Descrição de chapéu

Brennand soube em excesso, e suas criações revelam isso

Obra do pernambucano, sempre em progresso, bebeu de temas que iam da fauna brasileira à sexualidade

Rose Lima

Tive o prazer de conhecer Brennand em 1984. Estudante de arquitetura, fiquei totalmente deslumbrada com o local e a obra produzida pelo artista pernambucano, que criou uma espécie de “templo singular” nas ruínas da antiga fábrica do seu pai, desde 1971 transformada na Oficina Cerâmica Francisco Brennand.

Com o passar dos anos, tornei a voltar umas seis vezes ao local e pude acompanhar a instalação monumental, uma obra em progresso, formada por um conjunto de grande identidade artística que nos remete ao sagrado e ao mitológico.

São milhares de obras continuamente acumuladas, entre esculturas, murais, painéis, desenhos e pinturas que, independentemente do material ou técnica utilizados, possuem temas que são regidos pelo mistério da origem da vida e por elementos associados a esta temática: o nascimento, o ovo, as figuras de corpos e da mulher —geradora da vida.

De habilidades múltiplas e um repertório cultural impressionante, Brennand teve inspirações variadas, da mitologia greco-romana e oriental à história europeia, de pássaros e animais imaginários à mais genuína flora e fauna brasileira, de temas bíblicos aos alusivos à sexualidade. Alquimia com os quatro elementos: fogo, terra, água e ar!

Em 2016, mais uma vez, ao visitar a Oficina Brennand, o encontrei. Pleno, falante, esbanjando vitalidade e em plena atividade. À queima-roupa, lhe disse que meu maior sonho era fazer uma exposição dele, para comemorar seus 90 anos.

Homem velho sentado com bengala em meio a quadros
O pintor e ceramista pernambucano Francisco Brennand em seu ateliê no Recife - Jorge Bispo - 03.dez.2016/Divulgação

Ele respondeu: “procure minha filha, Conceição, que, apesar dos 60 anos, ainda chamo de Neném”. Fiquei numa felicidade enorme. Convidei uma amiga querida, Elaine Hazin, que assumiu a produção. E assim realizamos a exposição “Brennand, Mestre dos Sonhos”, em 2017, que tive a honra de assinar a curadoria. Um desafio de dupla comemoração, 90 anos de Francisco Brennand e 100 anos da Oficina.

O recorte foi a trajetória de um grande homem de acumulados talentos —pintor, desenhista, ceramista e escultor—, que nos orgulha por ser um artista brasileiro-pernambucano de referências universais.

A mostra construiu uma linha do tempo de sua existência, um tempo atemporal, no qual vitalidade, curiosidade, sabedoria e talento se expressam em arte e beleza. Circulou por cinco capitais, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza, sempre nas unidades da Caixa Cultural.

De vasta vivência, Brennand pode ser descrito como um sábio, traduzido como aquele que denota arte, sabedoria, habilidade e ciência, que possui extensos e profundos conhecimentos em várias áreas do saber, sejam eruditas ou contemporâneas.

Da literatura à filosofia, passando pela música e pintura, Brennand soube em excesso e sua obra assim o revela.

Para concluir, cito o amigo Ferreira Gullar: “...há artistas que, por assim dizer, se transportam de tal modo para a obra que se tornam ela, e outros que, pelo contrário, não cabem nela, transbordam, por mais obras que façam e caminhos que inventem”.

Deixa muita saudade, mas também um legado incrível e muita inspiração sobre o mistério da vida e a missão transformadora da arte. Fica a lembrança de um ser humano bom, generoso, brasileiro, nordestino, que muito refletiu sobre seu tempo e espaço com beleza e criatividade.

Rose Lima é diretora artística do Teatro Castro Alves, arquiteta e curadora de "Brennand, Mestre dos Sonhos", mostra sobre o artista exibida em cinco sedes da Caixa Cultural

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