'Estou velha demais para me assustar com qualquer coisa', diz Margaret Atwood

O livro 'Os Testamentos', continuação de 'O Conto da Aia', chega ao Brasil nesta terça e é narrado pela personagem Tia Lydia

Alexandra Alter
The New York Times

Margaret Atwood não tinha certeza de que fosse capaz de continuar "O Conto da Aia", ainda que os fãs insistissem em uma continuação.

"O que eles estavam pedindo era uma combinação da voz de Offred, o que eu não teria sido capaz de fazer", ela disse, em uma conversa regada a chá e sucos em um café perto de sua casa.

"Uma pessoa é capaz de galgar o Empire State Building com as mãos nuas uma vez só. Se tentar de novo, ela cai. Aquela voz estava lá. Disse o que tinha para dizer. Na verdade não há o que se possa acrescentar, na voz dela."

Mas alguns anos atrás, a escritora começou a tramar uma maneira de continuar seu clássico da distopia publicado em 1985, sobre as mulheres de Gilead, uma autocracia religiosa no território dos antigos Estados Unidos na qual mulheres férteis são sujeitas a um ritual de estupro e forçadas a ter filhos para os cidadãos de classe alta.

a escritora Margaret Atwood (uma mulher idosa) com seu novo romance com a capa preta
Escritora Margaret Atwood durante o lançamento do seu novo romance 'Os Testamentos' em Londres, nesta terça (10) - Dylan Martinez/Reuters

De lá para cá, "O Conto da Aia" se tornou um fenômeno da cultura pop, um chamado à ação política e uma série de sucesso no serviço de streaming Hulu, estrelando Elizabeth Moss como Offred, a narradora. A edição do romance em inglês vendeu mais de oito milhões de cópias em todo o mundo.

Mulheres vestidas como aias invadiram a sede do Congresso americano e de legislativos estaduais para protestar contra novas restrições aos direitos reprodutivos. As expectativas quanto à continuação, que este mês foi indicada como finalista do prêmio literário Man Booker, antes de seu lançamento, dia 10, são estratosféricas.

Para aumentar essas pressões, há o fato de que uma continuação de "O Conto da Aia" já existe na prática. A adaptação para a TV criada por Bruce Miller conduziu a saga de Offred para além do escopo do romance. Por isso, Atwood e Miller tiveram de calibrar a trama e o desenvolvimento dos personagens na série para que não contradissessem a continuação e vice-versa.

"Margaret me ofereceu mais restrições e eu lhe dei mais informação", disse Miller em entrevista. "Tive de tomar cuidado com o caminho que estava seguindo, o que estava fazendo. Ela controla o mundo."

A continuação, intitulada "Os Testamentos", acontece cerca de 15 anos depois do final de "O Conto da Aia", quando Offred é levada por uma van preta. O livro estreou no Brasil nesta terça (10).

O novo romance traz duas novas narradoras —uma mulher jovem criada em Gilead e uma adolescente canadense que escapou do regime quando criança— e uma terceira que será conhecida dos fãs do romance e série originais: Tia Lydia, a aterrorizante e vingativa arquiteta do sistema que treina as mulheres de Gilead para a servidão reprodutiva.

À medida que as histórias entrelaçadas dessas pessoas se desenvolvem, Atwood revela novas facetas de como a estrutura de poder de Gilead veio a se desenvolver, e como ela termina por desabar. Uma adaptação de "Os Testamentos" para a TV também está sendo preparada.

Atwood, que completa 80 anos este ano, estava muito animada ao refletir sobre seu trabalho, mortalidade e a surpreendente presciência de "O Conto da Aia". Abaixo excertos editados da conversa.

Quando você anunciou a continuação, disse que pretendia responder perguntas que os leitores vinham fazendo sobre Gilead há anos. Quais eram algumas dessas perguntas? Todas ela começavam, por "e se". E uma das questões era: sistemas totalitários não perduram, algo em que acredito fervorosamente. Alguns deles duraram mais que outros. Quando se desmantelam, o que é que os faz cair? Bem, existem muitos cenários diferentes. Eles podem desabar por dentro, corrupção e expurgos internos entre os membros da elite, ataques externos, mudança de gerações. A primeira geração em geral tem um fervor rigoroso, o foco da segunda é a administração, e a terceira geração começa a pensar, "o que exatamente estamos fazendo?".

Depois da eleição do presidente Trump, as vendas de "O Conto da Aia" dispararam e leitores apontaram o quanto o livro parecia oportuno. Alguns elementos parecem ainda mais alinhados aos acontecimentos correntes, com a erosão dos direitos reprodutivos, a separação de pais e filhos na fronteira e os ataques dos defensores da supremacia branca às minorias. Você queria escrever uma continuação em parte para tratar desses paralelos? Não, não. Isso está sempre fervilhando em qualquer país. Os defensores da supremacia branca estão lá, e surgem quando as condições são favoráveis, como nos Estados Unidos agora.

