Descrição de chapéu Livros

Novo livro da autora de 'Cinquenta Tons de Cinza' reduz a voltagem erótica

'Mister' troca chicotes por um certo romantismo na cama entre os protagonistas

São Paulo

Transantes, tremei. E. L. James, autora da trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, acaba de botar para jogo seu novo livro, “Mister”. 

E, se a simples menção do nome da escritora britânica já faz circular mais rápido o sangue dos fãs de literatura erótica, é bom que se avise que, em vez dos chicotes, o protagonista desta história aposta no romantismo na cama, o que confere um tom mais morno às famosas cenas de sexo que ajudaram a vender 40 milhões de cópias dos livros anteriores

A escritora E. L. James, que lança o novo "Mister"
A escritora E. L. James, que lança o novo "Mister" - Ana Cuba/New York Times

Embora o saudoso Christian Grey fosse quase um fofo, oferecendo mimos e dando uns tapas de vez em quando, o novo astro Maxim Trevelian é um príncipe de verdade, transformado em lorde imediatamente depois da morte do irmão. Passa suas noites à base de sexo com mulheres variadas até conhecer o amor da sua vida. 

Brochante? Talvez. Não tanto pelo fato de que histórias de amor entre membros da realeza e plebeias não costumam ser a coisa mais sexy do mundo —Alessia, a mocinha, trabalha como faxineira para Maxim—, mas principalmente porque, excluído da trama o elemento sadomasoquista que consagrou “Cinquenta Tons”, o sexo do novo livro perde força, precisando de uma forcinha para parar em pé.

A pílula azul de “Mister”, no entanto, garante a autora, seria justamente a paixão que une os protagonistas. “Só sei que a maior parte dos emails que recebi de leitores não eram sobre a safadeza, mas sobre a história de amor”, garante E. L. James, que já promoveu o lançamento no exterior, em entrevista a 
esta repórter. “No fundo, ‘Mister’ também é uma história apaixonada, e espero que os leitores reajam a isso.”

Ainda que flácido em seu sex appeal, é claro que “Mister” não chega ao extremo de pôr Maxim e Alessia transando no sofá de meias, em um domingo à tarde embalado por pipoca e Netflix —até porque James sabe que sexo ajuda a vender livros e, quanto mais transas, mais cópias. 

Doem as saudades das algemas, mas dá para se consolar com um ou outro beijo grego. “Na minha experiência, quando as pessoas se apaixonam, elas expressam o amor física e frequentemente. Incluo sexo quando é parte da história”, defende a autora, questionada sobre a frequência quase matemática com que Maxym remexe seus quadris para dentro de outra pessoa.

Entre elas está Caroline, viúva de seu irmão que aparece logo nas primeiras páginas na cama do cunhado —os dois se relacionaram no passado e retomam o sexo 13 dias após o enterro—, e segue fazendo incômodas intromissões em sua vida via mensagens de texto no celular.

Fica, assim, a impressão de que Caroline é um contraponto de infelicidade e cobrança à figura valente e livre de Alessia, virtuosa pianista que ama ler romances em inglês depois de ter fugido Albânia, onde foi vítima de um casamento arranjado e de traficantes de mulheres.

Como intersecção com Anastasia, a submissa personagem de “Cinquenta Tons de Cinza”, Alessia tem, segundo a autora, apenas a determinação. “São ambas mulheres jovens e fortes. Além disso, elas têm muito pouco em comum.”

Na época da promoção de sua bem-sucedida trilogia, E. L. James recebeu, também, críticas de feministas que questionavam o tipo de relação entre os protagonistas, sugerindo nuances abusivas por parte de Grey.

Há sete anos, a Wearside Women in Need, uma associação britânica que abriga, aconselha e apoia mulheres e crianças vítimas de violência doméstica, chegou a destruir cópias dos livros, reciclando suas páginas como papel higiênico. 

Desde aquela ocasião até agora, no entanto, a autora sempre defendeu que o sexo narrado ali era consentido, o que pode realmente ser complicado de entender se as pequenas torturas às quais Anastasia se sujeita são o primeiro contato do leitor com o universo BDSM, acrônimo para “bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo”. 

“Todo o sexo em ‘Cinquenta Tons’ entre Christian e Ana é consensual. Todo o sexo entre Alessia e Maxim é consensual”, resume. “Eu sou uma feminista, claro. Feministas querem direitos iguais aos dos homens, e qual mulher com amor próprio aceitaria menos que isso?”

 

“Percebi que era feminista ainda criança. Minha mãe, que é chilena, é muito forte e passional. Ela administrava a casa, trabalhava em período integral e foi um grande exemplo de feminismo ativo. Eu me inspiro nela. Apresentar meus sonhos ao mundo nesses livros é provavelmente a coisa mais feminista que eu já fiz. Escrevo para mulheres. Mulheres sentem desejo, e esses livros são sobre desejo.” 

Apresentado como um literal príncipe de uma história à la Gata Borralheira, Maxim é milionário de berço. Não tem trabalho fixo e se ocupa quando dá vontade fazendo bicos como DJ, fotógrafo e modelo —se há algo mais horripilante para uma feminista, desconhecemos. “Quem não quer ser arrebatada por um herói abastado?”, generaliza a autora.  

Publicada em 37 países, E. L. James foi considerada uma das cem pessoas mais influentes do mundo em 2012. No ano seguinte, entrou para a lista da revista Forbes de cem celebridades mais poderosas.

Avaliações sobre seu talento literário à parte, ela tem o mérito de criar um produto longe do desprezível, não só porque a fez embolsar milhões de libras, mas porque estimula a sexualidade e a liberdade femininas em um mundo de repressão milenar.

“Até hoje não faço ideia de por que ‘Cinquenta Tons’ se tornou tão popular. A única ‘fórmula’ que eu sigo é esta: eu escrevo o que eu quero ler, e espero que os outros queiram ler também.”

Mister

  • Preço R$ 49,90, 432 págs.
  • Autor E. L. James
  • Editora Intrínseca
  • Tradução Cássia Zanon, Catharina Pinheiro, Julia Sobral Campos e Maria Carmelita Dias

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