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Livro de indicado ao Jabuti fala de minorias em história bem brasileira

Joia, que dá nome ao livro, é uma transexual que ganha a vida trabalhando num boteco de quinta categoria e vive no morro

História de Joia

  • Preço R$ 39,90 (88 págs.)
  • Autor Guilherme Gontijo Flores
  • Editora Todavia

“História de Joia”, de Guilherme Gontijo Flores, é feita de um emaranhado de ruídos, cores e cheiros que pode atordoar o leitor, deixando-o mareado. Uma frase do livro resumiria essa narrativa que vem como um fluxo de pensamento: “Adentrando a muvuca tudo é muito embaraços de vozes cheiros em flor do cansaço do dia caixas de som assaltam orelhas competem no espaço”.

O fato é que depois de o leitor entrar nessa “muvuca”, não tem mais como sair, pois já foi capturado pelo ritmo acelerado de uma prosa ora narrada por homem, ora por mulher, ora por criança.

E sabe-se tão pouco das personagens e, ao mesmo tempo, por meio de detalhes quase insignificantes, sabe-se muito —por exemplo, que Joia, que dá nome ao livro, é uma transexual que ganha a vida trabalhando num boteco de quinta categoria e vive no morro. Ela é testemunha dos mais variados tipos de violência, desde a policial, que para nas páginas do jornal do dia seguinte, até a violência econômica, que obriga seu corpo cansado de uma longa jornada a achar refúgio no “sofá vermelho, mequetrefe”, numa sala sem TV.

O escritor Guilherme Gontijo Flores - Divulgação

Aliás, essa é a sina dos personagens dessa aventura tão brasileira. Eles enfrentam estações de metrô lotadas, em que o cheiro da chuva se mistura com os “cheiros de mijo e cecê”. Nela, a negra precisa enfrentar a sua condição de escrava em pleno século 21. Condição que não irá mudar nem se alisar o cabelo “pixaim”, pois ela se dá conta de que suas costas, na verdade, doem mais do que o cabelo. Uma dor que ela leva para casa, onde continua sentindo a vassoura “tesa, reta, lisa” de seu trabalho. 

Na narrativa de Gontijo Flores, aqueles que são desconsiderados pelo sistema arranjam alguém para desconsiderar, uma minoria dentro da minoria. Daí surgem afirmações machistas como as que imputam à mulher a culpa pelo comportamento agressivo dos homens: “Elas é que geram o machismo, estão assim, ofertas, para qualquer um”; e pensamentos racistas como “a macaca, palavra que penso, mas não falo”.

Em seguida, porém, há uma denúncia do aumento de casos de feminicídio feita com colagem de reportagens de jornal.

Três epígrafes abrem “História de Joia” e, de certa forma, desvendam o que está por vir. São epígrafes políticas, excertos de obras de autores engajados: a primeira, de Judith Butler, afirma que a vida “excede qualquer relato que dela possamos dar”; a segunda, de Viviane Mosé, diz que “falo, falo, falo, falo o tempo todo, e é como se eu não tivesse falado nada”; a terceira, de Abel Meeropol, é um fragmento de “Strange Fruit” sobre o linchamento de dois negros nos Estados Unidos. Gontijo Flores fala, fala e assim dá voz àqueles que tentamos calar.

Os capítulos de “História de Joia” são identificados com símbolos usados nas cartas de tarô. Nesse sentido, parece que Gontijo Flores incorpora a famosa vidente Madame Sosostris, do poema “The Waste Land”, de T.S. Eliot, que vê “multidões andando em círculo” e lembra que “é preciso ser muito cuidadoso nesses dias”.

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