"Os Testamentos" retoma a história 15 anos mais tarde, mas sua trama inclui elementos introduzidos na série de TV. Você estava conscientemente tentando expandir esses elementos? Estava tentando garantir que não existissem incompatibilidades gritantes. Eles alteraram a cronologia e com isso deixamos muita coisa em aberto. 

Na segunda temporada da série, Nicole, a filha de Offred, é contrabandeada do país para o Canadá. A bebê Nicole tem papel central em sua nova trama. Como funcionou esse processo? A ideia para ela veio da série, e você decidiu expandi-la? Não, Nicole foi um nome que eu escolhi. Você percebe que deixei a eles uma margem ampla para desenhar por trás das cenas, e por isso cabe a eles definir como é que conseguem levar uma pessoa a atravessar a fronteira, em sua parte da trama.

Você esteve bastante envolvida na série, que leva a história de Offred adiante do ponto em que ela termina no seu romance original. Como funcionou esse processo? Eu tinha influência mas não poder. Há uma grande diferença. Não sou a pessoa com poder final para decidir alguma coisa. Eu me comunico com Bruce e digo coisas como "você não pode matar tal pessoa". 

Isso funciona? Bem, ele não a matou. Mas não ia matá-la, de qualquer modo. Ela é boa demais para ser morta.

Que personagem? Tia Lydia.

Houve momentos em que os produtores da série quiseram levar a trama e os personagens em uma direção que você sentia violar as regras do mundo que criou? Há um par de coisas que estão no livro e eles não pegaram bem, mas é compreensível por que não o fizeram . É um programa de TV.

No livro, eles têm supremacia branca plena. Na série, dei uma folga aos produtores. O elenco é multirracial, na TV por alguns motivos. A história se passa agora, a Hulu tem uma cláusula de diversidade e uma série em que todo mundo é branco seria tediosa de assistir.

Houve pontos da trama dos quais você discordou? Eu gritei um pouco, mas foi uma gritaria razoavelmente efetiva. Creio que é um problema, para pessoas que conhecem o verdadeiro totalitarismo, saber que alguns desses personagens sobreviveram por tanto tempo quanto fizeram. Eles certamente teriam sido fuzilados a dada altura. O número de pessoas que sabiam o que June estava aprontando era muito grande. 

Em "Os Testamentos", tia Lydia se torna muito mais complexa e empática, e vemos que, embora perpetradora, ela também é uma vítima. Como ela evoluiu em sua mente ao longo das décadas, e por que você decidiu fazer dela um personagem central na continuação? Como você se torna uma pessoa de alta patente em uma ditadura totalitária? Ou você acreditou na causa desde o começo, o que significa que provavelmente será expurgado mais tarde, ou você é oportunista. Ou pode ser por medo, ou uma combinação de todas essas coisas. Eu colocaria o medo em primeiro lugar. Se eu não fizer isso, serei morta.

Tia Lydia sempre quis subir e assim ela subiu. Não se deixa perturbar facilmente, mas não acredita de verdade na causa, diferentemente de alguns dos outros. Como J. Edgar Hoover, ela compreende o poder de conhecer segredos sujos sobre as pessoas e não revelá-los publicamente.

 Quando você teve a ideia de escrever a continuação? Ela foi algo que você já tivesse considerado no passado, mas não realizou? Eu sempre pensei nela. Vasculhei minhas anotações recentemente e descobri que já estava pensando em uma continuação para "O Conto da Aia" em 1991. Aí é questão de pular para dentro e ver o que acontece.

Fiquei imaginando se o sucesso da série de TV influenciou sua decisão de escrever a continuação, e como isso afetou seu entendimento daquele mundo e dos personagens. Você queria reafirmar seu controle criativo sobre o mundo que havia criado? Eu entendo que você tenha pensado isso, mas na verdade não, não foi o que aconteceu. Foi realmente como eu disse no começo: examinar de que maneira o totalitarismo acaba.

Com uma obra tão amada quanto "O Conto da Aia", você enfrenta enorme pressão para produzir uma continuação satisfatória. Você estava nervosa quanto a satisfazer as expectativas dos fãs? Pensando em se isso arruinaria meu futuro, minha reputação literária? Se eu tivesse 35 anos, você teria toda razão em fazer essa pergunta. Mas não era uma grande preocupação para mim.

Você releu "O Conto da Aia" antes de escrever "Os Testamentos"? Que impressões a releitura lhe causou? É claro. Também voltei ao meu arquivo de recortes, porque naquela época não existia internet, e recortávamos coisas dos jornais. E todas as coisas que são tópicos de conversação agora, causa de agonia, já eram discutidas então. A ascensão da supremacia branca, aquela camada que nunca desapareceu, sempre esteve lá, mas alguém abriu a porta. Cultos religiosos que subordinavam mulheres já eram discutidos. Roubar bebês é um tema humano imemorial. Forçar mulheres a ter bebês, aconteceu na Guerra de Troia, pelo amor de Deus.

