Em meio à guerra cultural, indústria investe em pautas de esquerda

Já é possível falar em um 'red money', ou dinheiro vermelho, fenômeno que tem suas contradições

São Paulo

A direita vê uma marcha de sacripantas prontos para disseminar ideias malignas e perverter a cultura ocidental. A esquerda, por sua vez, mais otimista, acha ser o nascimento de uma nova consciência —e, com ela, uma sociedade mais fraterna.

Ambas olham o mesmo objeto: uma indústria cultural que, cada vez mais, aposta em livros, filmes, músicas e outras obras feitas para agradar o público progressista —ou animar os convertidos, alguns dirão venenosamente—, ao apostar em especial na pauta de diversidade.

Há aí um aparente paradoxo. Enquanto eleitores do mundo todo buscam aconchego nos braços da ultradireita, os negócios da cultura colhem sucesso com produtos em outro lado do campo político, mas feitos para as mesmas sociedades que elegeram Trump e Bolsonaro.

Nem marxismo cultural nem nova consciência. Uma outra explicação, mais pueril, pode ser um batido axioma —“É a economia, estúpido”. Aquela velha história de oferta e procura.

Na cultura, se consolidou um mercado em torno das pautas de esquerda, e já é possível falar em um “red money”, ou dinheiro vermelho. Um fenômeno que tem lá suas contradições.

No ano passado, por exemplo, os estúdios do cinemão americano anunciaram seus filmes com elencos latinos, heroínas mulheres, personagens negros. Mas, olhando de perto, era estranho: quem liderava as produções eram os homens. A Warner tinha 15 filmes, mas três com mulheres na direção. Na Universal, a soma era 15 contra quatro. O público não parece se importar, a aparência de boas intenções é suficiente.

A Universidade da Califórnia lança todo santo ano um estudo sobre a diversidade em Hollywood. O último, recém-publicado, mostra que o público não branco foi responsável pela compra da maior parte dos ingressos dos dez filmes mais rentáveis de 2019. Só 16% dos longas de maior bilheteria tiveram elencos com menos de 11% de representantes de minorias.

Neste ano, há mais na linha de produção: “Mulher Maravilha 2”, o remake live-action de “Mulan”, a Diadorim chinesa, e “Os Eternos”, primeiro longa da Marvel com um herói gay. Isso para ficar só pelas beiradas.

Há o filão do feminismo no mercado de livros também. A poesia motivacional de Rupi Kaur vendeu aos milhões no mundo inteiro, e as editoras buscam sucessos do tipo.

Para não ficar só no universo do dinheirão, há exemplos no mundo modesto da nova MPB. A cantora Ana Cañas, que começou a carreira com músicas existenciais, abraçou a militância. Fez letra sobre feminismo, se apresentou para o MST, vestiu o boné. Quando lançou seu último disco, “Todxs” (2018), já havia ultrapassado um milhão de ouvintes no Spotify.

“Eu, que fui da geração Xuxa, acho importante que meninas negras possam se ver [representadas em produtos culturais]”, diz a escritora e ativista Djamila Ribeiro, colunista da Folha. “Quando só chamam brancos também há exploração econômica, e não vejo esse debate. Questionam ‘Pantera Negra’, mas não ‘Homem de Ferro’.”

Sua questão, afirma, é se por trás desse movimento há pessoas negras prosperando —quer saber se, na revista de moda que vende diversidade na capa, há uma diretora de Redação negra. “Mas há a questão do esvaziamento, achar que se pode vender empoderamento. Quando ligam empoderamento e consumo eu acho que é um problema.”

No livro “Políticas do Design”, que a Ubu lança em abril, o ativista e designer holandês Ruben Pater tenta mostrar como a comunicação visual não é politicamente neutra —e pega marcas com a boca na botija. Mostra, por exemplo, uma página online em que uma empresa americana conta como é bem intencionada e diversa. A foto no site que mostra funcionários de todas as cores, contudo, é de um banco de imagens.

Em outro caso, a Universidade de Wisconsin resolveu fazer uma brochura cuja a capa trazia alunos torcendo numa arquibancada. Como eram todos brancos, alguém resolveu incluir digitalmente —e de forma grosseira— um estudante negro no meio do grupo. A instituição acabou processada pelo aluno.

“Empresas não seguem uma orientação moral ou política, seguem uma orientação exclusivamente comercial”, diz o ensaísta Francisco Bosco, autor de “A Vítima Tem Sempre Razão?” (Todavia), no qual critica a militância identitária brasileira. “Se o vício privado coincidir com o benefício público, ótimo. Mas nem sempre isso acontece.”

Bosco vê uma contradição, por exemplo, na campanha publicitária contra o assédio que a Uber realizou durante o carnaval. “Você é do bloco dos assediadores, racistas ou LGBTfóbicos? A Uber não é para você”, dizia uma das peças.

“Aí tem um cinismo gritante. A empresa que é símbolo do processo de exploração do capitalismo, que vem sendo chamado de ‘uberização’, tentando posicionar sua marca como uma marca orientada pelo interesse coletivo”, afirma Bosco.

A consultora Regina Augusto, especializada em comunicação e diversidade, com uma carreira de décadas em agências, explica que as marcas hoje têm como público os millennials e a geração z —um público bastante politizado. Para ela, é um mercado onde a neutralidade se tornou impossível.

“As marcas têm feito um contraponto à onda conservadora de parte da população brasileira”, afirma. “Se a gente pensar que o apoio grosso [do Bolsonaro] é de um terço da população, você tem 70% que pensa diferente, num espectro que vai dos mais radicais aos moderados. Olhando friamente do ponto de vista de mercado, faz mais sentido falar com 70%. Ainda que os 30% façam mais barulho.”

Augusto lembra um fato importante para quem vê movimentos ideológicos orquestrados dentro dos negócios: em marcas grandes, nenhuma decisão é tomada sem muita pesquisa de mercado. “São milhões de dólares gastos antes de lançar qualquer projeto. Se eles tomam determinada decisão, é porque vale a pena.”

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