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Wislawa Szymborska, poeta polonesa, vende 25 mil e vira improvável sucesso no país

Ganhadora do Nobel ganha antologias, edição de brincadeiras poéticas e novas traduções a caminho

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A poeta polonesa Wislawa Szymborska
A poeta polonesa Wislawa Szymborska - Reprodução
 
São Paulo

Além de poeta, era dada a pequenas travessuras. Às vezes andava com um  rato de mentira, mas muito realista, para deixar no banheiro das pessoas que visitava. Das viagens, voltava cheia de badulaques e objetos cafonas, até cocozinhos de plástico que, sorrateira, deixava na casa dos amigos.

A polonesa Wisława Szymborska (pronuncia-se “vissuáva chembórska”), morta há sete anos, agora apronta das suas no Brasil, onde faz um sucesso improvável —especialmente se considerarmos que, para o brasileiro, uma frase em polonês deve parecer algo que alguém escreveu batendo os cotovelos no teclado.

Szymborska recebeu sua primeira antologia no país, “Poemas”, em 2011, seis anos depois de ganhar o Nobel de Literatura. A recepção foi boa, e a Companhia das Letras lançou outra, “Um Amor Feliz”, em 2016. Ambas foram organizadas e traduzidas por Regina Przybycien, que já trabalha em uma terceira para a mesma editora.

Os dois livros juntos venderam 25 mil exemplares, em um país onde poesia costuma ter tiragens modestas de até 3.000 —isso se for em editoras grandes—, que demoram anos 
para acabar. Se acabarem.

Nascida em 1923, a autora viveu os totalitarismos do século 20. Primeiro, com o nazismo, que invadiu a Polônia. Depois, as décadas de ditadura comunista em seu país. Os horrores daquele século, com sua massa de humilhados, mortos e degredados, marcou sua poesia —mas ela não é sombria. Pelo contrário, tem senso de humor, mesmo diante da consciência da dimensão trágica da vida.

O que o leitor brasileiro ainda não conhecia era o fato de que Szymborska se dedicou também a brincadeiras poéticas. Elas estão reunidas na antologia “Riminhas para Crianças Grandes”, organizada e traduzida do polonês por Piotr Kilanowski e Eneida Favre, que chega agora às  livrarias —e traz também as colagens feitas pela polonesa.

“O humor é uma opção por ver o lado luminoso da vida, por mostrar que ela não tem só assuntos trágicos. Em um poema famoso, Szymborska dizia que seus traços distintivos eram o desespero e o encantamento”, diz Kilanowski.

No volume, a autora pratica formas da poesia humorística consagradas, como os limeriques, mas também outras que inventou. Há, por exemplo, as “dasvodkas”, poeminhas de um verso criados a partir de nomes de birita, como “do rum, rumoreja o povo bebum” ou “da pinga de quintal —se perde a vertical”.

No primeiro livro em que apresentou o gênero, Szymborska enfatizava, “com todo vigor”, não ser inimiga das bebidas alcoólicas. “Minha total condenação se refere exclusivamente a bebidas como líquido de arrefecimento de radiador e vinhos de produção caseira”, dizia.

Uma vez, a autora foi tomar sopa e viu que, ao lado do nome do prato no cardápio, alguém escrevera “horrível” com a mão trêmula. Criou as “melhoríadas”, poemas que serviam para alertar os leitores sobre as armadilhas de restaurantes —e depois passaram a falar de outros temas.

“Melhor para o abismo um passeio/ do que desta panqueca o recheio”, escreveu em uma delas. Em outras escrevia versos como “melhor tia stripper sem calcinha/ que servir-se aqui de costelinha” ou “melhor levar uma surra na luta/ que me servir aqui de truta”.

O que ouvia no bonde, no elevador e em toda parte ela transformava em “escutações”, poemas em prosa 
inspirados nessas situações. Em um deles, por exemplo, um velhinho no ônibus reclama que a mulher morreu nova e prometeu que ia esperar por ele do outro lado.

“Agora eu já sou um velho decrépito, careca, todo quebrado. Eu vou chamar ‘Zosia, Zosia’, e ela não vai me reconhecer de jeito nenhum. E aí como é que vai ser com a gente? Vou ter que levar a carteira de identidade no caixão?”

“A obra dela foi se espalhando pelo mundo. Encontrei em Cracóvia a tradutora para o coreano, e, quando eu disse que a tiragem dos livros aqui eram de 2.000, ela me contou que na Coreia eles saem com 20 mil exemplares”, conta Regina Przybycien, a tradutora das primeiras antologias da escritora polonesa.

No ano que vem, a Âyiné lançará também “Correio Literário”, com conselhos dados por leitores que escreviam para uma revista na qual a autora trabalhava, nos anos 1950 —boa parte dos remetentes enviava originais  para avaliação. A mesma editora prepara uma tradução da biografia da poeta.

Enquanto a risada explícita é uma marca das rimas para crianças grandes ou dos conselhos literários, a parte principal da obra de Szymborska traz um humor mais sutil —e o leitor brasileiro verá nele 
algo de drummondiano.

“Tenho uma amiga que a chama de ‘drummondzinha polaca’”, diz Przybycien. “Talvez o que fascine seja a linguagem acessível, muito variada e com senso de humor impressionante, mesmo quando os temas são duros.”

A linguagem acessível não significa facilidade na tradução. O polonês, como as demais línguas eslavas, é um idioma mais sintético do que o português —onde Szymborska usa apenas três palavras, diz a tradutora, a versão nacional usa cinco ou seis. O desafio é não fazer os versos crescerem muito de tamanho.

Outra questão é o uso que a autora faz de expressões idiomáticas. Elas geram familiaridade no leitor polonês, mas precisam de correspondentes em português. Sem falar na dificuldade de reconstruir o ritmo do verso livre da autora.

A política aparece de um jeito particular nos versos da autora, sempre de forma indireta. Em um poema, ela imagina alguém falando com Hitler bebê: “E quem é essa gracinha de tiptop?/ É o Adolfinho, filho do casal Hitler!/ Será que vai se tornar um doutor em direito?/ Ou um tenor da ópera de Viena?”. A ironia é o leitor saber o que a criança vai se tornar.

Szymborska não concordava com o título de existencialista que alguns críticos atribuíam a sua obra poética.

“Não cultivo nenhuma grande filosofia, só uma modesta poesia. Os existencialistas são tremendamente sérios; não gostam de brincar”, dizia. “Gostaria que o poema contivesse o sublime e o trivial, as coisas tristes e cômicas — lado a lado, misturadas.”

Riminhas para Crianças Grandes

  • Preço R$ 89,90 (172 págs.)
  • Autor Wislawa Szymborska
  • Editora Âyiné
  • Tradução Piotr Kilanowski e Eneida Favre
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