Teatro acirrou enfrentamento com conservadores em 2019

Governo respondeu às questões políticas e de gênero com cortes de subsídio e censura

Caco Ciocler e Marjorie Estiano em cena da peça 'Os Sete Afluentes do Rio Ota'

Caco Ciocler e Marjorie Estiano em cena da peça 'Os Sete Afluentes do Rio Ota' Michele Mifano/Divulgação

São Paulo

Ganharam força no universo teatral do país, neste ano, as pautas identitárias e sobre sexualidade. Os artistas estavam mais atentos em relação à representação de negros, travestis, mulheres, índios. Na direção oposta, o governo federal procurou uma forma de desestabilizar trabalhos desta natureza, esvaziando subsídios e criando formas de censura às peças.

Em tempos de ascensão conservadora, os clássicos da dramaturgia ganharam releituras ousadas discutindo temáticas sociais sob ótica dos negros, das mulheres e de transexuais. 

Foi o caso de “Gota d’Água {Preta}”, versão do musical de Chico Buarque e Paulo Pontes, “Black Brecht - E se Brecht Fosse Negro?”, “Manifesto Transpofágico”, da atriz travesti Renata Carvalho, do musical “Cangaceiras”, uma visão feminista sobre o cangaço, ou “Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante” e “Entre”, que denunciam a violência contra a mulher. 

Também houve uma crescente presença de indígenas no palco, como na versão de Bia Lessa para “Macunaíma”, em “Os Um e os Outros”, dirigido por Cibele Forjaz, em “Casa Submersa”, da Velha Companhia, e em “Brian ou Brenda?”, de Yara de Novaes e Carlos Gradim. Na peça “Luis Antonio - Gabriela”, da companhia Mungunzá, houve a inclusão de uma atriz transexual.

Com o balaio de pautas incômodas aos conservadores, a censura se manifestou. Até espetáculos com temas sobre regimes autoritários, como o infantil “Abrazo”, da companhia Clowns de Shakespeare, foram retirados de programações de espaços ligados ao governo federal, como o Centro Cultural Banco do Brasil, a Funarte e a Caixa Cultural. Esta última chegou a criar um sistema de censura prévia.

Os artistas de teatro reagiram e formaram um movimento, o Artigo 5º, em defesa da liberdade de expressão. 

 

Em junho, um dos mais conhecidos diretores da cidade de São Paulo deixou sua carreira para ajudar o governo a dar forma a suas ideias conservadoras. 

No primeiro semestre, Roberto Alvim assumiu a direção do Núcleo de Artes Cênicas da Funarte, tendo sido este seu primeiro passo em direção à Secretaria Especial da Cultura, a cujo comando ele foi alçado em novembro.

Alvim se dizia admirador do ideólogo do governo, Olavo de Carvalho, e defensor de uma “guerra cultural” contra a esquerda. Nas redes, ele chamou a atriz Fernanda Montenegro de sórdida e mentirosa. A atriz havia posado para a capa da revista Quatro Cinco Um, trajada como uma bruxa prestes a ser queimada em uma fogueira de livros em clara referência aos ataques pontuais de Bolsonaro à cultura. 

A entrada de Alvim para a política também significou o fechamento de um importante teatro de São Paulo, o Club Noir, do qual ele e sua mulher, Juliana Galdino, eram sócios.

Criadas em abril, novas regras na Lei Rouanet também fizeram diminuir o teto de captação para projetos, de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão, o que atingiu espetáculos musicais —segundo produtores, o corte provocaria uma grande retração no setor. 

Também foram afetados festivais e companhias de grande importância do cenário brasileiro, como o Grupo Corpo, a Cia. Deborah Colker e o Grupo Galpão, que até o fim do ano que vem perderão contratos de patrocínio de um programa da Petrobras. 

A política de Bolsonaro e Alvim provocou reações também no cenário político. Alê Youssef, na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, nomeou Hugo Possolo, ator e palhaço, para a direção do Theatro Municipal. E cedeu o espaço para que Fernanda Montenegro comemorasse ali seu aniversário de 90 anos, com o lançamento de sua biografia. Yousseff planeja, para janeiro, uma mostra com peças censuradas.

Houve, ainda no início do ano, a morte de Antunes Filho, um dos diretores mais importantes na história do teatro brasileiro. Longas palmas e gestos efusivos marcaram o seu velório no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, onde ele comandava o CPT, o Centro de Pesquisa Teatral, desde a década de 1980. 

Este também foi o ano em que o nos despedimos da atriz e cantora Bibi Ferreira, do diretor Francisco Medeiros, das atrizes Ruth de Souza e Etty Fraser, do cenógrafo e figurinista José de Anchieta e do diretor e produtor americano Hal Prince, entre outros. 

Também foi um ano gordo para os nostálgicos. Produções antigas deram as caras. A diretora Monique Gardenberg revisitou “Os Sete Afluentes do Rio Ota”, de Robert Lepage, trabalho que fez sucesso há 17 anos, e Zé Henrique de Paula encenou uma versão do filme “Dogville” (2004). 

Renato Borghi partiu para sua terceira montagem de “O que Mantém um Homem Vivo?”, com textos de Brecht, que já havia apresentado em 1973 e depois em 1982. Bia Lessa fez sua versão de “Macunaíma”, que havia ficado marcada pela adaptação de Antunes Filho no fim dos anos 1970. 

Pedro Cardoso e sua mulher, Graziella Moretto, resgataram sete peças de seu repertório. A estreia de “Lazarus”, de Felipe Hirsch, marcou a abertura do Teatro Unimed, na esquina da rua Augusta com a alameda Santos, na região paulistana dos Jardins. A casa fica no primeiro andar de edifício projetado por Isay Weinfeld. 

Quem chega ao local encontra a bilheteria já no térreo, ao lado do café Perseu. 

O teatro é revestido em madeira clara. O palco tem 100 m² com uma boca de cena ampla, além de fosso para orquestra. 

Ainda que conturbado, 2019 trouxe espetáculos bastante elogiados. Foi o caso de uma montagem de “Mãe Coragem”, de Bertolt Brecht, idealizada e protagonizada por Bete Coelho e dirigida por Daniela Thomas, que pôs seu elenco sobre um extenso chão fofo de terra preta. E de “As Comadres”, que a francesa Ariane Mnouchkine, diretora do célebre Théâtre du Soleil, encenou com elenco brasileiro.

Também foi o caso de “Fim”, dirigido por Felipe Hirsch; “As Crianças”, com direção de Rodrigo Portella; e “Stabat Mater”, em que a atriz, diretora e dramaturga Janaina Leite trafegou entre biografia e performance para discutir o papel da mulher na sociedade. 

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