'É algo que tenho que fazer, vou lá e faço', diz membro de Jesus and Mary Chain sobre shows

Banda escocesa de irmãos em pé de guerra se apresenta em São Paulo nesta quinta (27) com canções novas

Thales de Menezes
São Paulo

Quando as músicas da banda escocesa Jesus and Mary Chain começaram a tocar nas rádios britânicas, em 1984, era comum o ouvinte mexer no dial para tentar "melhorar" o som. Era tanta distorção que muitos pensavam que a emissora estava mal sintonizada.

Esse rock acelerado de muito ruído será mostrado no Brasil pela quarta vez, com show em São Paulo nesta quinta-feira (27). Se na vinda mais recente, em 2014, a performance era nostálgica, com hits dos seis álbuns lançados entre 1985 e 1998, desta vez há canções novas no set.

Algumas não são exatamente novas. O sétimo disco do grupo, "Damage and Joy", lançado em 2017, traz em metade do repertório músicas que os irmãos Jim e William Reid já tinham exibido em versões diferentes. "Agora elas carregam realmente o som da banda", diz Jim Reid.

"The Two of Us", "Facing Up the Facts" e "Get on Home" foram gravadas pela Freeheat, banda efêmera que Jim montou depois que ele e o irmão decidiram se separar em 1999, após brigas lendárias em anos de turnês. 

Duas faixas tinham sido gravadas por Jim sozinho, "Song for a Secret" e "Amputation", esta última com o nome "Dead End Kids".

"All Things Pass" é uma gravação antiga, que em 2008 entrou na trilha sonora da série de TV "Heroes". E "Can't Stop the Rock" foi lançada por Sister Vanilla, nome artístico da irmã caçula dos Reid, Linda. Ela já havia cantado com eles no disco anterior, "Munki" (1998), na faixa "Moe Tucker".

Linda canta na regravação de "Can't Stop the Rock" e em mais uma faixa de "Damage and Joy", "Los Feliz (Blues and Greens)". O álbum segue a tradição da banda em usar cantoras. Um de seus maiores sucessos é "Sometimes Always", do álbum "Stoned & Dethroned" (1994), dueto de Jim com Hope Sandoval, da banda Mazzy Star.

Desta vez estão no disco a americana Sky Ferreira, em "Black and Blues", e a escocesa Isobel Campbell, em "Song for a Secret" e "Two of Us". Ex-Belle and Sebastian, Isobel é uma velha amiga, mas Jim não conhecia Sky Ferreira. "Alguém sugeriu, a voz dela ficou ótima, e foi isso. É só uma colaboração."

Os 19 anos entre os discos mais recentes não parecem afetar o som da banda. O muro de guitarras distorcidas continua erguido. As novidades tecnológicas surgidas no período não preocuparam a dupla.

"Não mudamos nada em nossas ideias ao passar do analógico ao digital. Nosso jeito de compor é o mesmo, vamos atrás de boas frases de guitarra, uma letra esperta e pronto."

No entanto, "Damage and Joy" é o primeiro trabalho do Jesus and Mary Chain em que os irmãos não fizeram a produção por conta própria. Eles chamaram o badalado Youth, parceiro de Paul McCartney no projeto Fireman.

"Quando eu e William ficamos muito tempo juntos, tenho a sensação de que a Terceira Guerra Mundial pode começar. Youth foi ótimo para administrar as coisas."

As brigas entre os irmãos já atrapalharam bastante a banda. Quando fizeram as pazes e voltaram a tocar juntos em 2007, numa apresentação consagradora no festival Coachella, um álbum deveria ter sido lançado no ano seguinte, mas novos atritos adiaram o projeto.

De lá para cá, cumpriram uma agenda irregular de turnês. Mas não parecem dispostos a repetir o início de carreira, marcado por uma relação difícil com o público. Às vezes faziam apresentações de pouco mais de dez minutos. E em algumas noites Jim chegava a cantar de costas para a plateia o tempo todo.

"Não temos interesse de voltar ao caos pelo qual passamos no começo. Mas eu realmente não me sinto à vontade no show, não é uma coisa fácil. É algo que tenho que fazer, vou lá e faço. Mas minhas melhores recordações da vida não são em cima de um palco."

Os irmãos já estão produzindo um novo álbum. "Agora teremos uma nova leva de canções, sem recorrer a coisas antigas." As faixas inéditas de "Damage and Joy" são parentes próximas do som barulhento dos primeiros discos, "Psychocandy" (1985) e "Darklands" (1987), mas com doses melódicas a mais.

Jim Reid não acredita que um dia mudará seu estilo. "Continuo ouvindo Velvet Underground, Stooges, bandas que fizeram seu som em cima de boas guitarras. É o que a gente faz."

Popload Gig: Jesus and Mary Chain

  • Quando Quinta-feira (27), às 21h30
  • Onde Tropical Butantã, av. Valdemar Ferreira, 93
  • Preço De R$ 174 a R$ 360
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