 Que eventos recentes influenciaram seu pensamento? Não quero ser específica demais, porque isso seria ditar ao leitor e prefiro que eles pensem por conta própria. É por isso que quando as pessoas perguntam o que aconteceu a Offred digo que elas é que escolhem. A história está repleta de pessoas que desaparecem sem deixar traço. Que final você gostaria de ter?

A continuação não é tão ambiciosa ou tão aberta quanto o original. Isso foi deliberado de sua parte, para dar à história uma sensação de finalidade? Oh, não sei. Essa tem uma sensação maior de conclusão. Alguém disse que o final é feliz demais. Bem, nem para todos os personagens da trama. É um final mais positivo do que se poderia esperar em determinados pontos da história. Nasci na Segunda Guerra Mundial. Em 1942, as coisas pareciam bem sombrias.

Como você se sente por seu livro ter adquirido nova ressonância política e você ser mencionada como uma figura líder da resistência? Não tenho controle sobre isso. Acho que usar o uniforme das aias como forma de protesto é brilhante. Não faz com que a pessoa seja expulsa, ela não está causando tumulto, não está dizendo coisa alguma, mas é muito visível e todo mundo sabe o que aquilo quer dizer. Assim, é uma tática brilhante. 

É um pouco deprimente que as pessoas estejam vendo ecos da sua distopia fictícia na política contemporânea? Do ponto de vista político, o desfecho desejado de "O Conto da Aia" teria sido que a história caísse na obscuridade como uma história de época, para que meus alertas sombrios não se provassem corretos. Não foi nessa direção que a História seguiu.

Tanto Offred em "O Conto da Aia" quanto tia Lydia em "Os Testamentos" imaginam se alguém lerá as palavras que elas escrevem, se suas histórias importarão. Fiquei imaginando se isso refletia sua opinião sobre escrever e seu desejo de se conectar com os leitores, e medo de que seu trabalho talvez não tivesse impacto. Isso se aplica a todos os escritores. Todo escritor. Quando você está escrevendo... vejo você escrevendo agora; e se seu editor decidir não publicar o artigo? Nesse caso você não terá leitores. A cada vez que você apanha um instrumento de escrita, não vou dizer uma caneta e uma folha de papel, porque você escrever com uma pedra, em uma árvore, há um leitor implícito, mas sempre um leitor futuro, a não ser que a pessoa esteja atrás de você lendo por sobre seu ombro. O escritor está sempre nessa posição porque está sempre separado, no tempo e no espaço, de quem quer que leia seu livro. Escrever qualquer coisa é sempre um salto a um futuro desconhecido.

No passado, você rejeitou o rótulo "feminista", mas muitos leitores e críticos veem ideias feministas em seu trabalho. Imagino como você se sente ao se ver citada como símbolo do feminismo. O rótulo me incomoda se a outra pessoa não o define. É preciso perguntar de que tipo de feminismo a pessoa está falando. É como quando alguém pergunta se você é cristão —cristão de que tipo? Alguém que dança com cobras, alguém que considera o Papa infalível— do que estamos falando, aqui? Onde você está, no espectro, porque a variedade é grande. A mesma coisa no caso das feministas, que passam muito tempo denunciando umas às outras. Que tipo eu sou, assim? Porque estou interessada em equidade, sou uma pessoa igualitária, para quem igual quer dizer igual, não superior. Ou seja, você não recebe pontos adicionais.

Mas não a incomoda que seu trabalho seja definido como distopia. Sei o que isso significa. É uma sociedade que consideramos menos preferível do que aquela em que vivemos, enquanto utopia seria uma sociedade em que presumimos que as coisas serão melhores do que a maneira pela qual vivemos. Mas gosto de apontar que a distopia de alguns é a utopia de outros e vice-versa.

O que a assusta mais no momento? Sou velha demais para me assustar com qualquer coisa. Você se assusta quando é jovem e não conhece a trama. Você ainda não realizou muita coisa, aos 20 anos, e tem medo do futuro, é claro que tem. Você tem esperança, entusiasmo, mas também medo. O que me desperta esperança, mas não medo, são os jovens. Eles estão mudando o discurso político.

Você já pensou em escrever mais um livro sobre Gilead, criando uma trilogia? Não. Estou velha demais.

Você está trabalhado em outro romance? É uma questão de cronograma. Quanto tempo tenho? Em minha idade... digamos que eu demore quatro anos a escrever um romance. Quem sabe? Essas são questões teóricas. Quantos aniversários marcantes uma pessoa pode ter?

Parece que você não sente mais a pressão por escrever, que não lhe resta nada a provar. Na verdade, não resta muito tempo. Por isso eles partiram para a loucura na promoção desse livro. Eu sei o que eles estão pensando. Estão pensando, "e se ela morrer? Melhor fazer agora. Ir ao máximo. Última chance". Comento isso e eles enrubescem e ficam sem graça. Mas não podem negar que estão pensando nisso. [Risos].

Em que você está trabalhando agora? Na minha coleção de poemas. É curta.

Tradução de Paulo Migliacci

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