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Livros

Obra sobre prisão feminina faz um retrato poético da esperança

'Mars Club' vem depois do romance que projetou o nome da autora como um dos mais importantes dessa geração, 'Os Lança-Chamas'

Teté Ribeiro

Mars Club

  • Preço R$ 64,90 (344 págs.)
  • Autor Rachel Kushner. Trad.: Rogerio W. Galindo
  • Editora Todavia

O leitor conhece Romy Hall, a protagonista da história, em um ônibus que a leva para Stanville, na Califórnia. Stanville é uma prisão de verdade, a maior casa de detenção feminina dos Estados Unidos e a única no estado com um corredor da morte.

Essa parte da trama se passa no começo da primeira década deste século. Romy tem 29 anos, é mãe de um garoto chamado Jackson e vai começar a cumprir sua pena de duas prisões perpétuas e mais seis anos por ter matado o seu stalker. “Não tenho planos de viver muito. Nem pouco, necessariamente. Não tenho plano nenhum”, ela diz.

Escrito pela americana Rachel Kushner, “Mars Club” foi lançado cinco anos depois do romance que projetou o nome da autora como um dos mais importantes dessa geração, “Os Lança-Chamas” (ed. Intrínseca). “Mars Club” sai no Brasil pela Todavia.

A escritora Rachel Kushner, posa para foto em frente do seu automóvel, em Los Angeles (EUA) - Ann Summa/The New York Times

Kushner mergulhou no sistema prisional americano para escrever esse livro. O resultado é um retrato bem feito e profundo do que pode significar nascer mulher e muito pobre nos Estados Unidos. 

Claro que pode parecer um privilégio perto de nascer pobre, mulher e no Brasil. E quase nada em Stanville se parece com o horror da Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, de onde o médico e escritor Drauzio Varella tirou as histórias que conta em “Prisioneiras” (Companhia das Letras), de 2017.

Mas aqui é a destreza e o talento da escritora que fazem a diferença. Romy já nasceu condenada a uma vida difícil. Sua mãe, viciada em opioides e casamentos, a tratava com “silêncio, irritação, desaprovação”.

Ela foi estuprada aos 11 anos e virou viciada em drogas e prostituta. O livro alterna passagens do presente e do passado, desde a sua infância nas ruas de San Francisco.

O Mars Club do título é uma casa de strip-tease onde Romy trabalhava, em que “se você tivesse tomado banho você tinha uma vantagem competitiva. Se as suas tatuagens não tivessem erros de grafia você era realmente desejável. Se não tivesse grávida de cinco ou seis meses você era a it girl da noite”.

Os coadjuvantes trazem humor à história, muito como acontecia em “Orange”. Conhecemos Betty LaFrance, uma ex-modelo de pernas que está no corredor da morte, Conan, uma mulher trans que faz dildos nas aulas de trabalhos com madeira e Laura Lipp, que matou seu bebê para se vingar do marido. “Você sabe quem é Medeia?”, pergunta. 

O melhor personagem masculino —são poucos— é Gordon Hauser, professor de literatura na prisão. Ele tem duas obsessões —o escritor Henry David Thoreau e o terrorista Ted Kaczynski, o Unabomber. Trechos dos diários desse último aparecem salpicados pelo livro, meio sem por que mas que despertam curiosidade.

A narrativa poderia ter um pouco mais de ritmo, mas “Mars Club” é tão bem escrito que esse pequeno pecado é perdoável. 

A trama, ultra bem construída, dificulta imaginar um final original e convincente para a história. Não tem muita saída para quem está em prisão perpétua. Mas Kushner tem alma de poeta, e faz do final de seu livro quase um poema triste sobre esperança, ainda que quase ilusória.

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