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Cinema

Para apreciar Bibi Andersson, o melhor é buscar os filmes que fez com Bergman

Embora tenha ganho prêmios em Cannes e Berlim, a atriz não foi das mais felizes na carreira internacional

Bibi Andersson em 'Persona', de Ingmar Bergman
Bibi Andersson em 'Persona', de Ingmar Bergman - Divulgação
Inácio Araujo

É impossível falar de Bibi Andersson, a formidável atriz bergmaniana que morreu neste domingo (14), aos 83 anos, sem lembrar a fantástica estirpe a que pertence: a das atrizes nórdicas.

Talvez seja a dinamarquesa Asta Nielsen que inaugura essa série, já no começo da década de 1910. Mas foi Greta Garbo a primeira atriz nórdica a se tornar um mito do cinema, talvez o maior de todos.

O próprio Ingmar Bergman ficou embasbacado ao recebê-la em seu escritório: “É muito difícil dizer se os grandes mitos são sempre mágicos porque são mitos ou se a magia é uma ilusão criada por nós, consumidores”. Assim Bergman começa a narrativa de seu encontro.

Foi um encontro revestido de paixões, embora não de um pelo outro: se Greta tratava Bergman quase como usurpador (estava usando o escritório que um dia foi de Mauritz Stiller, o descobridor de Garbo),  Bergman não deixa de notar que a boca da atriz era feia.

Houve outras grandes atrizes no cinema nórdico, como Birgitte Federspiel, a insubstituível Inger de “A Palavra”, de Dreyer, que reapareceria em 1987 em “A Festa de Babette”. Mas a vocação desta outra dinamarquesa não era ser estrela. Houve ainda aquelas, como Zarah Leander, que vincularam seu nome ao cinema nazista e praticamente desapareceram no pós-Guerra.

Ninguém esquecerá, é claro, Ingrid Bergman, cuja estrela sobe em Hollywood no exato momento em que Greta Garbo abandona as telas e que filmaria com Ingmar bem depois, em 1978, a “Sonata de Outono”.

Mas nunca houve um descobridor de atrizes como Bergman. No cinema nórdico, talvez mesmo no mundial. Houve Eva Dahlbek, Harriet Andersson, Ingrid Thulin, Liv Ullman e, claro, Bibi Andersson. Se não lançou uma por uma, seus filmes projetaram cada uma delas internacionalmente.

No caso de Bibi, Bergman a descobre pela primeira quando faz um comercial, em 1951, no mesmo ano em que tem seu primeiro papel no cinema (não creditado, num filme de Alf Sjöberg). Ela ainda é estudante de teatro, quando Bergman a leva para o teatro, em Malmö. Em 1955 ela ganha um papel secundário em “Sorrisos de uma Noite de Amor”. À sua frente, no elenco, uma poderosa dupla de estrelas bergmanianas: Harriet Andersson e Eva Dahlbeck, além de Ulla Jacobsen.

Bibi se tornaria em seguida parte essencial do momento de ascensão internacional de Ingmar Bergman, talvez o momento mais brilhante de sua obra: “O Sétimo Selo “ (1957), “Morangos Silvestres” (1957), “O Rosto” (1958), “Para Não Falar de Todas Essas Mulheres” (1964), "Quando Duas Mulheres Pecam” (1966) impõem sua expressão graciosa (como costumam ser as estrelas bergmanianas), porém dotada de uma delicadeza, de uma fragilidade pouco frequente nas atrizes do grande mestre sueco, de Eva Dahlbeck a Liv Ullman, passando por Harriet Andersson e Ingrid Thullin.

Embora tenha ganho prêmios de melhor atriz em Cannes (1958) e Berlim (1963), a atriz não foi das mais felizes em sua carreira internacional, a exemplo, aliás, de quase todas as atrizes bergmanianas, inclusive Liv Ullman, sua preferida desde a segunda metade dos anos 1960.

Foi ao faroeste (“Duelo em Diablo Canyon”, 1966, de Ralph Nelson), onde fez a mulher que, por ter sido sequestrada pelos índios, sofre o desprezo dos brancos.

Passou também pela nouvelle vague francesa, onde “Le Viol”, de Jacques Doniol-Valcroze, não teve maior repercussão (na verdade, o filme foi rodado na Suécia). Embora considerado “magistral” por Jean-Pierre Melville, o mestre do policial francês, “Carta ao Kremlin” (1970), de John Huston, foi um fracasso.

“Quinteto” (1979), coprodução internacional de Robert Altman, apanha o diretor americano em fase de baixa e também não chega a ser um sucesso, embora Bibi entre no elenco junto com Paul Newman, Vittorio Gassman e Fernando Rey.

Ainda que esteja em “A Festa de Babette” (1987), sucesso internacional de Gabriel Axel e ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, não resta dúvida de que o filme é da francesa Stéphane Audran e a presença de Andersson, ali, mais uma homenagem do que outra coisa.

Sem dúvida, para apreciar a arte de Bibi Andersson o melhor mesmo é buscar os filmes que fez com Ingmar Bergman, que soube iluminar com sua beleza suave e seus modos gentis.

Bibi Andersson morreu em Estocolmo, onde nasceu, em 11 de novembro de 1935. A causa da morte não foi informada.

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