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'Crime e Castigo' prova que a fé não nos deixa incapazes de pensar

Qualquer relativista gourmet de hoje faria xixi nas calças diante do niilismo de Raskólnikov, protagonista do livro

Retrato de Dostoiévski de autoria do pintor russo Vassili Perov, de 1872
Retrato de Dostoiévski de autoria do pintor russo Vassili Perov, de 1872 - Reprodução

Crime e Castigo

  • Preço R$ 74,90 (608 págs.)
  • Autor Fiódor Dostoiévski
  • Editora Todavia
  • Tradução Rubens Figueiredo

A nova tradução de “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski, por Rubens Figueiredo, é um presente para o leitor brasileiro do autor russo.

“Crime e Castigo”, romance escrito entre 1865 e 1866, traz, além de outras marcas, duas características essenciais. A primeira tem a ver com o contexto russo e europeu no qual o romance se inscreve (muito bem descrito pelo tradutor na apresentação da edição); a segunda tem a ver com a espiritualidade russa que permeia a obra do autor e que se aprofunda à medida que ele caminha em direção ao seu último grande romance “Os Irmãos Karamázov”

O contexto russo e europeu da época é marcado pela agitação política de ideias. Dostoiévski, sempre envolvido nos debates à sua volta, enfrenta o que na época vai ser chamado na Rússia de niilismo (o romance “Os Demônios”, sua fenomenologia do mal, será dedicado inteiramente ao niilismo).

O niilismo, nesse contexto, é uma visão de mundo segundo a qual todos os valores são criados pelo próprio homem, e, portanto, carecem de fundamentação absoluta ou transcendente, e, por consequência, podem ser mudados ao sabor de quem tiver coragem, poder e gosto pela violência.

Na Rússia, esse movimento filosófico transcende um tanto o tom melancólico da origem alemã, para assumir uma fúria política que desaguará na Revolução Russa de 1917.

O jovem Raskólnikov, personagem principal, mata uma agiota, justificando seu ato filosoficamente como sendo o ato de um homem extraordinário, termo do próprio personagem. Homens extraordinários, na verdade um outro termo para um niilista livre da moral, criam a história e os valores que os ordinários (o resto da humanidade) seguem.

Esses ordinários vivem segundo o meio em que habitam, acreditando nas ficções morais criadas pelos extraordinários. A “teoria do meio”, de origem utilitarista, ética criada pelos ingleses Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), que impactou o pensamento russo de então, entendia que a moral era produto do meio social e histórico, e, portanto, podia ser “ajustada” para um bem maior.
Raskólnikov, como todo personagem de Dostoiévski que transita pelo niilismo da época, leva ao paroxismo as ideias revolucionárias de então: um homem extraordinário mata e vai ao cinema depois, porque não sente culpa, uma vez que sobre ele as ficções morais não têm validade psicológica. Qualquer relativista gourmet contemporâneo faria xixi nas calças diante de um niilista russo do século 19.

A dimensão espiritual do romance está ligada à descoberta que o herói faz ao longo da trama, acompanhado por Sônia, a prostituta santa, que carrega a luz do espírito santo sobre si: apenas a confissão do crime, e o castigo merecido, pode trazê-lo de volta a vida. Como um Lázaro, Raskólnikov, pelas mãos da culpa assumida, descobre que não há homens extraordinários, mas apenas um nada por detrás da tentativa de romper com Deus e com a moral. Dostoiévski é a prova cabal de que a fé não nos torna incapazes para o pensamento. 

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