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Seres folclóricos se reúnem para celebrar morte de caçador na HQ 'Silvestre'

Traços tortuosos e pinceladas imprecisas de Wagner Willian deixam obra com feições de caderno de rascunhos

Silvestre

  • Preço R$ 69,90 (192 págs.)
  • Autor Wagner Willian
  • Editora Ed. DarkSide Books

Todo ano, o quadrinista e ilustrador Wagner Willian assina uma das grandes HQs nacionais daquela leva.

Foi assim desde 2016, com “Bulldogma” (Veneta). Marco recente dos quadrinhos brasileiros, a ficção científica nonsense acompanha uma quadrinista que tenta conciliar sua vida de freelancer com episódios sobrenaturais relacionados ao seu novo apartamento.

Em 2017 foi a vez de “O Maestro, o Cuco e a Lenda” (Texugo), sobre um músico que retorna à fazenda na qual foi criado ao saber da morte do avô e vivencia uma experiência delirante de confronto com memórias e segredos de infância.

O livro foi publicado em Portugal pela editora Polvo, e na Bélgica e na França, pela Casterman, gigante do mercado europeu de quadrinhos.

No ano seguinte, Willian publicou “O Martírio de Joana Dark Side” (Texugo), que reimagina o julgamento da heroína francesa Joana D’Arc e propõe um paralelo da história da santa católica com os abusos impostos pelo cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer à atriz Renée Falconetti durante as filmagens de “A Paixão de Joana D’Arc” (1928).

O trabalho mais recente do quadrinista chegou às livrarias no final de 2019.

“Silvestre” (DarkSide) rompe com o preto e branco dos três últimos álbuns e minimiza a presença do digital na arte de Willian. Ele mescla canetinhas esferográficas, lápis, pinturas a óleo e óxido de ferro e nanquim para conceber um quadrinho visualmente impactante. A arte já justifica sua leitura.

Mas o apelo de "Silvestre" não se limita às ilustrações de Willian. A HQ é composta por três atos e um epílogo narrando a aventura derradeira de um caçador. Ele rememora aquela que teria sido sua grande caça e vê sua cabana sendo visitada por várias entidades místicas que habitam a flora e a fauna de diversos contos, lendas e fábulas. Estão lá do Diabo à Cuca, em uma espécie de celebração e julgamento final de uma vida dedicada à natureza selvagem.

Os três álbuns prévios do autor se fazem presente em “Silvestre”, mas a nova obra destoa das anteriores.

Há um pouco do absurdo de “Bulldogma”, do onírico de “O Maestro” e do cenário de julgamento de “O Martírio”, mas a experiência de leitura é diversa. Às vezes lembra mais um livro ilustrado do que uma HQ e não há padrão nos designs das páginas. Os traços tortuosos e as pinceladas imprecisas dão feições de caderno de rascunhos.

Willian é um virtuoso dos quadrinhos. As 192 páginas giram em torno de uma trama mínima, os últimos instantes de vida do protagonista, o choque entre a técnica e a racionalidade do caçador frente à vida selvagem ao seu redor.

Há personagens redundantes e referências obscuras que podem truncar a leitura, mas são excessos em prol da experiência catártica que o livro se propõe a ser.

Um dos grandes quadrinhos nacionais de 2019, “Silvestre” é um raro exemplar de obra experimental e narrativamente propositiva realizada com suporte público. Publicada após seu projeto ficar com o primeiro lugar do primeiro Edital de Publicação de Histórias em Quadrinhos da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, ela foge do apelo costumeiramente didático e conservador das obras aprovadas em editais.

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