cena, feito para lhe dar razão.

Ali está a menina diante de suas imagens duplicadas, procurando a saída, quando topa outra vez com sua imagem, porém ela agora está virada de costas. E a garota tem uma reação de terror.

Quando o longa retorna, estamos nos dias de hoje. A menina (Lupita Nyong'o) tornou-se mãe de dois filhos e está a caminho da praia com a família. Por que então a atmosfera tensa prossegue? Só por que o filho se chama Jason e adora uma máscara de personagem de terror?

Logo veremos: assim que uma outra família surge. Idêntica, porém assustadora. Sangrenta, também veremos logo. "Nós" nos projeta então numa atmosfera próxima à de "Os Pássaros", de Hitchcock. Existe uma revolta, mas quem são, por quê? Os seres duplos podem representar de fato um espelho do que somos: um segundo "eu", doente, perverso.

Mas esses seres começam a se multiplicar e já não pensamos em termos de eu, de reflexões especulares ou algo assim. É mais sociológico: existe um grupo, nós, e existe outro, eles. Estão em oposição, e é preciso enfrentá-los.

Um conflito mais doloroso porque somos nós mesmos em uma segunda versão, ao menos na aparência. Mas quem são eles, precisamente?

 

Se, à medida que os seres duplicados aparecem em quantidade sempre maior, lembramos dos pássaros hitchcockianos, quando eles se revelam somos remetidos a outra saga, a dos invasores de corpos, extraterrestres que tomam nossas carcaças e as substituem, produzem réplicas exatas de nós —mas são outros. Estão, por exemplo, no "Eles Vivem", de John Carpenter, ou em "Os Invasores de Corpos", de Don Siegel.

Mas, não nos enganemos: essas proximidades não se abrem à compreensão da narrativa de Jordan Peele nem servem para que cessem as inquietações. Até porque não são criaturas extraterrestres. São, antes, infraterrestres.

Muda nada, mas muda bastante. Num tipo de filme, por misterioso que seja, o ataque vem de fora: pássaros ou alienígenas. Aqui, o ataque é interior —vem de nós, de nossa imagem no espelho, do outro que vive em nós.

Por isso ninguém estranhará se, ao sair, se pergunte sobre quem seriam exatamente as pessoas que estão ao seu lado. Mesmo que sejam familiares.

"Nós" responde bem aos dilemas da era Trump nos EUA, que tanto se parecem com esses que vivemos também no Brasil. A pergunta é a mesma: quem estará ao meu lado?

Jordan Peele e seu filme respondem de forma terrivelmente aguda às aflições do tempo presente. Que mais esperar de um filme de terror?

Só como P.S.: aqui, a questão racial não comparece em nada. Ah, e a menção a Jeremias 11:11 não ajuda a dissipar o mistério, embora talvez indique que o culto excessivo à Bíblia tenha algo a ver com ele.

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