Descrição de chapéu

De garota da camiseta molhada a sabonete na banheira, quadros de Gugu soam bizarros hoje

Falsa entrevista com integrantes do PCC em 2003 foi divisor de águas na carreira do apresentador

São Paulo

Da competição na banheira ao concurso da garota da camiseta molhada, passando por atores contratados para fingirem ser passageiros num táxi dirigido pelo apresentador, várias propostas dos programas de Gugu que teve sua morte anunciada nesta sexta (22), após ter caído de uma altura de quatro metros, aos 60 anos— soam bizarras aos padrões atuais.

Mas nada se compara à farsa do PCC, uma suposta entrevista com dois membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital, exibida no "Domingo Legal" em 7 de setembro de 2003.

A fraude foi a grande mácula na carreira do apresentador, um divisor de águas no seu histórico. Com a credibilidade arranhada, Gugu passaria a entrar em declínio a partir desse episódio.

Na ocasião, um repórter do Programa do Ratinho, Wagner Mafezoli, fingiu entrevistar dois encapuzados que fizeram ameaças de morte a figuras públicas como o então vice-prefeito de São Paulo, Hélio Bicudo, além dos apresentadores José Luiz Datena, Marcelo Rezende e do ex-juiz e comentarista Oscar Roberto Godói.

Os indivíduos também assumiram a tentativa de sequestro do padre Marcelo Rossi, ocorrida poucos dias antes. Rezende reagiu prontamente, acusou Gugu e sua equipe de irresponsáveis e protestou por não ter sido ouvido. Apresentador então do "Repórter Cidadão", na RedeTV!, e ex-repórter policial, Rezende conseguiu contato com um membro da facção e acusou a farsa, depois confirmada por inquérito policial.

Gugu nunca admitiu ter conhecimento da falsidade do caso, alegando que seu papel era apenas o de apresentar o programa, sem tomar parte das decisões da produção. No seu caso, mais do que de qualquer outro apresentador de TV, sabia-se que isso não era verdade. Gugu sempre atuou com alta atenção nos bastidores de sua equipe e tinha plena noção do que colocava no ar.

O Ministério das Comunicações multou o SBT e a Justiça atendeu a um pedido do Ministério Público ao suspender o programa duas semanas depois, no dia 21, como efeito de punição à emissora, já com a farsa comprovada.

Outra fraude promovida pelo programa era o Táxi do Gugu, mas isso já não prejudicava ninguém, a não ser a inocência de um público muito fiel ao apresentador. O quadro também fazia parte do "Domingo Legal", na época que o SBT disputava público cabeça por cabeça com o "Domingão do Faustão", da Globo.

Havia até um preparador de atores que era pago para treinar os supostos passageiros do táxi, sempre fingindo não reconhecer o motorista famoso, normalmente disfarçado com boné, chapéu ou peruca.

Recentemente, na Record, Gugu tentou ressuscitar o quadro da Banheira do Gugu, um ícone dos anos 1990, mas com figurino de banho mais comportado. Nos idos da Banheira original, Helen Ganzarolli e seus pares entravam uma espécie de jacuzzi no palco, em biquínis mínimos, com celebridades convidadas a disputar sabonetes embaixo d’água, onde as mãos dos competidores se precipitavam em busca do objeto requerido, podendo alcançar as partes do corpo do adversário à vontade.

Já o concurso da garota da camiseta molhada, onde as candidatas surgiam sem sutiã, naturalmente, era obra do "Viva a Noite", outro título de grande sucesso do apresentador nas noites de sábado do SBT.

Falamos de um tempo em que a classificação indicativa ainda era um esboço na TV e o então recente fim da censura do governo instigava produtores, diretores e apresentadores a testar os limites de tolerância do público, que se permitia hipnotizar por toda aquela alegoria de belas mulheres e criaturas diferentes.

Entre as grandes atrações do "Domingo Legal", por exemplo, está a dupla ET e Rodolfo, formada por Cláudio Chirinian e Rodolfo Carlos de Almeida, que usava um microfone de cabo alongado e se fazia acompanhar pelo colega, de estatura abaixo do normal. Os dois foram sucesso enquanto a audiência respondeu.

Apesar de todo esse painel parecer hoje algo não recomendável para crianças, os programas do Gugu e o próprio apresentador faziam enorme sucesso com o público infantil, havendo até uma réplica do titular, o Guguzinho, que se vestia e se apresentava ao lado do original.

As ideias mais improváveis do "Domingo Legal" de Gugu viraram piada para programas de humor desta década. Reproduzindo o tom de voz e o modo de falar do apresentador, Marcelo Adnet se abastecia daquelas ideias no “Tá no Ar”, programa encerrado neste ano, onde celebrava a prisão de celebridades de dentro de um furgão, aos risos.

O próprio Gugu admitiu, em entrevistas recentes, que hoje seria impossível reviver a Banheira do Gugu como era naquele tempo. Outros tempos.

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