Fotografia de Luiz Braga registra a cultura cabocla soterrada pela urbanização

Com mostra em SP, fotógrafo paraense mostra perda cromática das palafitas que cedem à alvenaria

Gabriel Kogan
Belém

À espera da tempestade que cai toda tarde em Belém, o fotógrafo Luiz Braga anuncia aos convidados do barco: “Hoje vamos em direção à periferia”.

Conhecida por ser uma das cidades mais violentas do país, a expedição provoca ansiedade nos passageiros de primeira viagem daquela tarde, entre colecionadores de arte, amigos, alunos e familiares do fotógrafo.

Como quem dissesse “vire aqui e acolá”, Braga explica ao barqueiro os detalhes do trajeto repetido diversas vezes no último ano como parte do projeto premiado pelo edital Rumos Itaú Cultural. O resultado, exposto agora em São Paulo, são registros visuais das franjas urbanas exprimidas pela expansão imobiliária de Belém.

Saídas fotográficas pelos rios do Pará se tornaram rotina para Braga ao longo da carreira. Nada de estúdios e flashes, seu local de trabalho são os inúmeros leitos fluviais do norte do país, flutuando em pequenas embarcações.

Afastando-se das margens, a cidade de Belém começa a desaparecer na imensidão fluvial. Do rio, mal se enxerga a cidade. Primeiro se vão as torres modernas, depois as construções precárias da periferia. O barco ultrapassa tudo isso até chegar à periferia da periferia de Belém: um ambiente de selva amazônico do outro lado do enorme corpo d’água do rio Guamá.

É o lugar da agricultura familiar do cacau da ilha do Combu e das casas sobre palafitas que agora dão lugar a construções padronizadas de alvenaria, argamassa e concreto. Ao longo de mais de 40 anos de carreira, o fotógrafo testemunhou uma transmutação desse ambiente construído da periferia da cidade e de seus arredores.

“Para entender o conhecimento que se perdia na periferia de Belém como resultado da expansão imobiliária, fui a outro território, mais afastado, do outro lado do rio, de onde provinha toda a experiência construtiva”, explica.

Hoje, tanto as construções da periferia urbana quanto as habitações ribeirinhas em lugares como o Combu se transformam com a incorporação de novas técnicas construtivas. 

“Quando comecei a fotografar nessas regiões, há algumas décadas, não existia casas individuais com alvenaria e vidro; agora todos querem como forma de status. É um mecanismo perverso de invisibilizar a cultura cabocla”, afirma.

Para ele, nesse processo se perde a adequação de técnicas tradicionais ao clima extremo e o modo de produção local, vigorando imitações fora de contexto do imaginário que foi difundido pela urbanização das metrópoles brasileiras. “Há também uma perda cromática do meu trabalho. As casas com cores locais, se tornaram beges.”

Mesmo em meio à implacável onda de modernização, as imagens de Braga mostram antigos conhecimentos e modos de vida que teimam em resistir. Tal contraste entre tradição e progresso, entre materiais naturais e industriais vindos de longe despontou como um de seus temas fotográficos mais recorrentes.

Com fotografias em coleções pelo mundo como no Masp e no Pérez Art Museum em Miami, Braga virou uma espécie de orgulho paraense. Ao longo de mais de 40 anos, o fotógrafo nunca morou fora de Belém. A relação dele com a fotografia começou nos trajetos diários entre sua casa e a faculdade de arquitetura da UFPA, onde se formou.

O gênero da “fotografia de rua” virou, em seus trabalhos, uma espécie de “fotografia de rio”. As excursões de barcos substituíram as derivas pela cidade e hoje se estiram por regiões isoladas do estado, em rios como o Tapajós e o Xingu. “No Marajó querem que ele seja prefeito”, diz Luís Guedes, arquiteto e um dos locais que integra a breve expedição da tarde.

Anualmente, Braga organiza imersões abertas em regiões como o rio Tapajós e a ilha do Marajó. Essas espécies de workshops representam uma nova fase em suas empreitadas. “Minha missão agora não é apenas mostrar tudo isso para o mundo, mas levar lá as pessoas para ver.”

O barco avança e chega a uma vendinha de chocolate, envolvida pela floresta. Braga fica satisfeito que seus convidados se animam em comprar barras com 70% de cacau, as mesmas usadas hoje em restaurantes premiados como o Remanso do Bosque, na capital paraense. A vendedora vai para fora da casa de madeira e aponta a máquina de cartão de crédito para os céus. “Aqui é único lugar com um pouco de sinal”, explica.

A luz já caía quando Braga sugere atracar junto de um campinho de futebol improvisado em uma clareira na margem. Enquanto o fotógrafo registra a pelada, a dona da casa ao lado relata seu orgulho de ter uma das primeiras casas de alvenaria da região.

De volta ao rio, Braga pede para o barqueiro manobrar, como um fotógrafo que dá dois passos para trás e dois para frente procurando o melhor enquadramento, registrando um outro barco carregado de palmito indo em direção ao mercado do Ver-o-Peso que surge na contraluz do final de tarde rosado. 

Os transportadores posam orgulhosos para as lentes dele. “Em todas as minhas imagens as pessoas sabem que estão sendo fotografadas”, explica.

Raios cruzavam os céus da periferia de Belém e as primeiras gotas anunciavam a chuva do fim de tarde. A última parada é em um posto de gasolina flutuante: “É melhor voltarmos”, diz o navegador-fotógrafo. “Vai cair um temporal.”

Luiz Braga: Interiores, Retratos [E Paisagens]

  • Quando Ter. a sex., das 10h às 19h. Sáb., das 10h às 17h.
  • Onde Galeria Leme/AD - av. Valdemar Ferreira, 130, São Paulo
  • Preço Grátis
  • Classificação Livre
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