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Cinema

Longa 'Maya' nos leva a uma deliciosa história de devaneios

Narrativa lacunar escolhida pela diretora Hansen-Løve permite uma narrativa que vagueia e não corre rumo ao desfecho

Maya

  • Quando Estreia nesta quinta (20)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Roman Kolinka, Aarshi Banerjee, Alex Descas
  • Produção França/Alemanha, 2018
  • Direção Mia Hansen-Løve

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O corpo masculino mostrado à distância na primeira imagem de “Maya” contém todo um projeto de cinema que a francesa Mia Hansen-Løve vem desfiando numa carreira ainda curta, mas já sólida, de seis longas.

A nudez ali não tem carga erótica, é apenas um ponto de vista que revela na lateral do corpo um grande hematoma. Em seguida, o corpo ganha uma face, e vemos o homem cortar com uma tesoura a barba.

A primeira imagem mostra o subcutâneo, uma cicatriz interior que dói como qualquer ferida. A segunda imagem introduz a transformação, um ponto de partida favorito da diretora que prefere personagens que não seguem um destino linear. O filme avança de forma oscilante entre a necessidade de se curar e a de não repousar, de demandar cuidados e dispensar compromissos.

Logo saberemos que se trata de Gabriel, jornalista francês que acaba de ser libertado de um sequestro feito pelo Exército Islâmico na Síria. Ao lado do colega Frédéric, também libertado, ele retorna à França, onde é reconhecido, recupera alguns afetos, mas não se reencontra.

A etapa seguinte é uma viagem à Índia, onde ele não busca evasão, como descobriremos aos poucos. A opção da cineasta pela narrativa lacunar pode ser vista como defeito, como prova de um roteiro mal-ajambrado. Esta escolha, contudo, lhe permite criar uma narrativa que vagueia e não corre rumo ao desfecho.

O filme poderia se chamar “Gabriel”, visto a onipresença do personagem do jornalista em cena, mas no entanto o título é “Maya”, nome de uma garota indiana que cruza seu caminho sem de fato conseguir que ele se fixe.

O contexto histórico e político não funciona aqui como um grão a mais de realidade ou como pano de fundo da atualidade. A estratégia de Hansen-Løve não é enxertar o mau estado do mundo para dar sentido de urgência à sua ficção.

O filme desvia-se assim da dicotomia civilização ou barbárie para embarcar em outra viagem, que não tem nada do cinema turístico em busca do exótico ou do alternativo.

Maya é tão central ao filme quanto Gabriel na medida em que ela está em aberto, não é plenamente uma adulta, deixa-se guiar pela leveza dos afetos, enquanto ele é encerrado em sua melancolia, segue movimentos falsos, fracassa na busca do passado e tenta encontrar na juventude e na infância algum elo perdido.

Nessa história de devaneios, experimentamos algo que se tornou raro no cinema, a delícia de nos deixar levar.

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