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Cinema

Filme com Michael B. Jordan nos lembra que estamos em um mundo construído sobre o racismo

'Luta por Justiça', porém, nem de longe pode sonhar em se equivaler a algum filme de Jordan Peele

Luta por Justiça

  • Quando Estreia nesta quinta (20)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Michael B. Jordan, Brie Larson, Jamie Foxx
  • Produção EUA, 2020
  • Direção Destin Daniel Cretton

Uma coisa muito estranha acontece no início de “Luta por Justiça”: não há branco que cruze com o advogado Bryan Stevenson (Michael B. Jordan), mal ele chega a um condado do Alabama, que não lhe recomende ir ao museu de “O Sol É Para Todos”. Não perca a chance, é ali mesmo, é um marco da luta por direitos etc. etc.

“O Sol É Para Todos” é um romance célebre publicado em 1960 e transformado em filme não menos célebre dois anos depois por Robert Mulligan. Ali, Gregory Peck é Atticus Finch, um advogado que, com muita coragem, defende um negro acusado injustamente de racismo. Consegue ganhar a causa, o que no Alabama é quase um milagre. Estávamos na era da Depressão, ali entre os anos 1930 e 1940 do século 20.

Aqui, Bryan Stevenson é um jovem advogado negro formado em Harvard que decide ir para o Alabama para defender negros que estejam na mesma situação do homem defendido por Peck no filme de 1962.

Bryan, no entanto, encontra uma situação que parece não ter se movido um milímetro desde a Depressão. E agora estávamos no fim dos anos 1980 do século 20. Os presidiários negros são expedidos para a cadeira elétrica quase sem julgamento, com provas forjadas, advogados desinteressados e tudo mais.

Ou seja, com Bryan Stevenson (e tendo por base num livro autobiográfico do próprio) entramos na esfera dos filmes edificantes e ineficazes (do ponto de vista dos resultados práticos), tal como no caso de “O Sol É Para Todos”.

Como escritor, Stevenson recebeu várias honrarias. Sua história torna impossível (ao menos a não racistas) dizer que elas não foram merecidas. E no entanto... s quase 60 que separam “O Sol É Para Todos” de “Luta por Justiça” são uma prova viva de que de lá para cá muito pouca coisa mudou no racismo do Sul dos EUA. E não só do Sul dos EUA, claro.

Ainda assim é lá que estamos, ao lado de Stevenson. Isso depois das lutas dos anos 1960, de Bob Kennedy, Malcolm X, Angela Davis, Panteras Negras e tudo mais.

E ainda assim, vamos ver “Luta por Justiça” em busca de justiça, nos comovemos, até choramos com a força e a atitude destemida de Stevenson e seus raros ajudantes (alguns brancos, inclusive). Ao longo de um filme de altos e baixos, a luta também terá altos e baixos, mas sairemos de lá com a convicção de que, afinal, se fez justiça, que de agora em diante todos serão tratados igualmente, que ninguém mais será condenado pelo simples fato de ser negro.

Esse tipo de sentimento agradável, enfim, que o cinema americano (o liberal, sobretudo) sabe nos transmitir em quase todos os finais. O mesmo tipo de sentimento com que saíam do ciinema os espectadores de “O Sol É Para Todos”.

Serve para nos lembrar que Stevenson é, sim, um homem exemplar. E serve ainda para nos lembrar que estamos em um mundo, em 1930 como em 1989 ou 2020, construído sobre racismo, injustiças, boçalidade etc.

Isso não basta para fazer um bom filme, e “Luta por Justiça”, levado convencionalmente, está longe disso (nem de longe pode sonhar em se equivaler a algum filme de Jordan Peele —sem dizer que o diretor deste filme é havaiano). Esse entorno do filme serve, no entanto, para de algum modo para torná-lo relevante. Talvez não valha muita coisa daqui a dez anos, mas, sim, faz sentido hoje.

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