Mostra exibe as ninfas sensuais e o flerte místico de Alfons Mucha, na Fiesp

Expoente do art nouveau, tcheco é famoso pelas gravuras de mulheres emolduradas por flores e arabescos

Lucas Neves
Praga

Se a menção seca a Alfons Mucha (pronuncia-se “murra”) talvez não baste para provocar o estalo mental no leitor, as imagens que acompanham este texto têm tudo para servir de gatilho e fazê-lo “ligar o nome à pessoa”.

O artista tcheco se aventurou na pintura, na escultura, na fotografia e na cenografia. Mas foi com suas gravuras habitadas por mulheres que parecem ninfas envoltas em motivos florais e arabescos tão ondulantes quanto sensuais que se tornou o patrono do estilo art nouveau, no fim do século 19.

Os meandros do “toque Mucha”, decantado em pôsteres para as peças da atriz Sarah Bernhardt (1844-1923) e em rótulos e embalagens para espumantes, sabonetes, biscoitos e cigarros, estão em destaque, a partir desta quarta (18), em exposição no Centro Cultural Fiesp.

A mostra reúne mais de cem obras emprestadas pela Fundação Mucha, sediada em Praga, e constitui a amostra mais expressiva do trabalho do artista a passar pelo Brasil.

A curadora Tomoko Sato destaca a dupla habilidade do artista, capaz de conjugar experimentações formais ao longo de toda a carreira (“e isso antes das vanguardas modernas”, diz) com a compreensão do que era preciso para atender ao gosto popular —e, assim, turbinar seu cacife.

“Ele tinha consciência da importância da repetição, dessas variações sutis sobre um mesmo tema que fazem  o público associar uma obra a um artista”, diz Sato.

“Além disso, sua produção é linear. As pessoas gostam daquilo que entendem. Foi assim que Mucha se tornou uma das primeiras celebridades do meio artístico.”

Para a curadora, o gravurista manejou conceitos como sedução, surpresa e choque com a argúcia de um “pai da propaganda moderna”.

Recrutado às pressas pelo entourage de Bernhardt em 1894, ele atingiria o ápice de sua notoriedade ao fim do contrato de seis anos com a atriz, que cobria a criação de cenários, figurinos e cartazes para as montagens dela.

Quando assinou a cenografia do pavilhão bósnio na Exposição Universal de Paris de 1900, suas musas longilíneas, de cabeleira longa emolduradas por mosaicos já eram copiadas mundo afora.

Na França, contribuíram para a projeção de Mucha o aperfeiçoamento das técnicas de impressão e uma eslavofilia que respondia ao poderio do Império Alemão.

A influência do “estilo Mucha” foi se diluindo ao longo das décadas, sobretudo por causa do fascínio gerado pelas vanguardas modernistas do começo do século 20.

“O art nouveau e sua vocação decorativa eram considerados anacrônicos, frívolos”, explica Sato. Até que uma retrospectiva do tcheco em 1963, em Londres, coincidiu com um “espírito do tempo” sombrio.

O noticiário girava em torno de Guerra Fria, conflito no Vietnã, assassinato do presidente John F. Kennedy... E as cores e curvas de Mucha prometiam um bálsamo, alguma sorte de unguento para as incertezas do mundo.

Sua iconografia foi então reabilitada pelo movimento psicodélico —sobretudo o braço britânico deste—, inspirando pôsteres para Pink Floyd e Rolling Stones.

No fim do século 20, a exuberância das gravuras da fase mais conhecida do tcheco ressurge como inspiração para quadrinhos da Marvel, mangás japoneses e manhwas sul-coreanos. Alguns desses ecos na seara das HQs integram a exposição agora em cartaz no Brasil.

O público de São Paulo também verá que, apesar do reconhecimento, Mucha se ressentia da ligeireza associada à sua obra.

Como diz a curadora Sato, é irônico que alguém tão interessado pela representação das ideias e pelo alcance filosófico seja lembrado pelo estilo “cosmético”, que para alguns se resume ao frufru.

Em escritos, ele menciona a busca por “algo mais elevado”, o intuito de “lançar luz sobre os lugares mais remotos”. Tal rota vai levá-lo à maçonaria e a experiências com correntes espiritualistas, como o misticismo e o ocultismo, muito por influência do amigo sueco August Strindberg, dramaturgo.   

Um dos primeiros frutos dessa incursão íntima é o livro ilustrado “Pater” (1899), que desdobra os versos do pai-nosso em simbologias cristã, judaica e islâmica para traçar um caminho desde a escuridão da ignorância até os prometidos clarões da verdade e do divino.

Porém, o projeto que vai de fato mobilizar Mucha em sua última fase, a partir da volta à terra natal, em 1910, é o da “Epopeia Eslava”, 20 murais em que cristaliza episódios-chave na história dos tchecos e de outros povos eslavos.

A independência da Tchecoslováquia, conquistada em 1918, era uma fixação do artista, que desenhou as primeiras notas e selos do país livre.

Mesmo nas figuras idealizadas, quase impalpáveis de seus cartazes da belle époque, o tcheco fizera questão de inserir acenos ao imaginário eslavo, fosse em trajes típicos do folclore, fosse em uma técnica de desenho emprestada à arte bizantina —o Império Romano do Oriente era tido como o “berço espiritual” da cultura eslava.

Quando a libertação do jugo do Império Austro-Húngaro veio, houve quem dissesse que a magnum opus de Mucha perdera o sentido.

A entrada das tropas nazistas em Praga em 1939 e a anexação parcial da Tchecoslováquia durante a Segunda Guerra mostraram quem tinha razão em revolver o passado para tentar evitar o eterno retorno de equívocos.

Como a “Epopeia” é frágil para sair da República Tcheca, será apresentada ao público paulistano por meio de uma instalação audiovisual.

Alphonse Mucha: O Legado da Art Nouveau

  • Quando Ter. a sáb., das 10h às 22h. Dom., das 10h às 20h. Até 15/12
  • Onde Centro Cultural Fiesp, av. Paulista, 1.313, Cerqueira César
  • Preço Grátis
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