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A graça do livro 'Preocupações' está no tom, uma resignação bem-humorada

Terceiro livro da poeta Ana Guadalupe escrutina aquilo que se disfarça ou escamoteia

Preocupações

  • Preço R$ 38 (84 págs.)
  • Autor Ana Guadalupe
  • Editora Macondo

Terceiro livro da poeta Ana Guadalupe, “Preocupações” escrutina aquilo que se disfarça ou escamoteia. A graça está no tom, uma resignação quase sempre bem-humorada.

O desconforto segue de perto as preocupações do título —e inclui não só o desconforto que é descrito ou analisado nos poemas, mas sobretudo aquele que a escrita de Guadalupe é capaz de provocar em quem lê.

Há um bom exemplo do modo como a sensação é encarada. Em “amor desconforto”, um casal busca a intimidade que surge com o convívio. Primeiro, “desconfortáveis/ os novos namorados/ querem conforto”. Depois, “no conforto/ os velhos namorados/ ficam desconfortáveis”.

Trata-se da repetição que resulta não só em monotonia, mas também em um certo acúmulo de resíduos, em todos os sentidos da palavra.

Capa do livro 'Preocupações'
Capa do livro 'Preocupações' - Reprodução

Em “allan kardec”, um espírito entediado observa, do sofá onde está estatelado, a rotina maçante das pessoas da casa —evidenciada pelos farelos de pão que se acumulam no teclado do computador. Em “os olhos”, um casal vê a poeira “que se espalha implacável/ pelos cantos do quarto”.

Ainda que as imagens evoquem a mesmice e a paralisia, o transitório e precário não estão ausentes. As várias mudanças de casa, abordadas em mais de um poema, revelam que a familiaridade pode estar não num lugar, mas no movimento constante.

Além de provisória, não raro a casa é decrépita. As “paredes se despedaçam/ alguém se despede rápido/ janelas despencam na brisa”.

A casa está prestes a ruir, e, na despedida rápida inserida entre dois versos, intuímos que mais alguma coisa vai desmoronar. É quando a poeta fala dos vínculos (ou da falta deles) que o humor mordaz se torna mais pronunciado. Em “as pessoas que não nos salvariam do desastre”, identificamos aquelas que “demorariam dez segundos a mais para afastar o fio elétrico”.

A debilidade das relações afetivas também é igualada à do corpo. Assim, “quando amamos quem tem mau hálito/ todo amor é generoso e esforçado”. Quando ele termina, “basta passar com energia o fio dental/ para projetar/ no ar// o sangue/ e o rastro de tártaro/ que hoje são o corpo do ser amado”.

“Preocupações” dá conta do amarfanhado, do rachado, do manchado, do rançoso, dos amores que não vingaram ou vingaram e apodreceram, da recorrência. Se há ilusões, elas não duram muito —como a “gaivota que na janela se revela pomba”.

Ana Guadalupe não dá um polimento artificial à banalidade que compõe a maior parte da vida, tampouco seleciona o que há de neutro ou tranquilizador. Em vez disso, escolhe ângulos duvidosos a fim de capturá-los com uma franqueza divertida. A pomba, se não é uma gaivota, pelo menos exibe “um voo impressionante”.

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