Mostra contrapõe tons cinzentos de Thomaz Farkas às cores de João Farkas

MIS exibe os contrastes nas obras de pai e filho e recria exposição pioneira da fotografia no Brasil

Ana Estela de Sousa Pinto
São Paulo

Setenta anos depois, voltam a público as imagens da primeira exposição fotográfica a ocupar um museu de arte brasileiro. São 55 das 60 obras expostas em 1949 por um dos principais fotógrafos modernistas do país, Thomaz Farkas. 

Com base no registro detalhado da exposição feito pelo próprio autor, as imagens foram identificadas e recuperadas. A pesquisa reuniu os curadores Sarah Meister, do departamento de fotografia do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, Helouise Costa, do MAC-USP, e Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS, além de pesquisadores do instituto, que tem a guarda do acervo de Farkas e cuida de sua preservação.

Bailarinas, tijolos, fios, fachadas, fachos de luz são os objetos recortados pelos ângulos inusitados do húngaro radicado no Brasil. Em preto e branco, as imagens serão guardadas de perto pelas multicoloridas máscaras retratadas contra um fundo azul brilhante pelo paulista João Farkas, filho de Thomaz.

As exposições integram o Foto MIS —o antigo Maio Fotografia—, no qual obras de fotógrafos ocupam todos os espaços do Museu da Imagem e do Som.

Pai e filho acabaram reunidos no mesmo evento pelo Instituto Olga Kos, que apoiou a reconstituição da exposição  pioneira de Thomaz no então recém-fundado Museu de Arte Moderna de São Paulo.

O instituto também patrocinou a mostra de João, editou dois livros com as obras expostas e usou a arte de ambos em um projeto de oficinas para alunos com deficiência intelectual.

De início, a ideia de ter suas obras e as de seu pai dispostas ao mesmo tempo no mesmo espaço foi recebida com reservas por João: “Sempre evito associar meu trabalho ao do Thomaz, porque cada um tem um percurso”. 

Mas as próprias fotografias se encarregam de estabelecer o lugar de cada um dos dois.

Cerebral e abstrato, o trabalho de Thomaz é experimental e construído em tons de cinza. Ao lado de Geraldo de Barros, José Medeiros e Marcel Gaugherot, ele integrava um grupo que extrapolou “uma certa caretice do padrão estético da época, em que a foto tentava imitar a pintura”, conta João.

Já seus retratos feitos na cidade baiana de Maragojipe são populares (ou “não eruditos”, como prefere), diretos, vibrantes e só por acaso viraram ensaio: “As imagens se impuseram pela própria força”.

No MIS, o contraste entre pai e filho será acentuado pela forma como a luz será usada. Na exposição de Thomaz, as fotos serão impressas; na de João, projetadas.

Apesar das sete décadas de distância, os dois momentos têm algo em comum, já que assistem a uma onda de popularização da fotografia.

Nos anos 1940 e 1950, a inovação tecnológica capitaneada pela Kodak pôs na mão da classe média um equipamento portátil, de fácil operação, impulsionado pelo mercado. “Surgiram muitos amadores, que se reuniam em fotoclubes, fermento para a produção e a exibição de imagens”, diz João.

Nos anos 2010, o instrumento da disseminação é o celular. “Hoje somos bilhões de fotógrafos. A fotografia se estabeleceu como linguagem universal. Trouxe vulgarização?  Acho que é o contrário.”

A multiplicação das fotos pelos smartphones é oportunidade para atrair o público ao Foto MIS e às obras dos Farkas, cujo fio condutor é a própria fotografia e seu processo de realização, diz o diretor cultural do 
museu, Cleber Papa.

“A cultura de selfies traz o risco da perda de memória, ou da transformação dos chamados ‘lugares de memória’. Mas o processo pode ser revitalizado se nos aproximarmos das pessoas que têm celular e mostrarmos a elas que, além do ato de fotografar em si, existe um criador que tem uma relação peculiar com um objeto e traduz isso por meio da fotografia.”

Para Papa, enquanto a retrospectiva de Thomaz Farkas abre uma janela para a trajetória de décadas da expressão fotográfica, as máscaras de Maragojipe têm tudo a ver com o debate de hoje.

“Elas desconstroem a perspectiva de uma identidade visual baseada em gênero, origem, raça ou credo. A manifestação cultural ignora tudo isso e,  por meio das máscaras, une a todos”.

Foto MIS

  • Quando Ter. a sáb., das 10h às 21h; dom., das 10h às 20h. Até 13/10
  • Onde Museu da Imagem e do Som, av. Europa, 158
  • Preço R$ 10 (grátis às terças)

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