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Televisão

Com Olivia Colman no elenco, realeza britânica parece a máfia em 'The Crown'

Série da Netflix chega à terceira temporada com enredo mais sombrio

São Paulo

The Crown

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Olivia Colman, Helena Bonham Carter e Tobias Menzies
  • Produção Reino Unido, EUA

Elizabeth 2ª é um mistério. A monarca britânica passou a vida inteira sob o escrutínio público e, no entanto, sabemos relativamente pouco sobre suas opiniões pessoais. Para ela, ser um símbolo de estabilidade é muito mais importante do que qualquer demonstração de afeto ou emoção.

Mesmo assim, essa figura enigmática já rendeu dezenas de livros e obras audiovisuais. No cinema, Helen Mirren ganhou um Oscar por encarnar a monarca em “A Rainha”, de 2006. Anos depois, a atriz voltou a ser Elizabeth 2ª no teatro, em “The Audience” (em que a soberana recebia diversos primeiros-ministros britânicos ao longo de décadas). Tanto o filme quanto a peça foram escritos por Peter Morgan.

Esta última também serve de base para a série “The Crown”, cuja terceira temporada, depois de um hiato de dois anos, chega neste domingo (17) à Netflix. O título (a coroa, em português) revela quem é seu verdadeiro protagonista —não a pessoa de Elizabeth, mas a instituição da monarquia, com todo o seu peso e glória.

E que peso. Nesta nova safra, que cobre o período de 1964 a 1977, as obrigações e sacrifícios impostos à família real britânica estão mais árduos do que nunca. O tom é mais solene e sombrio do que antes, até porque todo o elenco principal foi trocado. Os personagens agora são interpretados por atores mais velhos e, quase sempre, mais circunspectos.

Olivia Colman, premiada com um Oscar no começo deste ano pelo papel da amalucada rainha Anne na comédia “A Favorita”, agora muda totalmente de registro. Sua Elizabeth 2ª não tem o frescor nem as inseguranças da feita por Claire Foy, sua antecessora no seriado. É uma mulher quarentona, conformada em desempenhar à perfeição as funções que a vida lhe reservou.

Seu entorno não compartilha da mesma disposição. O príncipe Phillip (Tobias Menzies, de “Game of Thrones”), frustrado por ser um eterno coadjuvante, entra na crise da meia-idade. A princesa Margaret (Helena Bonham Carter, extraordinária como sempre) enfrenta problemas conjugais. O jovem príncipe Charles (Josh O’Connor) percebe que não é dono do próprio nariz.

Apesar da ordem cronológica, quase todos os dez episódios podem ser vistos aleatoriamente, pois trazem histórias fechadas em si mesmas. As exceções são o oitavo e o nono, que mostram o começo do envolvimento de Charles com Camilla Shand (o sobrenome Parker-Bowles viria do casamento).

Alguns capítulos enveredam por meandros da política britânica da década de 1970. Dois deles exploram a intimidade de Margaret, cujo frenético estilo de vida jamais se coadunou com a austeridade exigida por sua irmã mais velha. Phillip, Charles e até lorde Mountbatten (Charles Dance, também de “Game of Thrones”) ganham episódios para protagonizar.

Um dos mais interessantes é destinado à princesa Alice de Battenberg (Jane Lapotaire), mãe do príncipe Phillip e irmã de Mountbatten. Convertida à Igreja Ortodoxa Grega e ordenada freira, no final da vida ela comandava um convento em Atenas. Quando um golpe militar derruba a monarquia grega, em 1967, esta exótica mulher é trazida às pressas para o Palácio de Buckingham, onde é um corpo estranho até para o próprio filho.

“The Crown” é um presente para os órfãos de “Downton Abbey”, com ainda mais pompa e circunstância. Mas também com um clima bem mais soturno, em que uma simples rusga familiar pode ter 
consequências planetárias.

Os episódios em que o clã (inclusive a princesa Anne, feita por Erin Doherty) se une para separar Charles e Camilla são reveladores. Os Windsor, neste momento, lembram mafiosos —com a vantagem de terem tanto poder e dinheiro que não precisam recorrer à violência física para se manter onde estão. Só à emocional.

Aí, talvez, esteja o defeito desta safra. A realeza parece ser um suplício. Em momento algum os personagens se alegram por não saberem o que é pagar um boleto.

Mas, para os aficionados pela história, “The Crown” é um prazer quase vergonhoso. E a quarta temporada promete ser ainda mais suculenta, com a entrada em cena de Margaret Thatcher e da princesa Diana.

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