Descrição de chapéu Moda

Estampa que traz 'fé' como uma cruz estilizada vira febre entre evangélicos

Desenho virou tatuagem e todo o tipo de acessório, extrapolando o sentido religioso

Lucas Brêda
São Paulo

Um camelô no centro de São Paulo organiza roupas em uma arara no meio da rua. Entre modelos de banda de rock e super-heróis da Marvel, ele revela uma camiseta toda preta, estampada com uma cruz branca de ponta a ponta formando a palavra “fé”.

Naquele mesmo quarteirão, outras três lojas oferecem a estampa, mas não só em camisetas. Há acessórios como pochetes e bolsas em exibição e um dos vendedores está usando um boné com o mesmo símbolo.

Desde o fim do ano passado, a “fé” em formato de cruz é febre no vestuário —e na pele— do brasileiro. “É bem comum, sai muito mesmo”, diz o tatuador Paulo Fernando Neto, que já perdeu as contas de quantas vezes tatuou isso.

Estampa "fé", que virou febre em acessórios e tatuagens no Brasil
Estampa "fé" - Reprodução

Ele conta que antes tatuava mais imagens de santos e de duas mãos juntas rezando. “A maioria tem crença, mas não são pessoas religiosas, que costumam ser mais sistemáticas em relação a tatuagens.”

Hoje dominando as ruas, o desenho tem origem tão confusa quanto sua propagação. Marcas menores conseguem peças de fornecedores diversos, mas a dona de uma loja em Campinas, no interior paulista, afirma ser a criadora.

“Vi uma camiseta americana com ‘Jesus’ escrito em forma de cruz. Como não fazemos cópias, chamei uma moça que trabalha comigo e saiu a cruz escrito ‘fé’”, diz Kelli Gasques, da Ruah Moda Cristã, que lançou a coleção no último mês de agosto. 

“Quando vi pela primeira vez, era um homem com a camiseta. Minha produção é terceirizada, então pensei que meu fornecedor deveria estar fazendo [por conta própria].”

Havia, contudo, uma diferença. A figura que a paulista diz ter criado trazia um coração no lugar do acento em “fé”.

Gasques recorda que, meses depois, a estampa estava “em todo lugar que você olhava”. “Não aguento mais nem ver! Estou enjoada. Tem bijuteria, colar, brinquinho, anel. Até vestido!”

Com clientes elitizados e camisetas que saíam por cerca de R$ 80, ela pouco lucrou —e tampouco quis lutar pelos direitos— do desenho. “Em estampa, por uma coisinha que você muda, podem alegar que é outra coisa”, diz. “De todo mundo, fui a que ganhou menos dinheiro.”

O pastor Luciano Luna conheceu a camiseta quando começaram a aparecer com ela em sua igreja, a Poderoso Deus, em São Paulo. Duas funcionárias próximas dele têm a figura tatuada, mesmo que a prática não seja recomendada pelos evangélicos. “O corpo não é para ter marcas, mas, óbvio, a pessoa faz o que bem entende. Pelo menos tatuou uma cruz, uma fé.”

Mesmo tendo supostamente surgido em uma loja católica, a camiseta se firmou ao conquistar os evangélicos.

Amanda Vieira, sócia da loja virtual Galeria do Cristão, começou a procurar a peça depois que viu fiéis com ela no Rio de Janeiro, onde vive. “Parecia uniforme”, diz. “Já vendi até para espíritas, mas a maioria é cristão, principalmente evangélico.”

Até a virada do ano, o consumo da camiseta ainda era restrito. “Muitas pequenas confecções começaram a fazer mais barato, os clientes [cristãos] pararam de comprar”, analisa Vieira. “Acredito também que devido aos memes. No Réveillon, tinha foto de pessoas com a blusa e gente dizendo: ‘O governo está dando?’.”

Antes relacionada à expressão da crença religiosa, o desenho agora tem significados e públicos bem mais amplos. 

Kathia Castilho, especialista em moda e semiótica, enxerga a fé como parte da cultura brasileira. “Somos um povo que tem crenças particulares, dizemos que Deus é brasileiro, que a fé move montanhas”, teoriza. “Acreditamos que dias melhores virão.”

Na visão de Kelli Gasques, a estampa caiu no gosto popular. “Estamos numa fase extremamente difícil economicamente, e a fé não é exclusiva de uma crença”, explica.

Já o pastor Luciano Luna vê uma relação indireta da massificação do símbolo com a eleição de Bolsonaro.

"Ele foi eleito por uma maioria evangélica pela falta de esperança nos políticos”, analisa. “Ele simulou o sentimento de fé, mas [agora] está trazendo desesperança na gente. Aí acho que vira ao contrário, o símbolo funciona para as pessoas dizerem: ‘Vamos continuar tendo fé’.”

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