Pela primeira vez no país, King Crimson traz seu rock inclassificável ao Brasil

Grupo se manteve fiel ao gênero progressivo e não abriu concessões em 50 anos de carreira

Thales de Menezes
São Paulo

Show de três horas de duração, oito músicos no palco, sendo que três deles estão tocando baterias. No repertório, sempre surpresas, pinçadas em 13 álbuns de estúdio lançados em 50 anos de carreira. Rock inclassificável, que nasceu no progressivo e ali permaneceu, mas com novas maneiras de fazer música nesse gênero intrincado.

Isso é o King Crimson, a banda do guitarrista inglês Robert Fripp formada em janeiro de 1969. E, incrível, esse grupo de rock virtuoso chega ao Brasil pela primeira vez só agora, tocando nesta sexta (4) em São Paulo e, no domingo (6), no Rock in Rio.

“Não sei por que demorou tanto para um show do King Crimson no Brasil”, diz o baixista Tony Levin, 73, que desde 1981 faz parte da banda. “Você deve perguntar ao Robert.”

Bem que a imprensa quer perguntar coisas a Fripp, 73, mas o guitarrista não dá entrevistas. E o King Crimson é mesmo dele, único integrante em todas as formações já criadas. 

“Sim, falam muito sobre Robert ser o dono da banda, mandar em tudo. É isso mesmo”, confirma Levin, rindo.

Mas ele destaca que tocar sob ordens de Fripp é incrível. Diz que o chefe é uma usina de ideias e tem na cabeça todos os rumos do King Crimson.

“Ao contrário de outros grupos que começaram no progressivo e tiveram suas guinadas para outros estilos, o King Crimson segue fazendo o que sempre fez. E o mais legal é que faz muitas coisas
diferentes”, brinca Levin.

Ele tem razão. Talvez Fripp seja o artista de rock que menos concessões fez ao showbizz. Yes e Genesis —para citar dois exemplos de gigantes de raízes progressivas— tiveram suas aventuras no pop, num rock mais acessível a quem liga o rádio. Fripp nem chegou perto disso.

“Você pode não saber o que vai encontrar num show do King Crimson, mas com certeza sabe o que não vai encontrar, ou seja, música fácil, tranquila. Robert é muito inquieto, genial”, afirma Levin, que tem muitas experiências ao lado de gênios nos palcos e nos estúdios.

Ele tocou em mais de 500 álbuns, contratado por nomes estelares, como Peter Gabriel, John Lennon, David Bowie, Tom Waits, Lou Reed, Dire Straits, Pink Floyd, Alice Cooper, Bryan Ferry e Paul Simon.

Levin já esteve no Brasil com Peter Gabriel e diz gostar da receptividade do público a vários tipos de som. “É preciso ter a mente aberta para novidades quando você vai a um show do King Crimson. A começar pelas três baterias no palco, o que abre espaço para muita experimentação.”

Jeremy Stacey, Gavin Harrison e Pat Mastelotto são os bateristas. Bill Rieflin também toca bateria, mas atualmente assume os teclados. O vocalista Jakko Jakszyk toca guitarra, flauta e teclados. Mel Collins é o saxofonista. Fripp e Levin, embora passem mais tempo na guitarra e no baixo, respectivamente, também se revezam nos teclados e computadores.

Se o repertório do King Crimson permite muitas mudanças de um show para outro, há duas fases da banda que sempre marcam boa presença na lista das músicas que serão tocadas.

“Discipline”, “Beat” e “Three of a Perfect Pair”, trilogia de álbuns lançados entre 1981 e 1984, fornecem 
várias boas faixas para as apresentações, entre elas o quase hit “Elephant Talk”.

“Quem define o que entra é Robert, mas acredito que ele misture coisas que os fãs querem ouvir com outras que são bem desafiadoras para tocar ao vivo”, diz Levin.

Mas a obra mais venerada é ainda o álbum de estreia, “In the Court of the Crimson King”, de 1969. Na formação desse disco, os vocais e o baixo estavam com Greg Lake, que sairia da banda poucos meses depois para formar o Emerson, Lake & Palmer.

Às vezes, o King Crimson toca na mesma noite quatro ou cinco músicas desse álbum, entre elas “Epitaph”, hino do rock e maior clássico da banda.

“Claro que temos de lidar com esse álbum, é uma obra-prima. O público ama esse disco, e nós também. 
O King Crimson pode desafiar as convenções de uma carreira típica de banda de rock, mas não vai deixar 
os fãs tristes”, afirma Levin.

King Crimson

  • Onde Espaço das Américas, r. Tagipuru, 795, São Paulo. Sexta (4), às 22h
  • Preço Ingressos esgotados
  • Onde Rock in Rio, palco Sunset. Domingo (6)
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