'Foi a música que prejudicou minha carreira nas drogas', diz Black Alien

Rapper volta à ativa com 'Abaixo de Zero: Hello Hell', composto por músicas curtas e diretas

O rapper Black Alien
O rapper Gustavo Ribeiro, mais conhecido como Black Alien, ex-integrante do Planet Hemp - Roncca/Divulgação
Lucas Brêda
São Paulo

Em 2004, Black Alien era um dos principais rappers do Brasil. “Estava com a gata da novela de um lado, um puta disco estourado do outro, o ponto de ônibus com a minha cara”, recorda. “Mas o dinheiro não chegava na minha mão. Começou a ir acertando a partir de 2013, quando o disco foi relançado em vinil.”

Antes de lançar o álbum solo de estreia, “Babylon by Gus Vol. 1 – O Ano do Macaco”, Gustavo Ribeiro já tinha uma história no hip-hop carioca, com destaque para a participação no Planet Hemp, na virada da década. Nos últimos 15 anos, contudo, ele lançou apenas mais um álbum, “Babylon by Gus Vol. 2 - No Princípio Era o Verbo”, em 2015.

“Tem jornalista que adora dizer que minha carreira foi prejudicada pelas drogas”, diz Black Alien. “A música é que prejudicou minha carreira nas drogas. Eu era viciado muito antes de fazer o meu primeiro verso. Já passei por um monte de coisa na rua antes de fazer música. Foi o contrário: a música brecou a minha morte prematura no mundo das drogas. Em 1993, eu tocava para cinco pessoas. Em 1995, eram 5.000. Em 1998, gravei dois clássicos no disco do Marcelo [D2]. Em 2000, com o Sabotage. Em 2004, meu disco solo.”


Neste mês, Black Alien retorna à cena com “Abaixo de Zero: Hello Hell”. Com produção do agora requisitado beatmaker Papatinho (ConeCrew), o álbum enfim coloca o Mr. Niterói em conexão com os novos tempos. São músicas curtas, diretas e com sonoridade mais conectada com o que é feito atualmente no rap, embora sem cair em modismos.

“O Papato estava com o Snoop Dogg e a Anitta no telefone, mas estava dando atenção para o meu disco”, conta Gustavo, citando a recém-lançada música da cantora com participação do rapper americano, que foi produzida pelo beatmaker, peça-chave do sucesso de “Hello Hell”.

Se desta vez Gustavo trabalhou com o parceiro no estúdio Papatunes, na época em que concebeu “Vol. 2” estava internado voluntariamente em uma clínica de reabilitação —foram nove temporadas, ao todo.
“Tinha uma mesa para eu escrever, improvisamos um estúdio para eu gravar as guias”, lembra. “O D2 lançou disco naquela época, Emicida também, e eu estava de chinelo lavando latrina.”

Com uma produção escassa nos anos anteriores, contudo, o resultado não era exatamente o esperado. “‘Isso aqui não é Black Alien! Cadê o verso? Cadê a metáfora? Como é que eu vou entregar isso aqui? Aí eu ouvia os caras rimando e ficava pior ainda”, conta o MC.
A recepção de “Vol. 2” não saciou a espera de mais de uma década pelo sucessor de “Babylon by Gus”. Mas o trabalho foi importante para que Gustavo voltasse a escrever, enquanto, paralelamente, fazia shows e lidava com a sobriedade.

“Me falaram um negócio massa: ‘Cara, esquece Shakespeare. Para de achar que as ideias não são legais só porque são suas’”, conta. “Aí comecei a aceitar alguns trabalhos e fazer participações para conseguir voltar à forma. Isso foi me dando confiança até chegar em março do ano passado.”
Um possível atalho para Black Alien voltar a se conectar com o rap seria seguir o caminho do trap, batida que está mais em alta no gênero atualmente. Mas ele não deu o braço a torcer. “Poucas batidas trancam tanto a levada como o trap. Ou é rápido ou é devagar”, diz. “Eu vou cantar igualzinho o BK ou Djonga? Faz sentido para eles, porque é da época deles, mas, para mim?”

Sem soar ultrapassado nem pegar carona na moda, Black Alien também reencontrou uma de suas características principais, a levada acelerada (ou o “speed flow”, como rima), com muitas palavras ditas em pouco tempo.

Em 2019, Gustavo parece estar pronto para falar da própria vida —e, consequentemente, dos piores e melhores momentos.

“A recuperação de dependência química não é o tema”, conta. “Ela pontua o disco porque é algo presente na minha vida.” De fato, só é interessante ouvir Black Alien cantar sobre o vício porque ele não o faz de maneira pragmática.

Em “Aniversário de Sobriedade”, fala do bloqueio criativo (“Mas, Gustavo, o que fazes?/ Cadê as letras? Esqueceu da caneta?/ Fica só cheirando em cima do CD de bases”). Em “Carta pra Amy”, evoca a cantora Amy Winehouse (“Se um dia a coragem foi líquida / Agora ela é sólida, irmão/ Tenho não só que lidar com a vida/ Lido com ela sem pó e sem dó então”).

“A reação [ao disco] está muito diferente, tem muita gente me agradecendo”, conta Black Alien. “Achei isso interessante, ainda não entendi o que isso significa.”
Quando reflete sobre as decepções da vida, Gustavo não hesita em dizer que gostaria de ter feito mais música.

“É uma diversão que eu perdi só para ficar cheirando pó. Quando eu olhei, estava abaixo de zero. Parei de beber, e cheguei no zero. No zero tive que começar tudo de novo. Enquanto os caras estavam fazendo versos animais, eu não conseguia rimar A com B.”

Ele conta que precisou de 15 shows sóbrio para conseguir subir em um palco sem passar mal de nervoso.
“Para [voltar a] escrever, foram dois ou três anos. E aí, como faz? É fé, irmão. Se você ficar pensando ‘Ah, eu não sou a ‘lírica bereta’, eu não sou o ‘number one’, ‘vão dizer que eu não escrevo mais nada’. Lamento por quem não está tendo essa coragem e espero que o disco ajude essas pessoas.”

“Dar uns tequinhos? Nunca foi ruim. Demorou para ser trevas. Mas, quando você tem vontade de usar, o negócio é lembrar dos últimos dias de uso, e não dos primeiros”, conta, enquanto termina uma xícara de café. “Parei de beber, mas não virei santo por causa disso. Continuo o mesmo Gustavo.”

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