Redução de IPI para games vem junto com ataques a Ancine, que financia jogos

Se com uma mão o governo agrada gamers, com a outra, ataca a agência, que em 2018 anunciou R$ 45,2 mi para jogos

Eduardo Moura
São Paulo

O flerte do presidente Jair Bolsonaro com o mundo dos videogames, posto em prática com a recente redução da alíquota do IPI, não atinge diretamente quem produz jogos no Brasil. A ação esquenta o mercado para quem consome, mas, para os desenvolvedores, o terreno continua árido.

Já um possível desmonte de órgãos de fomento pode ter consequências mais diretas.

A Ancine, na mira do presidente, no ano passado anunciou R$ 45,2 milhões de fomento via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para games.

O consumo de videogames é grande no Brasil, porém, a produção nacional ainda engatinha —e para um mercado ainda novo como este, fomentos são tão bem-vindos quanto necessários.

“Os jogos estão sendo afetados por cortes na cultura, que claramente não é [um tema] importante no governo atual”, diz Luiggi Reffatti, do estúdio brasiliense Fira Soft. Com o jogo “Krophobia”, conseguiu investimento de R$ 997 mil via FSA.

“A indústria [de games brasileiros] tem qualidade, mas ainda não fatura muito, porque é muito jovem”, diz Reffatti. A sua empresa, com sete anos de fundação, já é uma das mais antigas no ramo.

“Há um contraste imenso entre a indústria produtora e a indústria consumidora”, avalia Pedro Bastos, produtor do jogo de ação ‘Dolmen’, do estúdio potiguar Massive Work.

Quem reina no mercado gamer nacional são as empresas estrangeiras. De acordo com estimativa da Associação Brasileira de Desenvolvedoras de Games (Abragames), menos de 1% do faturamento do mercado de games no país vem de produções brasileiras.

A associação não vê contradição em uma diminuição de impostos concomitante a ataques a um órgão federal que fomenta jogos digitais. Em nota, a Abragames diz que “o aceno do governo para a indústria de games parece demonstrar interesse em fomentar o crescimento da indústria brasileira nesse setor e podemos aproveitar esse momento para o crescimento da participação na receita global dessa indústria”.

“O foco que está sendo dado é exclusivo para os consumidores. Ficaria muito feliz se pudesse se estender para o mercado produtor”, diz Bastos, que chegou a tentar editais da Ancine, mas não foi selecionado. Para o seu “Dolmen”, conseguiu recursos via financiamento coletivo e investimento privado de “pessoas físicas, empresários, amigos e família”, conta. Até agora, ele arrecadou R$ 1,5 milhão.

“Eu vejo esses incentivos e editais como paliativos. Não como solução”, afirma Bastos.

Para Heidy Motta, “não adianta baixar imposto de consoles se os desenvolvedores de jogos brasileiros estão sob péssimas condições de trabalho”. Motta, do estúdio MiniBoss, participou do desenvolvimento de “Celeste”, eleito o melhor independente pela premiação internacional Game Awards de 2018. 

“As ações do presidente visam a precarização do trabalho no Brasil e isso afeta diretamente áreas pouco desenvolvidas e recentes, como a de jogos”, completa. 

Concept art de 'Kriophobia', jogo do estúdio brasiliense FIra Soft, que conseguiu aporte de edital da Ancine
Concept art de 'Kriophobia', jogo do estúdio brasiliense FIra Soft, que conseguiu aporte de edital da Ancine - Divulgação

Há quem prefira ver o copo meio cheio, como Sérgio Sá Leitão, ex-ministro da Cultura, do governo Temer. “A redução de impostos é muito bem-vinda, mas é preciso ir além. [O mercado de games] precisa de um empurrãozinho muito pequeno para deslanchar.”

A diminuição do IPI também pode abrir uma janela para criar um novo tributo que seja revertido aos produtores nacionais. É o que pensa Gustavo Steinberg, diretor do Big Festival, evento de jogos independentes. “Seria um bom momento para conversarmos sobre um ‘Condegame’”, diz, em referência ao Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), cujo recolhimento alimenta o FSA.

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