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Fuga e viagem marcam a obra de labirintos da polonesa Olga Tokarczuk

A autora de 'Os Vagantes' se tornou a quinta pessoa polonesa a receber o Nobel de Literatura

Aleksandra Pluta

A escritora polonesa Olga Tokarczuk foi premiada nesta quinta (10) com o Nobel de Literatura. Romancista, ensaísta, poeta e roteirista, Tokarczuk foi recebeu a honraria, segundo a academia, "por uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida".

Há muito tempo Tokarczuk estava listada entre os candidatos ao prêmio, ao lado de escritoras e escritores como Maryse Condé, Margaret Atwood e Haruki Murakami. Seus livros já receberam as principais distinções de seu país e a sua forte posição internacional foi confirmada em 2018, quando Tokarczuk foi laureada com o prêmio Man Booker Internacional pelo livro “Os Vagantes” (no original, "Bieguni"; tradução de Tomasz Barcinski publicada no Brasil pela Tinta Negra em 2014). 

Neste ano Tokarczuk novamente foi finalista do Man Booker, desta vez por seu livro “Sobre os Ossos dos Mortos”, que vai ser lançado no Brasil no próximo mês pela editora Todavia, com tradução de Olga Baginska-Shinzato.

Olga Tokarczuk nasceu em 1962 em Sulechów, na Polônia. Estudou psicologia na Universidade de Varsóvia, e vive em Breslávia. Durante seus estudos, trabalhou como voluntária cuidando de pessoas com doenças mentais. Após a graduação, trabalhou como psicoterapeuta em uma clínica de saúde mental em Wałbrzych. Durante esse período, publicou um volume de poemas, e começou a desenvolver trabalhos em prosa.

Olga Tokarczuk em retrato feito nesta quinta (10), em Bielefeld, na Alemanha - Thilo Schmuelgen/Reuters

O seu livro de estreia, “A Viagem das Pessoas do Livro”, sem tradução no Brasil, foi lançado em 1993. Nele, Tokarczuk já manifesta o seu fascínio pelo mistério. O romance é uma espécie de parábola moderna que conta a história de uma busca pelo misterioso Livro que pode influenciar o futuro da humanidade. A partir desse mistério começa a se desenvolver a história que pode ser interpretada como um pastiche de narrativas de aventura, tratando a viagem como uma grande metáfora da vida.

Boa parte dos livros de Tokarczuk (especialmente “Os Vagantes”, de 2007) narra viagens. Em muitos deles encontramos motivos de movimento, como o atravessar de fronteiras, o desbravar novos territórios, o caminhar na direção do desconhecido, o entrar nos mundos próximos e naqueles distantes. Mas o movimento pode significar também uma fuga. E essa palavra é especialmente cara à escritora polonesa, que define sua literatura exatamente como “uma fuga da realidade”.

Fuga, por sua vez, pode coincidir com o termo impermanência, que define a condição do ser humano como parte integrante de um universo em constante movimento. Associada à viagem, frequentemente usada na narrativa de Tokarczuk, aparece também a imagem do labirinto, com uma função peculiar: aquela de introduzir o homem na esfera do sagrado.

A história narrada no seu segundo romance “E.E.”, de 1995, se passa numa cidade polonesa, Breslávia, no início do século 20. Sua protagonista é Erna Eltzner —daí o titulo do livro—, uma menina de uma família burguesa que descobre de ter talentos paranormais, como um médium espiritual.

Neste romance psicológico também podemos observar o fascínio da autora por tudo aquilo que foge à razão humana. “Tokarczuk é uma escritora que representa realismo psicológico e ceticismo cognitivo. Ela escreve da maneira mais atraente possível sobre coisas sérias e num tom sério. Há uma vivissecção fria dos acontecimentos, da vida e da personalidade dos personagens, uma visão multilateral do fenômeno e das circunstâncias que o acompanham” —escreve Miroslaw Ratajczak, critico literário polonês.

Já os acontecimentos do aclamado romance “Sobre os Ossos dos Mortos”, de 2009, têm lugar no vale de Kłodzko, na parte sudoeste da Polônia. A personagem principal é Janina Duszejko, professora rural de inglês, apaixonada por astrologia e animais. Janina faz denúncias contra a destruição irrefletida da natureza, mas ninguém se importa com a opinião de uma mulher que entende o que está escrito nas estrelas.

Tokarczuk mostra neste romance uma comunidade tradicionalista e patriarcal, cuja elite tem o monopólio das opiniões legítimas e não tem respeito nenhum por “uma velha bruxa”. O livro, um thriller moral que mantém o suspense alto até a última página e escrito no estilo de romance policial, mostra uma intriga criminosa para levantar questões filosóficas e morais.

Tokarczuk usa então o truque de Umberto Eco, que consiste em combinar gêneros considerados baixos com grandes ambições intelectuais. “Sobre os Ossos dos Mortos” garante entretenimento (como o faz “O Nome da Rosa”, de Eco) e ao mesmo tempo transmite uma mensagem mais profunda, mostrando os mecanismos do poder, descobrindo as fontes do mal, representando problemas sociais e políticos.

A escritora é conhecida pelas suas opiniões sobre os direitos dos animais. Frequentemente se envolve em várias campanhas sociais, sejam elas pró-ecológicas ou pró-democráticas. É valorizada tanto pelos críticos quanto pelo público.

Olga Tokarczuk é a quinta escritora polonesa a receber o Prêmio Nobel, juntando-se a Henryk Sienkiewicz, que recebeu a distinção em 1905, Władysław Reymont, ganhador em 1924, Czesław Miłosz (1980) e a poeta Wisława Szymborska (1996), sucesso de vendas no Brasil nos últimos tempos.

Aleksandra Pluta é escritora, pesquisadora em literatura na Universidade de Brasília. Polonesa, é autora de “Ziembinski. Aquele Bárbaro Sotaque Polonês” (Perspectiva).

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