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'Sex and the City' africana, novela fala de poligamia e viraliza no Senegal

Maîtresse dun Homme Marié divide país ao falar de mulheres independentes

Felipe Maia
Dacar

Nos últimos meses, Seynabou Cissé, 30, mudou sua rotina às segundas e sextas-feiras. Quando acaba o expediente, ela toma o transporte público e enfrenta o trânsito de Dacar, capital do Senegal, onde vive. Em casa, prepara o jantar da família e bota as duas filhas para dormir. 

Só então vem o novo compromisso. Ela liga a televisão para assistir a mais um episódio de “Maîtresse d’un Homme Marié”, ou amante de um homem casado. Com uma audiência cada vez maior, essa novela senegalesa tem levantado debates por retratar mulheres vivendo histórias que tocam em tabus e assuntos que são muito sensíveis em países do oeste da África.

Entre estereótipos e enredos um tanto complexos, as protagonistas da trama encarnam temas como violência conjugal, independência e sexualidade. Cissé se identifica com Djalika, uma jovem que tenta tocar a vida sozinha ao lado de seus filhos. 

“Essa personagem tem uma amiga que parece ser vítima de um casamento forçado, e isso existia antigamente. 

Então, a novela mostra coisas que antes eram bem aceitas na sociedade”, afirma ela. 

O enlace principal é um triângulo amoroso que se torna eventualmente um casamento oficial. O Senegal é um país de maioria muçulmana onde a poligamia não é crime.

Nas redes sociais, a torcida se divide entre Lalla, a mulher com mais tempo de casa, e Marème, a arrivista. 

Apesar de ter sido feita para a televisão, a novela é vista por milhões de espectadores no celular. No Senegal, segundo o levantamento estatal mais recente, há cerca de 9,6 milhões de usuários de internet.

Em cinco meses, o primeiro episódio de “Maîtresse d’un Homme Marié” chegou a 3 milhões de acessos só no YouTube.

“A ideia é mostrar o cotidiano de senegalesas em várias facetas —a mãe, a mulher perfeita, a mulher que vive com um homem alcoólatra, a mulher que foi vítima de estupro, a mulher que se apaixona por um homem casado”, afirma Kalista Sy, criadora da trama. 

Sem nunca ter feito estudos de cinema, a autora da novela recebeu o convite para escrever a trama depois de compartilhar pequenos contos de sua autoria no Facebook. 

Hoje, ela é uma das poucas mulheres trabalhando como roteirista no país. “As produtoras aqui são dominadas por homens, e as histórias sempre têm mulheres sexy, mulheres que não pensam e, 
na verdade, a maioria das mulheres não são assim”, diz.

Cissé, a telespectadora assídua, até entende que a primeira mulher do casamento esteja contrariada com a chegada da novata na trama —mas nem tanto assim. “Na nossa tradição, não há nada mais normal que a poligamia.” 

Sy acredita que existem mulheres que se veem forçadas a aceitar esses relacionamentos. “Elas fazem isso por escolha ou por que elas não têm escolha?”, pergunta a roteirista.

Os diálogos da trama são quase todos em wolof, idioma falado pela maioria da população do Senegal, e dão mais realismo ao texto.

Na tela, as personagens transitam numa agitada metrópole africana ostentando penteados, bijuterias e marcas de empreendedores locais. 

As atrizes viraram celebridades. Em entrevistas, Halima Gadji disse já ter recebido olhares tortos na rua — ela interpreta a segunda mulher. 

O tempo destinado a patrocinadores da novela aumentou dez vezes entre o primeiro e o mais recente episódio. 

Mais importante, afirma Sy, é a resposta do sexo oposto. “Alguns homens me dizem que agora ajudam as mulheres em casa.”

No começo de maio, a ONG islâmica Jamra encaminhou uma queixa para o Conselho Nacional de Regulação Audiovisual do Senegal. O ofício se referia ao episódio que retrata as preliminares de uma noite de núpcias. 

“A sexualidade é um grande tabu no Senegal”, diz Sy. “Mas eu criei essa história também para mostrar aos homens que as mulheres têm vida sexual.”

Vice-presidente da ONG, Mame Mactar Gueye afirma que a medida serve de proteção ao público infantil. Segundo ele, a novela deve ser veiculada mais tarde, acompanhada de uma tarja de classificação indicativa. O conteúdo também precisaria mudar. 

“Há pornografia verbal, adultério, promoção da fornicação e outras coisas que podem ser traumatizantes 
para uma criança”, afirma. 

O Senegal tem uma tradição de diversidade cultural maior se comparado a países da região. Nas ruas de Dacar, desfilam diferentes tipos de roupa, cristãos e islâmicos convivem e há canais de televisão que exibem novelas latino-americanas. Sy gosta da brasileira “Da Cor do Pecado”. “Eu até sigo a protagonista no Instagram, adoro aquela atriz”, diz ela, sobre Taís Araújo. 

Ainda assim, o país também registra episódios de repressão a manifestações culturais. 
Há três anos, a rapper Déesse Major foi detida por alguns dias por usar roupas curtas em seus clipes e shows. 

Em 2001, o diretor Joseph Gaï Ramaka foi ameaçado por homens armados em meio à exibição de seu filme “Karmen Geï”. Releitura da ópera “Carmen”, a obra traz uma cena de sexo entre duas mulheres com duração de um minuto. 

O cineasta, que se exilou depois do ataque, voltou ao país há poucos anos. Já a sala de cinema não existe mais.

Gueye, da ONG islâmica, lembra que na França, em 1985, associações cristãs se uniram para vetar projeções de “Eu vos Saúdo, Maria”, de Jean-Luc Godard. O filme revisita a história da mãe de Cristo e foi proibido no Brasil pelo então presidente José Sarney. 

Quanto à novela senegalesa, Cissé, que não perde um capítulo, acha exagero haver qualquer restrição legal. “Poderia ter um aviso de classificação indicativa para maiores de 12 anos porque às vezes tem algumas palavras que não são apropriadas para crianças”, diz ela. 

Autora da trama, Sy diz que foi oficialmente advertida pelo conselho audiovisual do país, mas que isso não aliviou a sua caneta. “Eu continuo a fazer o que eu tenho de fazer e, se a série for proibida, bem”, diz ela, antes de empostar a sua voz, “vamos até o fim”.

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