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Com recepção estrondosa, BTS cria laços de dependência com fãs em São Paulo

Maior nome do k-pop faz show que une técnica e capacidade de tocar fundo o coração adolescente

O grupo sul-coreano BTS em apresentação no Allianz Parque neste sábado (25)

O grupo sul-coreano BTS em apresentação no Allianz Parque neste sábado (25) Divulgação

Lucas Brêda

Do lado de fora do Allianz Parque, em São Paulo, o clima era de choro e gritos quando começou o show do BTS. Pontual, a boyband coreana subiu ao palco às 19h deste sábado (25).

Quem ficou sem ingresso sofria por não estar dentro do estádio, mas também se emocionava só em saber da presença dos ídolos a poucos metros de distância.

Lá dentro, a histeria tomou conta dos 42 mil presentes durante as duas horas e 40 minutos em que a banda executou com notável precisão o pop multifacetado pelo qual é conhecida.

A recepção em São Paulo foi estrondosa, incomum até para fenômenos do pop jovem, como Justin Bieber e One Direction.

Não é à toa. O BTS é hoje o maior representante do k-pop, indústria bilionária de música da Coreia do Sul em ascensão há pelo menos 15 anos.

O septeto marcou o ápice da expansão do gênero no Ocidente —foi o primeiro grupo de k-pop a ter o álbum número um de vendas nos Estados Unidos, com "Love Yourself: Tear", de 2018. Já o disco mais recente, "Map of the Soul: Persona", levou o grupo a ser o único, além dos Beatles, a ter três álbuns no topo das paradas ao longo de um ano.

Na atual turnê, "Love Yourself: Speak Yourself", o BTS desenvolve o conceito que o colocou na dianteira do k-pop: o amor-próprio. Além dos temas das músicas, o grupo evoca a participação do público a todo momento —e ela é determinante para o espetáculo.

A ambientação é adornada pela plateia, que balança bastões de luz, criando um cenário apoteótico. As chamadas "army bombs" mudam de cor de acordo com comandos enviados via Bluetooth, deixando-as alinhadas ao clima das performances.

"Army", ou exército, é o nome pelo qual os fãs são chamados, e as "bombs" (bombas, que na verdade são bastões) só podem ser compradas em lojas oficiais do BTS ou no próprio show. Cada uma custa R$ 250, mas nas cercanias do Allianz Parque da dava para conseguir uma de procedência duvidosa por R$ 40.

O BTS já se apresentou em São Paulo antes –em casas para menos de 10 mil pessoas–, mas desta vez o público de 42 mil pessoas refletiu o crescimento do grupo, com lotação digna de Paul McCartney, que reuniu quase 90 mil em duas datas, no mesmo espaço.

Em cima do palco, o BTS vai do pop no estilo Chainsmokers ("Boy With Luv") ao trap radiofônico ("Trivia: Love"), passando por baladas ao piano, riffs de rock de arena e até canções suaves de R&B. O rap, diferencial do grupo, aparece com os integrantes Suga, RM e J-Hope emendando rimas enquanto correm pelo palco em "Tear".

Os momentos solo dos integrantes foram especialmente emocionantes. Em "Serendipity", Jimin dançou levantando a camisa enquanto cantava uma balada no estilo anos 2000. V surgiu deitado em uma cama branca revelando a personalidade irresistivelmente tímida no R&B "Singularity".

Não só as danças, mas praticamente tudo é pensado conceitualmente, do cenário às interações protocolares com o público. Os fãs também combinaram momentos de reações sincronizadas, conhecidos no k-pop como "fanchants", que tiveram de corações vermelhos de papel à exibição de placas com frases em coreano.

Até por isso, qualquer sinal de espontaneidade —uma piscada de olho era suficiente— levou a plateia ao delírio.

Para criar uma intimidade com os brasileiros, os integrantes chegaram a ensaiar passos de samba. Jung-kook até brincou com a expressão do momento, “juntos e shallow now”, enquanto conversava com o público.

Em "The Truth Untold", os fãs cantaram junto uma letra que é quase inteira em coreano. Foi a representação máxima da imprevisibilidade do poder de penetração do BTS em uma cultura tão distante.

Mas "Idol" foi o ápice do show. "Você não pode me impedir de me amar", diz o refrão da música, um EDM (Electronic Dance Music) empacotado para os estádios, que representa a conexão entre os cantores e os fãs pelo cordão da necessidade juvenil de autoafirmação.

Fosse apenas pela capacidade técnica e de criar um espetáculo dessas proporções, o BTS já estaria na lista das maiores boybands que já existiram. Mas o septeto consegue criar um tipo de relação ainda mais intensa com seu séquito.

Quando as luzes se acenderam, uma adolescente chorava de soluçar ao lado do pai. E o pai chorava junto ao ver a emoção da garota, em uma cena que se repetia pelas arquibancadas e na pista do Allianz Parque.

O êxito do BTS vai além da quebra da hegemonia americana e inglesa na criação de ídolos adolescentes, ele aponta para uma nova maneira de produzir este tipo de entretenimento.

Mais que músicas e coreografias, o BTS vende conceitos e personagens, despertando nos fãs a sensação de que são indispensáveis para a banda. É um elo de dependência, como se um não existisse sem o outro.

Acampados há cerca de três meses no estádio do Palmeiras, os fãs permanecem ali até este domingo (26), quando o BTS faz seu segundo show na cidade.

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