Ministro demitiu 19 na Funarte após briga com Roberto Alvim

Diretor de núcleo cênico do órgão tentou contratar sua mulher por R$ 3,5 milhões e também é cobrado pela Procuradoria por cancelamento de peça política

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O diretor de teatro Roberto Alvim, que assumiu o Centro de Artes Cênicas da Funarte, em um café em São Paulo - Bruno Santos/Folhapress
Gustavo Fioratti Victoria Azevedo
São Paulo

​Parte dos 19 funcionários da Funarte exonerados nesta sexta (4) pelo ministro Osmar Terra, da Cidadania,  tiveram participação em um processo de contratação da mulher de Alvim, a atriz Juliana Galdino, que receberia, por meio de sua produtora Flo Produções e Entretenimento, o valor de R$ 3,5 milhões para assumir o projeto de revitalização da rede nacional de teatros, com recursos da Funarte.

A contratação de Galdino foi barrada no próprio órgão por ter sido considerado ilegal pela Lei de Nepotismo, que não permite a servidores a contratação de filhos, cônjuges, pais e outros familiares.  

Os servidores exonerados eram do centro de artes cênicas do órgão, que é subordinado à Secretaria Especial de Cultura, da pasta da Cidadania. Alvim é diretor deste núcleo. A informação sobre as exonerações foi publicada no Diário Oficial da União. 

Alvim diz que não foi consultado sobre essa decisão. “Meu departamento inteiro foi exonerado, não sei se os nossos teatros sequer vão poder abrir hoje. Isso provoca a paralisação de todo o meu trabalho”, afirma.

O Ministério da Cidadania, por meio de sua assessoria de imprensa, disse que não comentaria as exonerações nem informaria quais razões as motivaram.

Sobre as exonerações, a Funarte, via assessoria de imprensa, diz que “o Centro de Artes Cênicas da instituição pretende estudar cada caso e avaliar se solicitará anulação para alguns deles. Quanto aos cargos que ficarem vagos, pretende recrutar novos colaboradores técnicos, tanto na própria Funarte quanto fora da instituição”.

Nos bastidores, está sendo dito que Roberto Alvim manteve proximidade com o presidente Jair Bolsonaro desde que foi convidado a assumir o cargo na Funarte. O diretor e dramaturgo marcou presença em uma reunião que houve entre Osmar Terra e o presidente na terça (1º), o que foi confirmado pela assessoria de imprensa da pasta.

A reportagem apurou que houve uma desavença entre Alvim e Terra e que as exonerações seriam uma retaliação à forma como o primeiro tem se comportado, destoando do posicionamento esperado de um funcionário de terceiro escalão da pasta. 

Os diretores do núcleo de artes cênicas da Funarte sempre moraram no Rio de Janeiro, onde fica a sede da fundação. Desde que assumiu, no entanto, Alvim mora em Brasília, o que tem sido lido como uma tentativa de aproximação com Bolsonaro, em busca de cargos mais altos no governo.

No último dia 23, Alvim disse nas redes que Fernanda Montenegro era sórdida. Ele fez isso depois de a atriz posar para uma foto de capa da revista Quatro Cinco Um vestida como uma bruxa presa a uma fogueira onde seriam queimados livros.

Dentro do projeto de revitalização, Alvim pretende ainda, como revelado pela revista Veja, entregar o teatro Glauce Rocha, no Rio, à Companhia Jeová Nissi, de orientação evangélica.

Após o diretor vetar a ocupação de um espaço da Funarte pela peça “Res Pública 2023”, que falava sobre ditadura, a Funarte foi cobrada pelo Ministério Público Federal. O órgão, em ofício, pediu informações para avaliar se houve censura.

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