Tema de mostra, Farocki questionou significado das imagens na era pré-fake news

Expostas no IMS Paulista, obras em vídeo do artista se debruçam ainda sobre relações de trabalho

Leonardo Sanchez
São Paulo

Na era do deepfake —técnica que, por meio de inteligência artificial, manipula conteúdo audiovisual com o intuito de propagar uma mentira—, é difícil distinguir, entre milhares de imagens que bombardeiam o cotidiano, o que é falso e o que não é.

A situação remete a uma das questões centrais do trabalho de Harun Farocki, cineasta e artista visual radicado na Alemanha que cravou por meio de seu trabalho que nenhuma imagem é inocente, nas palavras de Heloisa Espada, curadora de “Harun Farocki: Quem É Responsável?”.

Dividida em duas partes —a primeira esteve em cartaz no IMS Rio entre março e junho—, a mostra é uma compilação de instalações em vídeo que questionam colonialismo, controle, tecnologia, belicismo e as condições de trabalho ao longo das décadas.

Agora, a sede paulista do instituto recebe uma continuação do projeto, formado por sete obras não exibidas no Rio e que abre nesta terça (17).

“Nada é inocente, tudo tem uma intenção, principalmente uma intenção política”, diz Espada. Ela cita uma gravação que esteve no Rio na qual o próprio Farocki discute, com o filósofo Vilém Flusser, a relação entre texto, fotos e design em um tablóide sensacionalista alemão. “O mesmo poderia ser feito com um meme hoje em dia”, completa.

Morto em 2014, Farocki não viveu para ver a ascensão das fake news, termo abraçado pelo léxico de dezenas de idiomas na campanha que elegeu Trump nos Estados Unidos.

Em terras brasileiras, ele vem sendo repetido à exaustão por Bolsonaro e seus seguidores para classificar reportagens que impactam sua imagem de forma negativa.

“Com certeza Harun ficaria horrorizado com Trump e Bolsonaro”, diz a viúva do cineasta, Antje Ehmann, que também é responsável por seu espólio e é cocuradora da mostra. “A ideia de não acreditar nas notícias é nova e é terrível, é perigosa”, afirma.

Os dois estiveram juntos por cerca de 20 anos. Se conheceram graças a um festival de cinema no qual Ehmann trabalhava e, a partir da década de 1990, também compartilharam a vida profissional.

Eles conceberam diversas obras em parceria, incluindo “Plano-sequência sobre Trabalho”, exposta no IMS Paulista. A instalação reúne filmagens curtas de trabalhadores, formais e informais, em diversos países e ofícios.

As gravações foram feitas por meio de oficinas ministradas pelo casal. Cerca de três anos após a morte de Farocki, Ehmann decidiu dar continuidade ao projeto e hoje compila conteúdo em um site.

Retrato de Harun Farocki em 2007
Retrato de Harun Farocki em 2007 - Hertha Hurnaus/Divulgação

“Precisamos ver o trabalho de forma crítica, repensando sua função ao longo do século 20 e nos dias atuais”, afirma. “Precisamos analisar as transformações que ele causa no Brasil e em outros países.”

Este é o foco desta segunda parte de “Quem É Responsável?”, que no Rio priorizou questionamentos sobre controle e tecnologia. A escolha desse eixo temático ocorreu após a intervenção militar na cidade. Em São Paulo, Espada conta, tomaram maior liberdade na seleção das obras.

“O trabalho é uma temática que sempre esteve no cerne da produção do Farocki”, diz. “E quisemos trazer isso ao Brasil, nesta que é a maior de suas mostras no país, se somarmos Rio e São Paulo, e que está tão conectada às suas opiniões em relação ao cinema.”

Tanto a curadora quanto Ehmann gostam de ressaltar que, antes de artista, Farocki era cineasta, e era assim que gostava de se apresentar às pessoas. “Ele não estava interessado em ser artista”, diz sua viúva.

Com cinematografia pautada pelo experimentalismo e o ativismo, Farocki fez a transição das telas para os museus e galerias nos anos 1990, depois de receber um convite para montar uma instalação em vídeo na França.

“Essa mudança aconteceu porque ele percebeu que, nesses espaços, seu tipo de cinema poderia alcançar um número maior de pessoas”, conta Ehmann. “E seu objetivo enquanto realizador sempre foi dialogar com quem quer que fosse.”

Harun Farocki: Quem É Responsável?

  • Quando Ter., qua. e sex. a dom., das 10h às 20h. Qui., das 10h às 22h. Até 5/1
  • Onde IMS Paulista, av. Paulista, 2.424
  • Preço Grátis
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.