Mostra resgata obra prolífica de Ivald Granato, artista com alma de roqueiro

Primeira retrospectiva do campista depois de sua morte, em 2016, revê sua trajetória na pintura, do pop art ao abstrato

Clara Balbi
São Paulo

Uma estrela de rock. É assim que o curador Daniel Rangel gosta de definir o artista Ivald Granato, morto há três anos e que agora ganha sua primeira retrospectiva, no Sesc Belenzinho.

A descrição faz sentido. Nascido no interior do Rio de Janeiro, em Campos dos Goytacazes, Granato era um performer nato, a alma da festa, sempre disposto a improvisar um show.

Ainda em 1970, transformou o próprio casamento em happening. Entre aquela década e a seguinte, já em São Paulo, seu ateliê se tornou um ponto de encontro de artistas, intelectuais e músicos. Até de uma banda ele participou, o grupo performático do também artista José Roberto Aguilar.

Rangel credita a essa personalidade sem filtros o fato de que o artista acabou menos conhecido do que outros colegas de geração —caso, por exemplo, de Rubens Gerchman, com quem compartilha a predileção por cores fortes, o senso de humor e a influência da pop art.

“Ele era daquela geração dos anos 1970 e 1980 que vendia quadro a metro”, diz o curador, que o descreve como “o melhor amigo, mas o pior funcionário”.

Se naqueles anos o campista vivia o seu auge, participando de sucessivas bienais de São Paulo, Rangel afirma que ele não fez a transição para o mercado profissional de arte que se formava no Brasil nos anos 1990.

É esse multiartista irreverente e prolífico que o curador quis resgatar com “My Name Is Ivald Granato Eu Sou”. Das mais de mil obras do artista guardadas no acervo da família, ele escolheu cerca de 500.

A maioria é formada por pinturas, e são elas que guiam a cronologia da exposição.

Começando com trabalhos dos anos 1960, quando o artista se mudou para o Rio, elas navegam do figurativismo que marcou suas telas na época até seus quadros mais famosos, dos anos 1980 em diante, em que os personagens verdes, amarelos e azuis são substituídos por traços abstratos e impregnados de cor.

Apesar de o suporte dominar a exposição, Rangel afirma que faltou espaço para pendurar todas as telas selecionadas.

A solução foi desenvolver uma experiência em realidade virtual para exibir trabalhos que ficaram de fora. O visitante pode passear por três galerias cobertas de quadros.

Além das pinturas, ainda há esculturas, objetos, desenhos e registros de performance. Os últimos, expostos na última mostra do artista em vida, enchem uma parede inteira.

Nas fotografias e vídeos, Granato ora aparece com o cabelo tingido de tinta amarela, imitando o oxigenado Andy Warhol, ora de bengala e chapéu coco, como Ciccillo Matarazzo —ele interpretou o personagem no happening “Mitos Vadios”, de 1978, que entrou para a história ao se opor à 
edição inaugural da Bienal e provocar o governo militar.

No centro da exposição fica uma reprodução do ateliê do artista. Os pincéis e tintas, metodicamente organizados, parecem contradizer o caos vivaz das telas e performances ali ao lado.

Alguns detalhes espalhados pelo cenário, no entanto, ajudam a desvendar essa personalidade ao mesmo tempo obsessiva e inquieta.

As placas que circundavam os interruptores de sua casa estão cobertas de tinta e recortes. Um catálogo do pintor Francis Bacon virou uma espécie de livro de artista, com rabiscos, colagens e interferências de Granato aterrando as figuras torturadas do britânico.

Esse traço também é refletido nas suas “Heads”, contornos de um rosto com nariz adunco inspirado no de seu pai, que se repete à exaustão. Em uma tela, substitui até a Mona Lisa.

Não era essa a amostra da série que ele planejava expor no Louvre, no entanto. A “Head” de seis metros de altura que ele tinha idealizado para o museu francês nunca chegou a ser produzida. Só agora ela sai do papel, pendurada no átrio do Sesc Belenzinho.

Granato na Folha

Quatro painéis de grandes dimensões de Granato são exibidos na sala de reuniões da superintendência 
do Grupo Folha,no prédio da alameda Barão de Limeira.

A série data de novembro de 1985, mas só foi doada ao jornal anos depois, segundo a viúva do artista.

Nelas, recortes de notícias do jornal se sobrepõem a fundos coloridos e formam silhuetas humanas.

Imagens dos quatro painéis do artista Ivald Granato que estão na sala de reuniões da superintendência do Grupo Folha da Folha de S.Paulo
Imagens dos quatro painéis do artista Ivald Granato que estão na sala de reuniões da superintendência do Grupo Folha da Folha de S.Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress
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My Name Is Ivald Granato Eu Sou

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