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Lobby para Oscar inclui bater ponto em festas e torrar verba

Fernando Meirelles cancelou compromissos para cumprir 'agenda eleitoral'

Rio de Janeiro

"E o Oscar vai para"... quem tiver grana para fazer lobby com os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A campanha para emplacar uma produção entre os indicados da premiação, afinal, não depende apenas da excelência dos concorrentes.

Importam e muito as cifras desembolsadas pelos estúdios, boa parte delas gasta para levar cineastas às festas da Academia –como a que Petra Costa, que teve o seu "Democracia em Vertigem" indicado a melhor documentário, foi no último dia 27.

De acompanhante, ela escolheu Sonia Guajajara, vice do presidenciável Guilherme Boulos (PSOL) em 2018. "Dia incrível com grandes encontros", escreveu a líder indígena numa foto do Instagram: ela, Petra e Robert De Niro. Também posaram com Brad Pitt e Leonardo Di Caprio.

Desde setembro, a documentarista tem frequentado eventos em Nova York, Los Angeles e Londres, que concentram exibições das obras que pleiteiam o Oscar e, por que não?, coquetéis para socializar depois com os componentes da Academia.

Sonia Guajajara, Petra Costa e Leonardo DiCaprio no almoço para os indicados ao Oscar - Instagram/guajajarasonia

Se "Dois Papas" conseguiu figurar em três categorias para a cerimônia de 2020, que acontece neste domingo (9), acredite: "Essas indicações, elas não são de graça".

Palavras de seu diretor, Fernando Meirelles, que falou no Roda Viva transmitido na segunda (3) sobre a romaria pela qual passou para persuadir o pessoal do Oscar que seu filme merece um lugar ao sol. 

O diretor conta que cancelou quatro meses de compromisso só para cumprir o que comparou a uma agenda eleitoral. Está desde outubro indo a festas e debates, disse. “Nunca tinha feito isso. 'Quer saber, vou desmarcar tudo o que tenho'. Fiquei que nem um candidato fazendo campanha.”

Em 2003, a Academia esnobou seu "Cidade de Deus" na briga por melhor filme estrangeiro. No ano seguinte, a obra laçou quatro indicações após um lobby que teve a mão de Harvey Weinstein, o ex-todo-poderoso de Hollywood que caiu em desgraça por acusações de assédio.

Com quem Meirelles esbarrava direto nos últimos meses? A conterrânea Petra. "Cruzava com ela nas festas. O filme dela tinha páginas inteiras nas revistas. O que eles gastam em propaganda..."

A Netflix, que produziu "Dois Papas" e "Democracia em Vertigem", diz que não abre os valores investidos nesses comícios do Oscar. Quem é do meio estima que estúdios podem separar até US$ 15 milhões (cerca de R$ 63 milhões) para suas grandes apostas do ano.

Mas a politicagem escancarada pega mal, dizem os que já passaram pela experiência. O ideal é ser um pouco blasé, como se estivesse nessas festinhas para celebrar o cinema e, ora, beber um bom vinho.

"Nunca tive paciência de ir a festas, nem quando o projeto é meu", afirma José Padilha. "Padeço de preguiça aguda!" Diretor dos dois "Tropa de Elite", ele reconhece, contudo, que "nomeação tem muito a ver com política e dinheiro em marketing".

Nesse sentido, "o Oscar é bem diferente de festivais como Cannes, Berlim", diz. "Neles, a política conta menos porque o júri é pequeno. O filme pesa mesmo sem marketing."

Não é permitido dar brindes (o tal do jabá) nem declarar a escolha em público, mas um par da Academia que prefere não ser identificado diz que nem todos cumprem à risca.

Exemplo: muitos votantes são profissionais do cinema e cobiçam trabalhar no futuro com alguém que tenta uma vaga no Oscar. Daí não ser tão raro chegarem na chincha e segredarem: “Então, meu voto é seu”.

A Academia não revela quantos representantes tem (projeta-se algo próximo de 8.000), mas vem se esforçando para ampliar a diversidade de seu quadro. Em 2019, convidou 842 pessoas, 50% delas mulheres e 29% não brancas.

Todos estão habilitados a votar nos vencedores, desde que paguem uma anuidade –US$ 350 (R$ 1.486), segundo Anna Muylaert, associada desde 2016. Dá para ungir uma produção na qual você trabalhou, e nem sequer é preciso assistir a todos os filmes inscritos numa modalidade, daí a importância do lobby.

Muylaert já vestiu os sapatos de candidata. Há quatro anos, tentou (sem êxito) emplacar "Que Horas Ela Volta?". Conta que foi a só uma festa, a própria, cheia de “velhinhos da Academia” e com um “acarajé americano horrível” encomendado pela equipe de relações públicas.

"Engraçado é que quem te cumprimenta estende a mão e diz: 'Nice to meet you, I'm a member [prazer em conhecer, sou um membro]'. Tipo, 'me trata bem que posso votar em você'. Agora 'I'm a member' e recebo tudo o que eles mandam pra me convencer. De outubro a fevereiro a campainha não para", afirma.

Outro brasileiro filiado à Academia, o produtor Rodrigo Teixeira (de "Me Chame pelo Seu Nome" e "Ad Astra") reconhece: "Óbvio que fazer corpo a corpo ajuda muito mais. Se o filme não tiver presença, não vai ser eleito. O membro quer poder apertar sua mão".

Mas nem todo o dinheiro do mundo fará milagre por uma obra para a qual os votantes torcem o nariz, afirma. "Um filme que todo mundo tinha certeza que seria indicado, mas nada, é o 'Joias Brutas'. É um pouco de conservadorismo, acho. Os caras votam em diretores mais consagrados, que eles conhecem.”

Há macetes para deixar sua produção mais "sexy" aos olhos desses eleitores, segundo Teixeira. "Se você chamar o Spielberg para apresentar seu filme [nas exibições pré-Oscar], todo mundo vai querer ir, o cara é lenda."

Recurso absorvido pela Netflix para divulgar "Democracia em Vertigem", aliás. "Contamos com a ajuda de vários anfitriões, como Caetano Veloso, Spike Lee e Wim Wenders", diz Petra.

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